Crítica – Servant (Primeira Temporada)

Seis semanas depois da morte do seu filho de 13 semanas, o casal de Philadelphia, Dorothy (Lauren Ambrose) e Sean Turner (Toby Kebbell), contrata uma jovem ama, Leanne (Nell Tiger Free), para mudar-se para a casa e cuidar do bebé Jericho, um “boneco renascido”. O boneco, que Dorothy acredita ser o seu filho verdadeiro, foi a única coisa que a tirou do seu estado catatónico após a morte de Jericho. Enquanto Sean lida com a dor à sua maneira, também fica profundamente desconfiado em relação a Leanne.

Quando recebi a notícia de que M. Night Shyamalan iria produzir uma série de horror, fiquei intrigado instantaneamente. Por alguma razão, provavelmente devido à enorme quantidade de filmes para assistir, acabei por me esquecer que a série estava para sair no fim de novembro. Como ninguém aparentava falar sobre a mesma, não consegui lembrar-me da sua existência até esta semana. Não tenho ideias sobre o porquê das pessoas estarem tão silenciosas. Servant é uma das melhores (novas) séries que vi nos últimos anos. Está a ser dado todo o crédito a Shyamalan, mas não vou cometer o mesmo erro.

Tony Basgallop criou e escreveu a história. Existem mais cinco realizadores para além de Shyamalan, que apenas realiza os episódios um e nove. Adoro Shyamalan tanto ou mais que o normal, sempre o defendi e o nome dele é suficiente para me convencer a assistir a qualquer coisa. Afinal de contas, ele é a razão pela qual me interessei por Servant em primeiro lugar, juntamente com a premissa misteriosa da série. Desde o piloto até ao final, todos os episódios estão repletos de perguntas em aberto, respostas enigmáticas e muita tensão.

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Além de extremamente bem escritos, os diálogos estão carregados de suspense e de uma incrível quantidade de tensão. Todos os realizadores fazem um trabalho fantástico ao manter uma atmosfera sinistra, usando planos opostos como close-ups e wides para criar esse ambiente desconfortável. A maior parte da narrativa desenrola-se dentro da casa dos Turner, oferecendo aquela sensação claustrofóbica que tanto aprecio. Sendo principalmente uma série baseada numa só localização, nunca desvia o espetador do que está a acontecer, mantendo o foco em cada membro da família.

Raramente sinto a necessidade de fazer binge a uma temporada inteira. Gosto de esperar uma semana ou mais pelo próximo episódio. Permite-me pensar sobre o que aconteceu, cria um espaço para refletir sobre as ações de uma determinada personagem ou leva-me a entender as razões por detrás de uma certa decisão narrativa que não funcionou tão bem comigo. Não concordo que alguém que veja sete temporadas de, por exemplo, Game of Thrones, de seguida, tenha a mesma proximidade emocional à história e às suas personagens do que alguém que esperou todos aqueles anos pela temporada final. É simplesmente uma perspetiva e experiência diferentes.

No entanto, Servant deixou-me constantemente com aquela sensação de “preciso de ver o próximo episódio imediatamente”.

Agora, não considero que seja uma série para todos e sei que muitos não gostam quando alguém escreve isto, mas vou explicar. Servant não é uma narrativa guiada por exposição. Não responde a nenhuma das perguntas que terão até ao final e, mesmo aí, deixa espaço para diferentes interpretações da história. Todos os episódios são muito ambíguos e enigmáticos, por vezes adicionando mais e mais perguntas do que propriamente respostas ou pistas.

Para muita gente, é uma temporada que depende muito das revelações do episódio final para, em última análise, considerá-lo um sucesso ou uma desilusão. Se não gostam deste tipo de argumentos, então provavelmente é melhor deixar passar ao lado.

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Se isto aparenta ser “a vossa praia”, sentem-se e desfrutem deste show incrível que Basgallop criou com a ajuda de Shyamalan. Tecnicamente, não posso deixar de elogiar a cinematografia (Mike Gioulakis, que trabalhou com Shyamalan em Glass e Split, e também com Jordan Peele em Us). Os takes elegantemente longos são cruciais para manter os olhos do espetador concentrados nas personagens e realmente ouvir o que estas dizem. Com a ajuda de uma edição perfeita (e um tempo de execução surpreendentemente curto, trinta minutos por episódio é uma duração estranhamente pequena hoje em dia), quase todos os episódios vão como o vento.

O controlo requintado do ritmo faz a história fluir impressionantemente bem. A cenografia e a produção artística são sempre importantes em peças de uma só localização e a Servant não falta qualidade nestas áreas. Banda sonora subtil, mas efetivamente assombrosa (Trevor Gureckis). É a primeira produção que assisto da Apple TV+ e estou grato que o canal de streaming dê oportunidade a cineastas de qualidade de provarem o seu valor em vez de produzir festivais gigantescos de CGI logo a abrir. Deixei o melhor para o final, isto é, o elenco. Não importa o quão bom é um argumento se os atores não conseguirem trazê-lo à vida corretamente.

Os quatro atores principais são TODOS excecionais! Toby Kebbell não fez nada no passado que me tivesse surpreendido, mas agora demonstrou as suas qualidades enquanto ator. Lida com diálogos longos sem esforço e os seus close-ups são os mais cativantes de todos. Além disso, todas as sequências de culinária (Sean é um chef consultor bastante famoso) são visualmente de abrir bem os olhos (embora tenha de avisar que poderão ser demasiado fortes para os espetadores mais sensíveis). Lauren Ambrose parecia um pouco deslocada dos seus colegas no início, mas a partir do momento em que se entende de onde a sua personagem vem, a sua prestação tem todo o sentido. A sua performance no episódio final é arrepiante.

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Rupert Grint (Julian Pearce, irmão de Dorothy) e Nell Tiger Free são as duas surpresas inacreditavelmente notáveis. O primeiro sai da concha de Harry Potter e finalmente mostra que é mais do que um mero Ron Weasley. Desempenho genuinamente envolvente da parte dele. Quanto a Nell (que não teve tempo de mostrar o que pode fazer como Myrcella Baratheon, em Game of Thrones), carrega o papel mais essencial de todos. A sua personagem é a “ovelha negra” da história, o conflito, o estranho e fora do lugar. Precisava de ser absolutamente perfeita para deixar o espetador confuso sobre as suas motivações e conseguiu. Sem dúvida, a maior revelação da série.

Não entendo as razões pelas quais Servant não tem mais fãs e não consigo lidar com o silêncio das pessoas que já assistiram. É uma série que merece muito mais crédito. Possuindo um elenco fenomenal, com Rupert Grint e Nell Tiger Free como as maiores surpresas, Tony Basgallop criou uma série incrivelmente intrigante, misteriosa, repleta de suspense e muito intensa com a ajuda do já famoso M. Night Shyamalan. Diálogos brilhantes, cheios de tensão e sem cortes, ajudam a gerar uma atmosfera assombrosa e enigmática, elevada por uma cinematografia sublime (Mike Gioulakis).

Filmada principalmente numa só localização, a cenografia e a produção artística melhoram imenso o ambiente claustrofóbico. A narrativa é ambígua de início ao fim, não é um argumento guiado por exposição. Se não apreciam este tipo de histórias, que perguntam mais do que respondem, então talvez seja melhor ignorá-la. Mas se adoram argumentos que vos deixam a pensar e a duvidar de tudo, Servant é um trabalho genial.

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