Dune: Parte Um – Isto é só o começo (Crítica com Spoilers)

É estranho, é diferente, é uma experiência original. Bem vindos a Dune.

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“O mistério da vida não é um problema que deve ser resolvido, mas uma realidade que deve ser experienciada”. Frank Herbert, Dune.

Nota de editor: O seguinte texto é uma versão extensa da crítica originalmente publicada, dirigida para quem já assistiu ao filme e/ou está familiarizado com a obra de Frank Herbert.

Se vieram aqui à procura de puro espetáculo, podem ficar desapontados. Mas, se vieram à procura de uma visão original de um dos universos de ficção científica mais amados de sempre, este é o filme certo.

Dune conta a saga da família Atreides, uma família nobre que ,ao longo de gerações, vai guerrear e acabar por derrubar o Império Corrino, um império intergalático. Esse conflito surge da batalha pelo controlo da especiaria melange, um produto que permite, entre outras coisas, viagens espaciais, manobrar o espaço-tempo e expandir a longevidade. Essa especiaria só existe num planeta em todo o universo, Arrakis, também conhecido por Duna.

Este primeiro capítulo da saga realizado por Denis Villeneuve adapta a primeira metade do primeiro livro. Aqui encontramos Paul Atreides, que no início do filme acompanha a sua família nobre numa missão de governação de Arrakis. Sob ordens do Imperador, a Casa Arrakis vai substituir a Casa Harkonnen nas operações de extração de melange. Esta é uma jogada política do Imperador, que quer colocar duas casas rivais em guerra para reduzir a ameaça ao seu trono. Eventualmente, as operações dos Atreides são vítimas de sabotagem e eles são traídos e atacados pelos impiedosos Harkonnen. Com o seu clã destruído e exilado para o deserto junto com a sua mãe, a concubina guerreira Jessica, Paul começa uma viagem para vingar o seu pai, derrubar o Império e, quem sabe, tornar-se no mítico Kwizats Haderach, o profetizado ser que trará paz à humanidade.

É um feito de Villeneuve conseguir passar para o grande ecrã o lado humano desse universo intrigante e complexo, ao ponto de não nos sentirmos perdidos nas intrigas políticas e dramas existenciais dos seus personagens. Villeneuve e os guionistas, Jon Spaith e Eric Roth, fazem um bom trabalho de equilibrar esses conflitos internos e externos, e ao mesmo tempo subverterem as nossas expectativas em relação à estrutura do filme. Digamos que este conto épico não termina com o clímax que esperavam e, no final do filme, percebemos que a grande mudança ocorre não no universo representado, mas no interior do protagonista. Tudo o que vimos de fantástico foi apenas uma mera introdução a uma aventura maior que está para vir e que vai depender totalmente de Paul tornar-se um homem e, finalmente, um líder.

Dune

Villeneuve escolhe eliminar qualquer excentricidade fantástica dos seus personagens, tornando-os mais naturais do que na malograda versão de David Lynch, de 1984. Numa história com tantos personagens ricos, ainda por cima interpretados com atores de destaque, há uma pequena sensação de desequilíbrio de alguns personagens em relação a outros. Mas no fim de contas, os atores estão todos ótimos nos seus papéis. Timothée Chalamet veste bem a pele do herói Paul Atreides, passando facilmente de frágil e ingénuo para capaz e letal. Rebecca Ferguson encanta pela sua vulnerabilidade e impiedade como a mãe guerreira, a Dama Jessica. Josh Brolin e Oscar Isaac, Gurney Halleck e Leto Atreides respetivamente, parecem saídos das páginas do livro.

Alguns personagens, no entanto, poderiam ter recebido um pouco mais tempo de ecrã. Estou a falar dos fremen, como Stilgar e Chani, interpretados por Javier Bardem e Zendaya, mas fica claro que estes personagens misteriosos, nativos de Arrakis, serão uma presença mais habitual na sequela. Também os antagonistas como o Doutor Yueh, interpretado por Chang Chen; Glossu “A Besta” Rabban, interpretado por Dave Bautista; ou Piter De Vries, interpretado por David Dastmalchian, são cativantes o suficiente para os querermos ver mais. Destes três, Bautista destaca-se por conseguir imbuir num personagem tão agressivo uma humanidade frágil na sua necessidade de impressionar o seu tio, o Barão Vladimir Harkonnen. E falando do Barão Harkonnen, o grande vilão do filme, este talvez seja o personagem que mais se destaca entre os presentes. Mesmo sob camadas de próteses e maquilhagem, Peter Skaarsgard assume o papel de antagonista flutuante com uma sobriedade, frieza e melancolia que o tornam tão perturbador como trágico.

Na sequência do ataque dos Harkonnen aos Atreides, Villeneuve, até agora um realizador mais ponderado e subliminar, mostra que dá bem conta do lado espetacular e épico do projeto. A realização de Villeneuve torna a trágica batalha num espetáculo quase operático, teatral, com o caos e destruição a serem representados com melancolia. É estranhamente belo ver as naves dos Atreides rebentarem lentamente e os seus guerreiros a serem mortos à traição, como um prenúncio de uma dinastia que chega ao fim inevitável.

