Crítica – Judas and the Black Messiah (Sundance 2021)

Judas and the Black Messiah dificilmente ficará de fora da discussão para os melhores filmes de 2021… e ainda vamos em fevereiro.

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Sinopse: “As palavras catárticas de Fred Hampton (Daniel Kaluuya) “Eu sou um revolucionário” gerou comícios impactantes em 1969. Como Presidente da secção de Illinois da Black Panther Party, Hampton exigiu todo o poder para o povo e inspirou um movimento crescente de solidariedade, levando o FBI a considerá-lo uma ameaça e a colocar o informante William O’Neal (Lakeith Stanfield) como infiltrado no partido. Judas and the Black Messiah não só conta o legado de Hampton e a conspiração do FBI, como também oferece igualdade ao homem que se tornou infame pela sua traição – destacando os sistemas de desigualdade e opressão que alimentaram ambos os seus papéis.”

Judas and the Black Messiah foi uma adição de última hora à edição deste ano do festival Sundance, uma novidade que, basicamente, mudou todas as listas sobre os filmes mais esperados do festival, incluindo a minha. O sururu em torno das iminentes nomeações para os Óscares, o elenco fantástico e, principalmente, a sua importante narrativa baseada em eventos reais, foram razões mais do que suficientes para gerar um tremendo hype. Quando vejo filmes inspirados em pessoas reais e/ou histórias verídicas, quero que me ensinem tudo sobre o momento histórico que estão a retratar. Quero terminar as minhas sessões de cinema a saber mais do que aquilo que sabia inicialmente. Quero que o filme seja esclarecedor, estimulante e, acima de tudo, impactante.

Sou apenas alguém que vive em Portugal e sem conhecimento prévio de quem era Fred Hampton ou quais os seus feitos. O mais perto que cheguei de aprender algo sobre ele foi durante Trial of the Chicago 7, mas esse filme nem sequer estava focado no Partido dos Panteras Negras, muito menos num dos seus revolucionários mais importantes. A minha voz está longe de ser significativa em relação a este filme, no entanto, tenho uma opinião sobre esta longa-metragem, pelo que estou no meu direito de partilhá-la. Acho que o filme de Shaka King tem todas as qualidades que mencionei acima… e muito mais.

Sendo totalmente honesto, tive dificuldades para entender completamente a intenção de Fred Hampton durante a primeira metade de Judas and the Black Messiah. Os seus objetivos são claros e podem ser resumidos a algo como tentar oferecer a todos uma vida melhor, uma que fosse justa e onde todos fossem tratados da mesma forma. Porém, o meu problema não estava nas suas motivações ou crenças, mas, sim, no caminho violento e assassino que Hampton incitava os outros a tomar – repito, não sabia nada sobre a história real nem sobre o próprio Hampton.

No entanto, as primeiras palavras de Daniel Kaluuya na pele da personagem ficaram comigo até agora – “Nós não vamos combater fogo com fogo, vamos combatê-lo com água. Não vamos combater o racismo com racismo. Vamos lutar com solidariedade. Não vamos lutar contra o capitalismo com o capitalismo negro. Vamos lutar contra isso com o socialismo” – e continuou a desenvolver essa ideia, que eu acho incrivelmente oportuna.

A cena que finalmente me deixou totalmente ciente das ideias de Hampton foi quando William O’Neal faz o discurso mais famoso deste último no final do segundo ato no seu sentido mais literal, deixando Hampton perplexo e chocado com a interpretação de O’Neal das suas palavras. A reação de Hampton, bem como um momento mais emocional com a mãe do seu filho, Deborah Johnson (Dominique Fishback), foi o clique que precisava para compreender plenamente os desejos do revolucionário. Este é um dos melhores elogios que posso oferecer a Shaka King e a Will Berson pelo guião requintado e detalhado. Não faz de Hampton um super-herói impecável que nunca comete erros, mas retrata-o como um ser humano que lutou pelos direitos de todos. Este último está mais perto de ser um Messias do que o primeiro.

A intrincada narrativa pode parecer um pouco pesada demais para alguns espectadores, mas embala discursos extraordinariamente energéticos, inspiradores e indutores que não esquecerei tão cedo. Hampton e O’Neal levantam temas sensíveis que, definitivamente, deixarão o público a pensar e a discuti-los ao longo do ano. Apesar de ser o filme mais longo do festival, o seu tempo de execução de duas horas parece adequado e bem distribuído.

Além disso, a fantástica cinematografia (Sean Bobbitt) concentra-se nas performances dos atores, não dando a mínima hipótese de os espectadores se distraírem com qualquer outra coisa além das palavras dos personagens. O investimento emocional nos personagens eleva as sequências de filmagem bem editadas (Kristan Sprague) que me deixaram plantado no sofá, o que acaba por servir como um grande elogio à escrita do filme.

Deixei o elenco por último. Sim, eu sei que 2021 ainda agora começou, mas se Daniel Kaluuya não for nomeado para a temporada de prémios para a respetiva categoria de Melhor Ator Secundário, ficarei mesmo revoltado. Ainda tenho que testemunhar uma performance deste ator que deixe a desejar. Kaluuya é excecionalmente cativante desde a primeira vez que surge em cena, nunca descendo o nível. Lakeith Stanfield também é brilhante como um William O’Neal em conflito, entregando um retrato extremamente complexo de alguém que tem que lidar com ações que sabe que estão erradas. Dominique Fishback e Jesse Plemons (Roy Mitchell, um agente do FBI) também merecem elogios. Um dos melhores filmes do festival, sem dúvida, e não estou a exagerar quando digo que vai terminar a ser um dos meus filmes favoritos do ano.

Judas and the Black Messiah merece todo o hype que tem recebido e muito mais. Shaka King e Will Berson entregam um filme inspirado em eventos reais com todas as qualidades que este tipo de peça necessita: esclarecedor, inspirador, estimulante e tremendamente impactante.

Possuindo uma prestação que terminará, com certeza, como uma das melhores do ano (Daniel Kaluuya), a história de Fred Hampton e William O’Neal é contada através de uma narrativa incrivelmente cativante, preenchida até ao limite com discursos e diálogos absolutamente épicos, fascinantes e arrepiantes que não deixarão nenhum espetador indiferente. Ambas as personagens trazem temas atuais e oportunos de volta aos holofotes, que geram uma conversa essencial sobre liberdade, direitos humanos e igualdade.

Para além de Kaluuya, Lakeith Stanfield merece igualmente imensos elogios e não me posso esquecer da cinematografia persistente e focada nas personagens, elevando todas as cenas. Apreciação final para a banda sonora de Mark Isham e Craig Harris, que é inesquecível e viciante, desempenhando um papel significativo na narrativa.

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