Crítica – Mare of Easttown da HBO (Temporada 1)

Kate Winslet, vencedora de um óscar, lidera com distinção um elenco sólido, na nova aposta de crime da HBO, em formato de mini-série, que promete deixar o público intrigado e emocionado.

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Mare of Easttown trata a história de Mare Sheehan, uma detetive que vive numa localidade no sudeste da Pennsylvania, recentemente assombrada pelo desaparecimento de uma adolescente. À medida que o enredo se vai desenvolvendo, a sombria e cinzenta Easttown entra em espiral descendente para um poço de depressão sem fundo, depressão essa que tão bem caracteriza esta pequena cidade, que vive presa a alegrias do passado.

Mare Sheehan, protagonizada por Kate Winslet, é a peça central desta história. Outrora a figura central de Easttown, graças a um momento desportivo 25 anos antes, é a detetive responsável por um caso que gera preocupação à população local. Toda a sua vida pessoal reflete com fidelidade como são as coisas nesta localidade deprimente, cujos momentos de felicidade e alegria são de uma raridade imensa. Apesar de Mare ter conseguido algum sucesso profissional como detetive, escolha de carreira motivada pelo carinho que nutria pelo seu pai, a nível pessoal pode-se dizer que tudo (ou quase tudo) falhou.

Enquanto Mare se entrega ao trabalho de investigação sem reservas, é uma pessoa perturbada. Vive cada dia na expectativa de encontrar algo que encaixe e faça sentido na sua vida, enquanto ao mesmo tempo o seu estado psicológico a incute a debater e “lutar” contra o progresso. Isto acaba por criar uma camada de insegurança difícil de penetrar, um desleixo provocado pelo comodismo complicado de mudar e uma personalidade difícil de lidar. No fim de contas, as suas ações nem sempre batem certo com as intenções, até certo ponto fica a dúvida se realmente tem intenções nobres e o tiro sai pela culatra ou se se está a auto-sabotar, tornando-se numa mártir a pagar pelos pecados que alguém, que não os seus. Contudo à medida que a narrativa se desenvolve percebemos exatamente quem Mare é.

A vencedora de um Óscar, Kate Winslet, entrega-se de corpo e mente a um papel desafiante, assumindo-o de forma quase irrepreensível, e é, sem dúvida, a estrela mais brilhante desta produção. Ainda assim, não são de descartar algumas das restantes escolhas que completam o elenco, entre as quais Evan Peters, que é uma lufada de ar fresco na depressão geral que tolda a narrativa (protagoniza uma cena “bêbedo” estonteante de tão convincente que é); Guy Pearce, a grande estrela do filme de culto Memento, que traz charme e esperança; David Denman, conhecido de The Office, surge numa persona surpreendentemente diferente do esperado; Angourie Rice, a jovem atriz australiana que se encontra num percurso ascendente, assume um papel consciente e sensato; e a veterana Jean Smart, que recentemente brilhou em séries como Legion e Fargo, funciona como catalisadora e fio terra para Mare.
De um ponto de vista geral, todos os atores têm um papel fundamental na densidade que esta série ganha, graças a desempenhos muito terra a terra e fiéis à vida real.

Mare of Easttown

Olhando para Mare of Easttown de um ponto de vista mais geral, pode-se dizer que é um produto com algumas semelhanças com I Know How Much Is True (2020), na forma sorumbática como a narrativa se desenrola, pautada por um desenvolvimento lento, ainda que contendo algumas nuances que lhe podem trazer mais sucesso comercial. Uma delas é o elenco aprazível, outra é a abordagem mais fresca suportada por dramas adolescentes, que nunca falham em entreter, mas sobretudo é a forma como a história se desenrola ao longo destes sete episódios. Em estilo de dominó, por muito complexo que seja o “desenho”, no fim todas a peças caíram, compondo uma tela lógica e extremamente satisfatória.

Pessoalmente sou fã deste tipo de séries fiéis à vida como ela é, em modo “slow burn“, quando o tempo investido no desenvolvimento da narrativa é justificado pela qualidade da mesma e as falhas são impercetíveis. Mare of Easttown insere-se nesse enquadramento, enquanto se assume como uma mini-série de crime/drama moderna com pés na terra e cabeça no objetivo.

À primeira vista, a fórmula de Mare of Easttown aparenta ser comum, mas quando chegamos ao fim percebemos que o produto final é de qualidade exímia, dentro do género. Prova disso é a facilidade com que somos absorvidos pelo desenvolvimento e nos conseguimos colocar no lugar de várias personagens, identificando-nos com comportamentos ou emoções das mesmas, sendo inevitável pensar como é que faríamos se estivéssemos no lugar deles.

Concluindo, não tenho dúvidas que Mare of Easttown vai ser considerada uma das melhores minisséries do ano e que vale a pena das uma vista de olhos nesta produção de sete episódios. Os principais motivos? A imprevisibilidade do enredo, a qualidade do elenco, o retrato fiel à realidade e a tensão e mistério que são alimentados até ao último episódio.

Mare of Easttown está disponível na HBO Portugal.

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