Crítica – The Green Knight

The Green Knight é um estudo de personagem lento com alguns dos melhores visuais e produção sonora que alguma vez testemunhei.

- Publicidade -

Sinopse: “A história de Sir Gawain (Dev Patel), o impulsivo e obstinado sobrinho de King Arthur, que embarca numa ousada viagem para enfrentar o Green Knight, um estranho gigante de pele esmeralda que testa os adversários até ao limite. Gawain luta contra fantasmas, gigantes, ladrões e conspiradores, numa jornada que lhe definirá o caráter e o valor aos olhos da família e do reino, perante o mais temível dos adversários.”

Necessito de começar esta crítica com um disclaimer importante. Em primeiro lugar, apesar de ser um ávido fã de épicos de fantasia, nunca li qualquer conteúdo relacionado com este género em particular. Assisti a (alguns) filmes do famoso Rei Artur, mas o meu conhecimento sobre os contos Arturianos é limitado, incluindo o poema original no qual este filme se inspira. Para além disto, fica um aviso aos espectadores que estão a criar expetativas extremamente elevadas para o que antecipam que será um filme repleto de ação, cheio de batalhas épicas, seguindo o estilo de The Lord of the Rings ou peças semelhantes.

The Green Knight não podia estar mais longe desse tipo de cinema. Na verdade, não é exagero afirmar que este filme é desprovido de qualquer sequência de ação envolvendo lutas, seja com espadas ou punhos. É um estudo de personagem slow-burn de Sir Gawain (Dev Patel), o protagonista de uma longa e aventureira jornada de auto-descoberta que, em última análise, se concentra em temas inerentemente ligados ao cavalheirismo, um traço obrigatório de um Knight. De honra a honestidade, sem esquecer humildade e lealdade, Sir Gawain deseja tornar-se um Knight, mas, no início deste conto, é uma personagem incrivelmente “defeituosa”, sem sequer possuir a confiança para ser o que tanto quer.

Sendo totalmente honesto, se não fossem os aspetos técnicos visualmente orgásmicos, teria sido bastante complicado sentir-me cativado por uma personagem que mal demonstra sinais de merecer a minha atenção ou apoio durante a primeira hora. O síndrome de impostor é intenso até ao fim, mas a jornada complexa, distribuída por camadas e de ritmo controlado que Sir Gawain segue, é notavelmente convincente e cheia de elementos de fantasia que agradam visualmente qualquer fã do género respetivo. David Lowery (The Old Man & the Gun) constrói um arco de personagem soberbamente bem estruturado, mesmo que o ritmo possa ser muito pesado para alguns espectadores.

The Green Knight

Por um lado, é gratificante ver uma evolução brilhantemente escrita do protagonista. Um homem que deseja ser um Knight ainda não possui nenhuma das qualidades que deve/tem que ter até que uma jornada aterrada, quase filosófica, o transforma completamente. No entanto, o final do seu arco monstruoso está destinado a tornar o filme um sucesso ou um falhanço para a maioria do público. Uns últimos 20 minutos surpreendentes dividirão opiniões um pouco por todo o mundo, fazendo as pessoas saírem do cinema incertas de como se sentem sobre o filme, tal como eu próprio. Depois de uma boa noite de sono, consegui formar um pensamento sólido sobre o mesmo.

Embora entenda e inclusive aprecie o final em si, a execução de Lowery não funciona muito bem para mim. É uma daquelas ideias que funciona perfeitamente no papel, mas quando se transfere para o ecrã, fica difícil não me sentir ligeiramente desapontado ou desejar que pudesse ter sido feito de uma maneira diferente. No entanto, admito que fiquei perplexo e o impacto dessa sequência particularmente extensa é inegável. Tematicamente, encaixa-se na história e nos seus muitos tópicos instigantes que podem ser examinados através de teses intermináveis.

Por outro lado, a falta de qualquer sequência ou ponto de enredo remotamente energético não é, definitivamente, um atributo que agrade o público geral, o que deixará muitos espectadores desiludidos se estes não criarem expetativas realistas – daí o aviso no início desta crítica. A aventura sem ação afeta profundamente o ritmo já lento, muito mais do que esperava. Felizmente, o trabalho de edição e estrutura narrativa excelentes de Lowery não fazem com que os 130 minutos de tempo de execução se sintam mais longos do que realmente são. Ainda assim, The Green Knight é um filme que, sem dúvida, testa a paciência de toda a audiência.

Passando para o elenco, ninguém fica abaixo do “impressionante”. Dev Patel (The Personal History of David Copperfield) comanda o ecrã com uma prestação poderosa, mas subtil, que se encaixa perfeitamente na sua personagem. Com apenas os seus olhos expressivos, Patel consegue transmitir emoções contrastantes, entregando uma performance com tantas camadas como o seu próprio arco. Alicia Vikander (Tomb Raider) surpreende com não uma, mas duas interpretações notáveis de duas personagens distintas aos olhos de Sir Gawain. Desde sotaques totalmente diferentes a uma mudança drástica no maravilhoso guarda-roupa (Malgosia Turzanska), Vikander brilha em todas as cenas, especialmente durante um longo monólogo sobre a cor verde e o apodrecimento.

