Crítica – Mass (Sundance 2021)

Mass é um das das peças mais emocionalmente exigentes que alguma vez testemunhei. É impossível ficar indiferente perante uma história tão devastadora.

Mass
Foto: Sundance Institute | Ryan Jackson-Healy
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Sinopse: “Imaginem a interação mais temida, tensa e emocionalmente desgastante em que se podem encontrar e multipliquem-na por 10. É precisamente isso que dois grupos de pais – Richard (Reed Birney), Linda (Ann Dowd), Jay (Jason Isaacs) e Gail (Martha Plimpton) – enfrentam. Anos após uma tragédia causada pelo filho de Richard e Linda destruir todas as suas vidas, Jay e Gail estão finalmente prontos para conversar na tentativa de seguir em frente.”

Não consigo explicar o porquê de só ter visto agora, mas não assisti a Mass enquanto estreia durante o Festival Sundance. Em vez disso, deixei essa visualização para o dia seguinte. Assim que terminei Wild Indian (que posso dizer que gostei), percebi que tinha cometido um erro. Mass é um dos filmes mais pesados e emocionais que já vi. Esta crítica deveria ter sido colocada um dia antes, mas precisava mesmo de processar tudo antes de começar a escrever. É ainda mais chocante considerando que esta é uma estreia em longas-metragens para Fran Kranz, que se torna um cineasta digno de toda a minha atenção a partir de agora.

A sua realização impressionante leva os espectadores através de uma história contada de uma forma tão crua e autêntica que até mesmo uma sala simples com cadeiras e uma mesa é suficiente para segurar o público durante todo o tempo de execução. Tecnicamente, devo elogiar a mise-en-scène de Kranz, que conta uma história por conta própria através do movimento dos atores e da posição de certos elementos durante cada cena. De algo aparentemente irrelevante, como as flores e tecidos cuidadosamente colocados, para a atmosfera extremamente tensa criada pela disposição desconfortável dos pais, terminei o filme emocionalmente exausto, como se alguém tivesse drenado tudo dentro de mim.

Isto leva-me a uma das performances mais convincentes, devastadoras e sinceras que já vi num único filme. Cada ator incorpora os seus respetivos personagens de uma forma tão doadora e apaixonada que tenho a certeza que este filme foi tão difícil de filmar para eles como foi para os espectadores assistirem. Jason Isaacs, Ann Dowd, Martha Plimpton e Reed Birney merecem nomeações para toda a temporada de prémios que há de chegar. Não consigo escolher quem se destaque, uma vez que todos eles são genuinamente magníficos. Estão tão extraordinariamente investidos em lidar com as lutas dos seus personagens que eu não conseguia parar de soltar lágrimas após cada linha de diálogo. Todos têm pelo menos um grande momento para brilhar e todos eles apresentam esse momento de uma maneira de fazer cair o queixo.

No entanto, Mass está longe de ser uma vitrine de atores. Traz vários assuntos sensíveis e importantes para cima da mesa (literalmente), como o uso de armas e o impacto dos videojogos nos jovens, mas também aborda sentimentos difíceis de lidar: perdão, amor, capacidade de seguir em frente, luto/perda, raiva, culpa, depressão e muito mais. É um daqueles filmes que, sem dúvida, irá causar um tremendo impacto em todos os espectadores, mesmo que seja de forma negativa. Por mais que adore tudo o que vi, também é um filme que não me vejo a assistir novamente, pelo menos não mais do que duas vezes. Termina com um tom positivo, mas pode ser muito exigente emocionalmente para mim nesta fase atual da minha vida.

Mass é, sem dúvida, uma das visualizações mais emocionalmente desafiadoras que alguma vez enfrentei. A estreia de Fran Kranz como argumentista-realizador conta uma história incrivelmente pesada através de quatro atores que exploram profundamente as suas personagens, entregando todos as melhores prestações das respetivas carreiras. Todos são um destaque inacreditável: Jason Isaacs, Ann Dowd, Martha Plimpton e Reed Birney merecem uma campanha titânica para receber todos os prémios que se possam atribuir aos mesmos.

O elenco drena todas as gramas de emoção dentro dos espetadores, transformando uma pequena sala com um mise-en-scène impactante que conta a sua própria narrativa num ambiente extremamente tenso, avassalador, praticamente irrespirável. Dezenas de temas importantes e sentimentos complicados são abordados em pouco menos de duas horas, criando um filme verdadeiramente devastador que me deixou a chorar baba e ranho.

É totalmente impossível alguém não ficar afetado com este filme, nem que seja de uma forma negativa. É uma daquelas obras que recomendarei e apoiarei sem parar durante o seu eventual lançamento, mas não posso negar que esta pode muito bem ter sido a minha única visualização de uma história tão brutalmente exigente e autêntica.

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