Crítica – Kajillionaire

Kajillionaire não tem o plot mais interessante do mundo, mas as prestações notáveis de Evan Rachel Wood e Gina Rodriguez valem a pena o tempo investido.

Kajillionaire

Sinopse: “Theresa (Debra Winger) e Robert (Richard Jenkins) passaram 26 anos a treinar a sua única filha, Old Dolio (Evan Rachel Wood), para enganar, aldrabar e roubar em todas as oportunidades. Durante um assalto desesperado e concebido à pressa, convencem uma estranha (Gina Rodriguez) a juntar-se ao próximo golpe, apenas para ter o seu mundo inteiro virado de cabeça para baixo.”

Este é o primeiro filme que vejo de Miranda July. Tem apresentado películas bem recebidas pela crítica, mas o público parece estar bastante dividido devido à sua metodologia de contar histórias. Não existem muitas pessoas a assistir às suas longa-metragens, pelo que não consigo chegar a uma conclusão sobre o que o público em massa pensa sobre os mesmos. Contudo, há uma clara tendência para um feedback geral positivo quando muitas pessoas colocam os olhos numa das suas peças ao invés de apenas algumas centenas.

Dito isto, fiquei realmente intrigado com a sinopse de Kajillionaire, e nem estou a contar com o elenco, que é, no mínimo, interessante. Assim, será que Miranda conquista mais um fã ou sou teimoso demais para convencer?

O estilo de filmmaking pouco convencional agarra a minha atenção, mas é o desenvolvimento de personagens incrivelmente subtil que me leva de vencido. A Old Dolio de Evan Rachel Wood não sabe como viver ou o que a vida realmente é. Não entende nem sente interações humanas fundamentais devido à educação sem amor que a acompanhou durante toda a sua vida. Só sabe roubar, aldrabar e viver uma vida fora da lei. Acredita que a vida não tem sentido e que um tremor de terra gigante mudará tudo. Logo, torna-se fácil torcer pela personagem e criar uma ligação quando as coisas não funcionam como antecipa. É impossível não sentir pena dela. Senti-me constantemente triste, e até desconfortável, quando Old Dolio sofria emocionalmente.

Kajillionaire

Evan Rachel Wood (Westworld, Frozen II) oferece uma interpretação única de alguém com este tipo de personalidade, chegando mesmo a mudar o tom de voz, conseguindo uma prestação notavelmente complexa. Evan e Gina Rodriguez (Melanie) partilham uma química impecável, componente vital no plot principal. As personagens criam uma ligação tão emocional que qualquer espetador são e corretamente educado perante as “regras” da sociedade em que vivemos entenderá para onde esta relação se está a dirigir. Esta amizade é tratada de forma tão respeitosa e realista por parte de Miranda July que me senti extremamente contente com tudo o que a envolve. É, sem dúvida, a principal fonte de entretenimento.

No entanto, é Gina Rodriguez (Annihilation, Scoob!) que dá toda outra importância à história. Honestamente, creio ser a melhor prestação da sua carreira. Com pequenas expressões faciais, é capaz de transmitir claramente ao espetador tudo o que Melanie está a sentir. É introduzida na altura certa, mesmo quando o filme precisa de um empurrão. Richard Jenkins e Debra Winger também são excelentes, especialmente o primeiro, até porque dá à sua personagem alguns momentos emocionalmente poderosos. Ambos os pais são tão frios e rigorosos quanto podiam ser, ensinando a filha a sobreviver sem qualquer afeto em vez de como viver rodeada de amor.

Miranda July escreve uma narrativa convincente, repleta de sequências dramáticas, mas também com um bom bocado de humor à mistura. Emprega um ritmo um pouco lento, que nem sempre funciona a favor do filme. Na verdade, se não fosse pelas interações cativantes de Gina e Evan, Kajillionaire sofreria muito mais com o “negócio de família”, algo que rapidamente perdeu o meu entusiasmo. A cinematografia de Sebastian Winterø é guiada pelas personagens, permanecendo nas reações das mesmas por mais tempo do que o habitual, deixando as emoções estabelecerem-se e permitindo que o espetador se conete com as personagens. Um trabalho impecável, auxiliado por uma edição sem falhas (Jennifer Vecchiarello).

Tecnicamente, é um filme muito bem produzido, mas tenho um problema com a banda sonora de Emile Mosseri. Gosto imenso da maioria dos temas, mas, ocasionalmente, o volume é tão alto que tive dificuldades em ouvir o que as personagens diziam. Como tinha a opção de voltar atrás alguns segundos, consegui ouvir algumas cenas novamente, logo não prejudicou a minha visualização em si. No entanto, não deixa de ser uma falha técnica que me fez parar o filme, algo que desprezo totalmente, e não sei o quanto isto me podia ter afetado se tivesse assistido ao filme num cinema.

Kajillionaire

No final, Kajillionaire convence-me o suficiente para adicionar Miranda July à minha lista de “realizadores a seguir de perto”. Com uma narrativa guiada por personagens e um estilo de filmmaking único, Evan Rachel Wood e Gina Rodriguez partilham uma química impressionante, elevando a relação das suas personagens, que é, definitivamente, o arco mais cativante de todo o filme.

Tanto Melanie como Old Dolio passam por um desenvolvimento de personagem extremamente detalhado, mas visualmente subtil, o que me deixou a torcer pelo sucesso das duas nas suas vidas. Gina rouba os holofotes com a melhor prestação da sua carreira, mas a interpretação bizarra de Evan também é notável, assim como as excelentes representações de Richard Jenkins e Debra Winger.

Tecnicamente, o trabalho de câmara de Sebastian Winterø e a edição de Jennifer Vecchiarello funcionam perfeitamente juntos, mas a bela banda sonora de Emile Mosseri é ocasionalmente colocada num volume tão alto que fere alguns diálogos. O ritmo lento não funciona durante todo o tempo de execução e o negócio fraudulento da família rapidamente perde o interesse, para além de desafiar a lógica das situações algumas vezes. No geral, recomendo para todos, por isso, deem uma vista de olhos se conseguirem!

Acesso ao filme via Focus Features. Kajillionaire ainda não tem estreia marcada para Portugal.

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