Crítica – Tick, Tick… Boom!

Com música memorável, viciante e de “primeira classe” interpretada por atores talentosos, Lin-Manuel Miranda apresenta uma das melhores obras musicais do século.

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Sinopse: “Jon (Andrew Garfield) é um jovem compositor de teatro que serve às mesas em Nova Iorque, em 1990, enquanto escreve aquele que espera tornar-se o próximo grande musical americano. Nos dias antes da apresentação decisiva do seu trabalho, Jon sente a pressão de todos os lados: da namorada, Susan (Alexandra Shipp), que sonha com uma vida artística para além de Nova Iorque; do amigo, Michael (Robin de Jesús), que abandonou o seu sonho em prol de estabilidade financeira; e de toda uma comunidade artística assolada pela epidemia da SIDA. O relógio não para, e Jon vê-se numa encruzilhada, a braços com a inevitável pergunta: o que devemos fazer com o tempo que temos?”

Como crítico português, nunca tive a oportunidade de ver um espetáculo da Broadway por razões óbvias. No entanto, o meu amor por musicais cresceu tanto que realmente acredito que estou a desenvolver uma certa preferência em relação a este género. Desde La La Land que não me recordo de não ter adorado um filme musical. Lin-Manuel Miranda é conhecido por trazer o seu trabalho de teatro para o reino do cinema – Hamilton, In The Heights – e escolheu adaptar Tick, Tick… Boom! na sua estreia como realizador de uma longa-metragem. Não tinha qualquer conhecimento prévio do verdadeiro Jonathan Larson – compositor e dramaturgo por detrás de Rent, um dos espetáculos mais longínquos da Broadway -, o que funcionou perfeitamente, visto que fiquei maravilhado com aquele que é um dos meus filmes favoritos deste ano!

É impossível não começar com a música. A de abertura, “30/90”, é provavelmente uma das canções mais viciantes que já ouvi num filme. Tal como a grande maioria das músicas presentes nesta adaptação, desenvolve brilhantemente a narrativa enquanto mostra ao público o que as personagens estão a pensar e a sentir. É aquele tipo de exposição que não só ajuda os espetadores a entenderem tudo o que está a acontecer na história, mas também entretém ao mesmo tempo. As pessoas não sentem que lhes estão a dizer explicitamente o que o filme está a tentar transmitir ao público, mas, em vez disso, dançam nos seus assentos com um sorriso no rosto enquanto recebem todas as informações essenciais.

Tick, Tick... Boom!

Tirando uma sequência de duas ou três canções a meio do segundo ato que não acertou esse aspeto de oferecer informações importantes e relevantes sobre o enredo ou as suas personagens, todas as outras canções são incrivelmente significantes, além de possuírem letras absolutamente fantásticas. Como o próprio Stephen Sondheim (Bradley Whitford) diz no filme, “first-rate tune and lyrics”. Os meus destaques pessoais – são muitos, eu sei – são “Boho Days”, “Sextet”, “Therapy”, “Why” e “Louder Than Words”, mas “30/90” leva o prémio final de ser uma daquelas músicas que ouvirei continuamente ao longo do tempo. Na verdade, demorei mais do que o normal para publicar esta crítica devido a escrever enquanto tentava não me distrair com a canção a tocar como música de fundo.

Para além de não saber nada sobre o musical em si, também desconhecia a experiência de teatro de Andrew Garfield (Hacksaw Ridge) – e o homem até ganhou um Tony! Honestamente, acredito nas suas chances de conseguir uma nomeação ao Óscar. Mesmo ignorando as suas habilidades vocais e de dança de fazerem cair o queixo, Garfield incorpora o espírito de Jonathan Larson de uma maneira muitíssimo convincente. A sua facilidade em captar qualquer emoção necessária eleva tremendamente as suas sequências musicais. Uma das melhores prestações que já vi do famoso ator.

Nenhum outro ator chega perto do tempo de ecrã de Garfield, mas devo mencionar duas outras representações. Robin de Jesús (The Boys in the Band) também se destaca, interpretando o melhor amigo de Jon, Michael, e sendo a fonte do momento mais emocionante de todo o filme. No lado mais íntimo, Alexandra Shipp (Dark Phoenix) interpreta a namorada de Jon, Susan, e vou escrever algo que pode ser um erro total ou uma profecia precisa: com o seu alcance e expressividade, Shipp tem o potencial de se tornar numa das atrizes mais populares desta década. É uma questão de escolher os projetos certos e esperar pelo seu breakthrough. Menções honrosas para Joshua Henry (Renegades) e Vanessa Hudgens (Bad Boys for Life) pelos seus papéis menores, mas exibições vocais fenomenais.

Tecnicamente, todos os departamentos merecem todos os elogios e mais alguns, logo vou concentrar-me apenas na realização de Miranda. O simples facto desta ser a primeira vez que dirige um filme é impressionante. É quase como se tivesse guardado o filme na sua mente durante anos e simplesmente filmasse tudo o que tinha imaginado. A sua visão clara resulta numa narrativa bem estruturada (argumento de Steven Levenson), onde as canções nunca parecem forçadas ou avassaladoras, mas servem como um complemento para a história já interessante. Apesar de um começo um tanto confuso para os espetadores sem conhecimento prévio de Jonathan Larson ou da peça em si, rapidamente se torna uma experiência cinemática envolvente e inesquecível.

Tick, Tick… Boom! é um dos meus filmes favoritos do ano! Possuindo música memorável, viciante e de “primeira classe” interpretada por atores talentosos, Lin-Manuel Miranda apresenta uma das melhores obras musicais do século. Desde o destaque absoluto, “30/90”, ao final altamente satisfatório, “Louder than Words”, a vasta maioria das canções serve um propósito necessário, avançando o enredo com imenso entretenimento enquanto também desenvolve as personagens merecedoras de investimento emocional. Andrew Garfield oferece uma das melhores prestações da sua carreira, demonstrando o seu alcance emocional inacreditável e habilidades artísticas fenomenais, como ator e performer.

Tecnicamente, nenhuma falha a apontar. NÃO PERCAM esta obra de arte! Tick, Tick… Boom! chega à Netflix a 19 de novembro.

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