Crítica – “Scary Stories to Tell in the Dark” (Histórias Assustadoras para Contar no Escuro)

por Manuel São Bento

Estamos em 1968 nos Estados Unidos e sopram ventos de mudança. Aparentemente muito distante da agitação das grandes cidades fica a vila de Mill Valley, onde paira há muitas gerações a sombra da família Bellows. Foi na mansão da família que Sarah (Kathleen Pollard), uma jovem com segredos terríveis, transformou a sua torturada vida numa série de histórias assustadoras escrita num livro que sobreviveu à passagem do tempo, histórias que se tornam demasiado reais para um grupo de adolescentes que descobre a aterradora casa de Sarah.

É capaz de ser o primeiro filme de 2019 sobre o qual não sabia absolutamente nada antes de entrar no cinema. Normalmente, evito trailers para a maioria dos filmes, mas é quase impossível não apanhar uma imagem ou um clipe aqui e ali. No entanto, no caso de Scary Stories to Tell in the Dark (em português Histórias Assustadoras para Contar no Escuro), uma vez que não foi fortemente publicitado no nosso país, o único aspeto do qual tinha conhecimento era que Guillermo del Toro estava envolvido e que era um filme de horror.

Conhecendo del Toro, também me mentalizei de que esta não seria apenas mais uma história de horror simples, repleta de jump scares previsíveis e uma narrativa sem peso. Este é o meu primeiro conselho para os leitores: se esperam um filme semelhante aos do The Conjuring Universe, então irão acabar desapontados.

Também não é o outro extremo. Não segue a ambiguidade e estranheza das películas de Jordan Peele, por isso, se também não apreciam este tipo de horror, podem estar tranquilos. Tendo em mente os últimos filmes lançados deste género, é difícil encontrar um que equilibre estes dois tipos em vez de escolher apenas um deles. Scary Stories to Tell in the Dark gasta a sua primeira metade a desenvolver lentamente as suas personagens, mas principalmente a sua história.

Há um enorme build-up para algo que é praticamente a premissa do filme, logo existem algumas dificuldades em alcançar a tal “ação” sem que se torne um pouco aborrecido ou demasiado longo. Apesar disso, é um “lufada de ar fresco” (no género) ter um bom set up, com um desenvolvimento de personagens decente e um interesse exponencial na história principal, em vez de passar diretamente para jump scares cliché, quinze minutos depois de começar.

André Øvredal faz um excelente trabalho no que toca à realização. Sabe realmente como gerar suspense e criar um build-up genuinamente assustador. Existe um trabalho de câmara tremendo envolvido em algumas sequências fantásticas que não dependem de jump scares para fornecer o fator “medo”. É o suspense interminável, aquele sentimento de claustrofobia, mesmo que a personagem não esteja num espaço confinado.

Com a exceção de um par de cenas, podemos sempre ver o que está a acontecer. Os “monstros” não aparecem do nada, eles não gritam de forma estridente precisamente na terceira vez em que uma personagem olha para o lado, e os jump scares são bastante eficientes. No entanto, não são assustadores, tal como o filme em si…

Não é uma película simplesmente assustadora. Não tem aquele tom pesado e maligno que sentimos em outros filmes de terror. No início, pensei que seria algo que ia correr mal, mas Scary Stories to Tell in the Dark estabelece o seu tom distinto desde o começo. Mesmo sem saber uma única coisa sobre o filme, entendi nos primeiros minutos que ia ser “diferente”. Assim, aconselho cautela para não julgar esta longa-metragem exclusivamente pelos seus trailers, isto se estes indicarem que este é um daqueles filmes para fazer o público gritar a cada cinco minutos.

Há definitivamente uma mensagem a ser transmitida e penso que foi bem entregue no final. Poderá ser demasiado cheesy para alguns ou ter falta de impacto para um filme que pede ao público um pouco de paciência, mas para mim, funcionou bem o suficiente.

O elenco oferece, na sua maioria, boas prestações. Zoe Colletti (Stella) e Michael Garza (Ramon) são, sem dúvida, os destaques, fazendo um bom trabalho ao carregar a narrativa para a frente. Ambos têm backstories convincentes, mas para o tempo que o filme gasta a desenvolver as suas personagens, gostaria que tivessem abordado Stella mais profundamente. Tem um passado particularmente intrigante e não recebemos o suficiente. Gabriel Rush (Auggie) e Austin Zajur (Chuck) têm excelente química, mas os seus papéis de comic-relief valem pouco para um filme até bastante sólido.

Tecnicamente, há algumas belas imagens do cinematógrafo, Roman Osin. Normalmente, as sequências noturnas em filmes de baixo orçamento sofrem muito com a falta de visibilidade clara, mas Osin faz um trabalho notável, brincando com a luz de uma maneira verdadeiramente única. Estou curioso para saber o que o público vai pensar deste filme.

Se tivesse que apostar, penso que as pessoas vão deixar o cinema algo dececionadas devido à falta de mais jump scares genéricos e de uma narrativa mais direta. Verdade seja dita, o ritmo lento não ajuda, especialmente quando o desenvolvimento de personagens só funciona para duas. Finalmente, as “histórias assustadoras” que Sarah conta são, sem dúvida, creepy e imaginativas, para além de todo o conceito do filme ser incrivelmente cativante.

No geral, Scary Stories to Tell in the Dark é um filme de horror distinto, com protagonistas bem desenvolvidos e uma abordagem criativa a uma premissa única. Não segue as regras do horror genérico, pois não depende em demasia em jump scares, fazendo a história e as personagens o interesse principal. Incrivelmente produzido por Guillermo del Toro e companhia, bem como brilhantemente realizado por André Øvredal. As “histórias assustadoras” são realmente assustadoras e pesadas, proporcionando uma segunda metade de cenas excelentes de horror.

No entanto, a primeira metade toma o seu tempo para definir tudo e a falta de mais “ação” pode deixar alguns espetadores desiludidos. Apenas duas personagens são genuinamente cativantes, o que prova que o build-up lento não teve uma recompensa totalmente satisfatória. É suposto ser um filme divisivo, mas definitivamente recomendo que vejam este Scary Stories to Tell in the Dark!

Notas: 3 Estrelas

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