Crítica – “Midsommar”

Dani (Florence Pugh) e Christian (Jack Reynor) são um jovem casal americano cuja relação está à beira de se desmoronar. Mas depois de se manterem juntos devido a uma tragédia familiar, Dani, em fase de luto, junta-se a Christian e aos seus amigos numa viagem a um festival de Verão numa remota aldeia sueca. O que começa como umas descontraídas férias de Verão numa terra de sol eterno sofre uma reviravolta sinistra quando os aldeões convidam os visitantes para participarem nas festividades que tornam o paraíso campestre cada vez mais inquietante e visceralmente perturbador.

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Este é, facilmente, um dos meus filmes mais antecipados do ano. Hereditary foi o meu filme favorito de 2018, logo, como seria de esperar, a segunda película de Ari Aster teve toda a minha atenção desde o primeiro anúncio. Felizmente, embora Midsommar apenas esteja a ser lançado agora no nosso país, fui capaz de escapar a spoilers, bem como a qualquer tipo de imagens ou clipes.

Este não é um filme de horror típico, mesmo que esteja a ser comercializado como pertencente ao género. Claro, tem aspetos de horror que, indiscutivelmente, o ligam ao género, mas definitivamente não foi feito para assustar o público ou criar pesadelos.

Hereditary foi bastante divisivo entre o público em geral devido à falta de jump scares tradicionais e entretenimento genérico, além de ser demasiado excessivo em relação ao espiritismo. Mas Midsommar será, sem dúvida, ainda mais controverso.

Midsommar

Primeiro, arrasta-se. Não há como negar. A primeira cena que envolve algum ritual estranho do culto só ocorre por volta da marca dos 60 minutos, o que num tempo de execução de 140 minutos, está situada longe demais do início. Certo, é uma das sequências mais chocantes e horríveis à luz do dia que vi até hoje, mas o seu build-up (extremamente bem realizado) ocupa uma boa porção do segundo ato, abrandando demasiado o ritmo do mesmo.

Além disso, é um filme que coloca inteiramente o seu valor de entretenimento sobre a sensação de choque em vez de medo. Se não gostaram do primeiro filme de Aster por não conter sequências assustadoras suficientes, Midsommar não irá converter-vos a fãs do seu trabalho.

De forma semelhante a Ad Astra (estreou na semana passada), é uma história que exije ao público que se importe com mais do que apenas aspetos superficiais. Se forem ao cinema com vontade de deixarem o cérebro do lado de fora apenas para que possam ser entretidos livremente, então convém pensar duas vezes. Não consigo dar mais importância a isto, mas: é necessário prestar atenção ao que estão a ver!

Pistas para o que a história nos reserva estão espalhadas por todo o lado, especialmente nas paredes. Através de pinturas, arte rupestre e desenhos à mão, Ari Aster oferece basicamente toda a informação necessária para entender melhor o caminho que o filme está a percorrer.

É uma película sobre dois temas-chave: como lidar com o sentimento de perda e como lidar com uma relação amorosa complicada. Estas são as temáticas que devem ser capazes de reconhecer e perceber como estão a ser desenvolvidas. Adoro como Aster aborda o último tópico (escreveu este argumento depois de terminar uma relação), mas sinto-me desapontado com a maneira como colocou o primeiro como “plano de fundo”.

Os primeiros 15-20 minutos lidam com o que acontece com a vida de Dani e nunca voltamos a este ponto, apesar de haver uma vaga ideia do que poderá ter acontecido já no final do filme. Quanto ao outro tema, não é exatamente uma relação “tóxica” como temos visto noutros filmes, mas sim uma onde cada um está à espera de uma desculpa para deixar o outro.

Assim, algumas ações parecem forçadas na esperança de que possam desencadear algo. É uma abordagem estranhamente realista, mas também desconfortável a algo que muitas pessoas passam por.

Tecnicamente, esta é uma das produções mais fascinantes de 2019. Desde a cinematografia colorida à edição impecável, desde a produção artística impressionante (mais uma vez, as paredes!) à banda sonora imersiva… Ari Aster não é brincadeira. A forma como filma diálogos é um prazer autêntico para alguém que se preocupa imenso com o poder ficar totalmente cativado através desse tipo de sequências.

Existem takes tremendamente extensos com Florence Pugh a dar tudo, apenas emoções cruas e poderosas. É a sua melhor performance da carreira, sem dúvida. A história da sua personagem é parcialmente o que traz o “horror” para a narrativa. Assim como Toni Colette em Hereditary, Pugh deverá, muito provavelmente, ser ignorada durante a época de cerimónias de prémios, bem como as proezas técnicas do filme, visto que o género de horror ainda não convenceu o suficiente.

Quanto às outras personagens, são o meu problema principal. Apenas servem como plot devices, ou seja, é quase como se fossem objetos. Will Poulter (Mark) é engraçado como a personagem comic-relief, mas, como todas os outras excluindo Dani, não faz muito para me fazer importar ou sentir investido nas suas próprias histórias (se sequer existem). Mal têm qualquer backstory e o seu propósito é basicamente ajudar a mover o enredo para a frente, dando oportunidades a Aster para mostrar alguns rituais pagãos.

Há cenas incrivelmente chocantes, sangrentas e de fazer cair o queixo. Algumas podem fazer-vos sentir desconfortáveis, outras podem fazer-vos rir. Mas todas estão destinadas a chocar-vos de alguma forma ou feitio.

Midsommar

Quer adorem ou odeiem, Midsommar é memorável. Se não gostaram de Hereditary devido à falta de jump scares, o primeiro provavelmente também não vos agradará. Midsommar requer total atenção, paciência e uma mentalidade aberta. Não é um filme de horror genérico, logo não vão na expetativa de ser constantemente entretidos por sustos tontos. As expetativas são o que separam uma boa de uma má experiência, por isso moderem-nas da melhor forma possível.

Tem uma das abordagens mais abstratas de demonstrar uma relação difícil e de como lidar com a perda de alguém querido, mas se OLHAREM PARA AS PAREDES, serão capazes de (talvez) seguir a história um pouco melhor.

Tecnicamente, Ari Aster entrega um trabalho magnífico, com uma produção artística excecional e cinematografia deslumbrante, além de uma edição perfeita. Florence Pugh carrega a história nos seus ombros com um desempenho impressionantemente convincente, mas o seu elenco secundário não fez muito com as suas personagens subdesenvolvidas.

Midsommar arrasta-se em demasia e pode tornar-se aborrecido durante um certo período, mas, no final, é um daqueles filmes que fica convosco. Uma segunda visualização pode ser necessária e, provavelmente, será uma experiência melhor. Mal posso esperar para descobrir. Vão ver!

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