As sequências que acabam por impressionar mais não são as de batalha, mas os momentos com os temidos Shai-Hulud, os gigantes vermes que habitam por baixo da areia de Arrakis. Apesar de ser bem diferente das versões anteriores, quase todas inspiradas nas ilustrações de John Schoenherr, os vermes de Villeneuve tem uma imponência e realismo que as torna quase tangíveis e mais profundas emocionalmente do que se esperava. No final do filme, estamos tão intrigados com estas criaturas como com o destino dos personagens.

Dune

Mas o filme é mais um drama trágico do que uma aventura. Villeneuve preocupa-se em fazer um filme ponderado sobre crescimento e, ao mesmo tempo, em tornar plausível o universo representado. Sentimos a angústia dos personagens ao terem consciência que são peças num jogo que lhes é desconhecido. A tragédia torna-se ainda maior quando as personagens aceitam o seu fim inevitável e nós percebemos que estamos a ver um filme sobre a destruição de uma família. Mas o filme também é sobre renascimento e controlo do destino, e aqui Paul destaca-se. Como herdeiro sobrevivente dos Atreides e Messias fabricado, ele sente-se dividido entre a sua vontade de assumir o seu papel na família e a descoberta de toda a sua vida ter sido manipulado para assumir um papel de salvador universal. O filme sofre um pouco por não explorar mais esse conflito interno no protagonista, mas fica uma promessa para as sequelas vindouras.

Quanto ao universo em si, desde os costumes dos povos, o uso de várias linguagens humanas e derivadas, os combates corpo a corpo com lâminas curtas, os vestuários com claras influências de culturas humanas antigas, os veículos estranhamente funcionais, até a arquitetura egípcia de Arrakeen, a capital de Arrakis, tudo é plausível e parece real. A mistura entre cenários reais e os efeitos visuais gerados por computador traz uma sensação de realismo e peso tanto aos lugares, como aos personagens. Cito por exemplo um momento em que os temidos Sardaukar, os guerreiros fanáticos do imperador, encontram e atacam um dos esconderijos dos nossos heróis. O plano usado para mostrar esse momento é tão belo no seu enquadramento e uso de personagens reais que os elementos de CGI tornam-se invisíveis. Ao contrário de outros blockbusters, aqui os efeitos especiais existem realmente em função da história.

Quanto à estética em si, encontram muitas semelhanças a outros trabalhos do realizador, como Arrival e Blade Runner 2049. Tanto nos vestuários, como no design das naves, das cidades, das armaduras, tudo é semelhante à nossa civilização, curiosamente verosímil. Destaco, no entanto, algumas influências de Moebius, o conhecido ilustrador francês que participou no desenvolvimento da primeira tentativa de adaptar o livro para cinema, com Alexandro Jodorowsky. As naves e guerreiros presentes na sequência inicial, e a sequência em que visitamos o planeta dos Sardaukar e conhecemos pela primeira vez essa temida legião, são claramente tiradas das páginas de Moebius.

Também é de destacar uma influência de HR Giger – outro colaborador de Jodorowski nesse projeto no design de Geidi Prime, o planeta dos Harkonnen, um pesadelo industrial que não deixa de ter a sua beleza. No filme, tal como no livro, os Harkonnen representam a exploração desenfreada de recursos. Num momento sublime, o Barão Harkonnen ordena a exploração da especiaria enquanto ele toma um banho curativo feito do que parece ser petróleo. Tão perversos como doentios, há um lado de tragédia nestes vilões, um comentário assumido à exploração descontrolada do meio ambiente.

dune echo boomer 5

Como último destaque, tem que se referir a incrível banda-sonora de Hans Zimmer. O compositor veterano apresenta alguns dos seus trunfos habituais, mas também uma versatilidade impressionante. A banda-sonora encanta não só pela sua melodia, como pela sua sonoridade quase alienígena. Parece que a música que acompanha o filme, ao mesmo tempo parece estar a falar connosco numa língua de Arrakis.

As falhas do filme estão em ser demasiado introdutório na sua estrutura e em sentirmos que a transformação de Paul é um pouco forçada. Por exemplo, no ponto de viragem do filme, quando a grande traição ocorre, esperamos uma sensação de perda da parte de Paul, mas ele assume o seu destino demasiado facilmente. Perguntamo-nos onde está o seu sofrimento perante a circunstância de perder o seu pai e o seu clã. A culpa não é de Chalamet, mas parece que os guionistas estavam mais preocupados em forçá-lo a tornar-se um líder do que em construir essa transformação. É uma pena porque no livro, Paul sempre foi um protagonista interessante porque mesmo quando assume o manto de messias, continua intrinsecamente humano.

O livro nunca foi só uma space opera, ou só um drama de personagens ao longo de gerações. É um misto orgânico entre fantástico e dramático, a viagem do herói e determinismo humano. Nesta adaptação, temos o prenúncio disso. Dune Part One é o início desta mítica jornada do herói. Que isto não vos afaste do filme. É um início que vale a pena ver. É estranho, é diferente, é uma experiência original. Bem vindos a Dune. Isto é só o começo.

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