The Green Knight

Sean Harris (Mission: Impossible – Fallout) e Kate Dickie (Game of Thrones) retratam lindamente o Rei e a Rainha, respetivamente, algo que realmente me leva a outro elogio. Assumindo que estou longe de ser a única alma cujo conhecimento sobre as histórias Arturianas não é extensivo, adoro o simples facto de como The Green Knight nunca se torna dependente do seu IP mais popular, o Rei Artur. Esta é a história de Sir Gawain, uma que não destaca o famoso Rei que vimos interpretado inúmeras vezes em filmes anteriores. Aprecio verdadeiramente o detalhe do nome do Rei nem sequer ser pronunciado uma única vez, colocando os holofotes apenas em Sir Gawain.

Finalmente, preciso abordar os aspetos técnicos dignos de todos os prémios, pois elevam tremendamente a peça geral. Honestamente, The Green Knight é dos filmes mais deslumbrantes que alguma vez assisti. Sim, de sempre. O ecrã pinga de tanta qualidade visual, digna de produzir dezenas ou mesmo centenas de pinturas de fazer cair o queixo. A cinematografia de Andrew Droz Palermo é nomeação obrigatória quando a temporada de prémios chegar. O escopo épico deste filme é indescritível. É uma daquelas obras que nunca recomendarei assistir em casa, não importa o quão espetacular seja o seu home theater.

As paisagens irlandesas indutoras de lágrimas possuem uma iluminação fabulosa que faz o mundo de The Green Knight parecer genuinamente fantástico, mas, no final, é o sound design poderoso (Johnny Marshall) que ultimamente se destaca. Todos os movimentos ou ações são capturados com imenso impacto e força, nomeadamente os gestos corporais do Green Knight (Ralph Ineson). Mais uma vez, é uma sensação indescritível que só uma sala de cinema consegue oferecer. A banda sonora de Daniel Hart gera uma atmosfera medieval fenomenal que imediatamente coloca o espetador na Era certa, rodeando o público num ambiente que dificilmente esquecerão.

Alguns elementos de fantasia parecem um pouco fora do lugar, no entanto. Enquanto que a maioria das criaturas fictícias, como o habitual guia/espírito animal ou mesmo a existência de bruxaria, têm o seu lugar e significado, alguns componentes visuais já vistos no(s) trailer(s) – os gigantes, por exemplo – carregam pouco ou nenhum impacto na narrativa geral ou mesmo no arco do protagonista. Estes momentos deixaram-me algo perdido, infelizmente. Além disso, o filme contém títulos difíceis de ler durante todo o tempo de execução, estabelecendo os diferentes capítulos. A escolha de fonte medieval, juntamente com o tamanho gigantesco, faz com que até três palavras sejam um pesadelo para perceber.

Mesmo assim, Lowery entrega um filme que tenho a certeza que vai melhorar com o tempo. Tal como Blade Runner 2049, o tempo de execução longo e o ritmo lento não permitem que estes filmes se tornem obras que se revejam instantaneamente. Irei voltar a sentar-me num cinema para assistir a The Green Knight novamente, visto que estreia em Portugal dentro de poucas semanas, mas, mesmo após essa data, não é um daqueles filmes leves que as pessoas simplesmente colocam na sua televisão sempre que se encontram com tempo livre. Espero genuinamente que receba um cult following e ficarei muito interessado em ver uma sequela ou peça semelhante, caso seja anunciada.

The Green Knight é um estudo de personagem lento com alguns dos melhores visuais e produção sonora que alguma vez testemunhei. David Lowery entrega uma narrativa tematicamente rica e soberbamente estruturada, focando-se na jornada de auto-descoberta de Sir Gawain, o protagonista imperfeito. Dev Patel lidera com uma prestação extraordinariamente subtil e poderosa, acompanhado por um elenco secundário igualmente impressionante.

A cinematografia deslumbrante de Andrew Droz Palermo, a banda sonora atmosférica de Daniel Hart e, especialmente, o sound design impactante de Johnny Marshall, elevam profundamente o tremendo escopo épico que o filme possui. No entanto, alguns elementos de fantasia parecem irrelevantes, a falta de qualquer tipo de ação afeta severamente o ritmo “a passo de caracol” e a execução do final não convence por completo, embora seja admitidamente um risco surpreendente.

No seu todo, é um character piece épico, o qual recomendo imenso a qualquer fã de fantasia. Mas cuidado com expetativas irrealistas baseadas em ação.

The Green Knight estreia em Portugal a 9 de setembro.

- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Parceiros

Relacionados

Crítica – House of Gucci

Um filme que é uma demonstração de estilo, de ideias, mas com uma estrutura clássica que podia ser mais original e menos dependente de atalhos.

Arcane: Act 3 – Uma gloriosa injeção de Hype

O terceiro ato de Arcane remata com muitas emoções e uma excelente direção a primeira temporada daquela que é, inequivocamente, a melhor série de animação de que há memória.

Crítica – Ghostbusters: Afterlife

Este é um filme divertido, uma aventura para miúdos e graúdos e um retorno à velha forma dos Caça-Fantasmas.

Crítica – Tick, Tick… Boom!

Com música memorável, viciante e de "primeira classe" interpretada por atores talentosos, Lin-Manuel Miranda apresenta uma das melhores obras musicais do século.
- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Recentes

Palácio Nacional de Mafra vai ser reabilitado

As obras deverão estar concluídas no final de 2025.

Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto vão contar com mais 145 autocarros elétricos ou movidos a hidrogénio

Uma medida que se insere no âmbito da Componente 15 – Mobilidade Sustentável, do Programa de Recuperação e Resiliência de Portugal.

Inaugurado primeiro Espaço Cidadão numa unidade de saúde

Algo que vem facilitar ainda mais a vida aos cidadãos.