Crítica – The United States vs. Billie Holiday

The United States vs. Billie Holiday podia ter sido uma história inspiradora, mas só não é um desastre gigante devido à estreia impressionante de Andra Day enquanto atriz.

The United States vs. Billie Holiday
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Sinopse: “A lendária Billie Holiday, uma das melhores artistas de jazz de todos os tempos, passou grande parte da sua carreira sendo adorada por fãs em todo o mundo, enquanto o Federal Department of Narcotics a tinha como alvo numa operação secreta liderada pelo agente federal negro Jimmy Fletcher, com quem teve uma relação complicada. Inspirado na sua história de vida, The United States vs. Billie Holiday examina intimamente as suas lutas com o vício, fama e amor de partir o coração.”

Apesar de adorar ouvir jazz, nunca fui a um concerto ou a um clube específico deste tipo de música. Seguindo esta linha de pensamento, desconhecia a história real de Billie Holiday e o seu impacto tremendo não só no género musical respetivo, mas também na luta contra o governo sobre o ato maligno e vergonhoso de linchamento – que chocantemente ainda ocorre nos dias de hoje em alguns países. “Strange Fruit”, um poema escrito por Abel Meeropol, tornou-se incrivelmente polémico devido à sua letra brutal descrevendo o referido ato, comparando a vítima ao fruto das árvores. A canção adaptada foi referenciada como o início do movimento dos direitos civis e a prestação de Andra Day é o destaque de um filme bastante desapontante.

Acabei de assistir a The Mauritanian – um filme “baseado em eventos reais” – no início desta semana e escrevi na sua crítica que fico quase sempre cativado pela história principal deste tipo de filme, mesmo que o resto tenha as suas falhas. The United States vs. Billie Holiday é um filme biográfico inspirado na vida da cantora, mas tirando a representação poderosa de Day e a sua música memorável, tenho dificuldades em encontrar outros aspetos positivos relevantes. A produção artística fabulosa de Daniel T. Dorrance é difícil de ignorar, tal como a banda sonora de Kris Bowers. No entanto, estes dois componentes raramente compensam a edição atabalhoada (Jay Rabinowitz), o argumento desorganizado (Suzan-Lori Parks) e até mesmo a realização errática de Lee Daniels.

Desde as transições desajeitadas e rápidas para preto-e-branco e depois de volta para o ecrã colorido até à falta de conexão entre cortes e as próprias linhas narrativas, é incrivelmente complicado sentir-me cativado por um filme tão visualmente confuso. O enredo de Suzan-Lori Parks entra num ciclo monótono e repetitivo em que Billie Holiday fuma e ingere drogas, canta uma música completa e faz sexo com um homem aleatório, tudo isto enquanto tenta inúmeras vezes parar os seus maus hábitos. Por um lado, Billie Holiday é uma mulher negra, forte e orgulhosa que está a esforçar-se pelo que considera que é correto através da sua voz lindíssima e tenacidade louvável. Por outro, os espectadores têm que suportar inúmeras sequências de comportamento desprezível de alguém que não parece uma boa influência, de todo.

The United States vs. Billie Holiday

Entendo que um protagonista não precisa de ser perfeito, muito pelo contrário. No entanto, a estrutura narrativa é tão incoerente e levanta tantas questões morais sobre a verdadeira essência da personagem principal que consegui deixar de me sentir pouco investido na sua história. Os únicos momentos interessantes são os atos musicais, que podem ser o único detalhe de storytelling que funciona como um ponto de conexão para o que vem a seguir ou como uma referência a algo que aconteceu pouco antes. Todas as outras cenas são aparentemente separadas das seguintes, pelo que Lee Daniels encontra-se com problemas para encontrar o caminho certo. O único componente bem desenvolvido do início ao fim é o build-up bem sucedido para a performance de “Strange Fruit”.

No final, Andra Day é a grande salvadora do que podia ter sido um desastre gigante. A sua interpretação é uma das prestações de estreia mais impressionantes que vi nos últimos anos. Ignorando a sua voz indiscutivelmente fantástica, Day mostra um alcance emocional notável e um compromisso físico com o seu papel que poucas atrizes são capazes de entregar. Brilha mais que todos os outros elementos do filme, incluindo o elenco restante. Day é a única razão pela qual continuei a ser “arrastado” para o ecrã. Infelizmente, uma pessoa não é suficiente para superar dezenas de problemas significativos.

The United States vs. Billie Holiday podia ter sido uma história inspiradora e impactante sobre a influência de Billie Holiday não só na música jazz, mas principalmente na luta por direitos civis iguais para todos. Em vez disso, a realização inconsistente de Lee Daniels e o argumento extremamente atrapalhado de Suzan-Lori Parks são apenas dois dos muitos problemas que transformam este filme numa deceção absoluta.

Desde a edição horrível que desconeta quase todas as linhas narrativas umas das outras até às decisões questionáveis de storytelling em relação à estrutura narrativa repetitiva e cansativa, torna-se surpreendentemente difícil apoiar por completo o comportamento da protagonista.

Produção artística impecável e banda sonora envolvente, mas é a prestação fenomenal da estreante Andra Day que salva um potencial desastre. A sua música e interpretação da personagem são os dois elementos-chave que mantêm o filme acima da linha de água.

Não consigo recomendar adequadamente a menos que haja um interesse pessoal na vida da personagem principal.

The United States vs. Billie Holiday deve estrear nos cinemas portugueses em abril.

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