Crítica – “Greta”

por Manuel São Bento

Uma doce e ingénua jovem mulher, tentando viver por conta própria em Nova York, Frances (Chloë Grace Moretz), não pensa duas vezes sobre devolver uma mala que a mesma encontra perdida no metro à sua legítima dona. Essa proprietária é Greta (Isabelle Huppert), uma professora francesa de piano, excêntrica, com um amor pela música clássica e uma solidão dolorosa. Tendo perdido recentemente sua mãe, Frances rapidamente se aproxima da viúva, Greta. As duas tornam-se amigas facilmente, mas os encantos maternos de Greta começam-se a dissolver e a crescer cada vez mais perturbadores, à medida que Frances descobre que nada na vida de Greta é o que parece.

Todos os anos, existe um certo número de filmes subvalorizados e/ou que passaram despercebidos. Greta é a primeira película de 2019 a pertencer a ambas as categorias. Passou completamente ao lado devido ao reboot de Hellboy, assim como está a ser subvalorizado, tendo em conta as críticas atuais.

Contrariando essa tendência, por aqui acha-se que é um filme fácil de apreciar, principalmente devido às performances incríveis das suas protagonistas. Isabelle Huppert é absolutamente fantástica como Greta, como esperado de uma atriz tão aclamada. A sua personagem tem uma personalidade muito misteriosa que é bem desenvolvida durante todo o tempo de execução. Inegavelmente, o seu passado e as suas ações acabam por ser um pouco questionáveis, em termos de lógica. Apesar de não ser algo inteiramente surreal, é impossível esconder que alguns aspetos da sua pessoa têm falta de consistência, e até de sentido. Felizmente, não está nem perto da absurdidade de Serenity, por exemplo. No final, Huppert eleva o seu guião e oferece uma exibição extremamente cativante.

Chloë Grace Moretz é uma das atrizes jovens mais talentosas atualmente e é uma questão de tempo até se tornar numa estrela muito cobiçada. Neste filme, consegue mostrar toda a subtileza das suas expressões, ao mesmo tempo que prova o quão impressionante é o seu alcance de emoções. Ela incorpora a personalidade inocente e caridosa da sua personagem como se ela fosse, na verdade, Frances. Duas performances maravilhosas que se tornam ainda melhores devido à química palpável que as duas atrizes têm uma com a outra.

Com tão curto tempo de duração, as suas interações são interessantes no início, tornando-se cada vez mais intrigantes à medida que o tempo passa. Além delas, Maika Monroe (Erica Penn) surpreende tremendamente! Não só a sua personagem foge ao estereótipo de “amiga loira e burra”, assim como realmente oferece um desempenho excecional.

No entanto, o argumento tem alguns problemas narrativos, sendo a maioria deles relacionados com Greta, como mencionado acima. É difícil imaginar o que acontece na segunda metade do filme como algo que pode ocorrer na vida real tal como é representado, o que instantaneamente mata a maioria destas histórias. Apesar disso, não é tão inacreditável como as pessoas podem pensar no início, e, depois de algum tempo para pensar, facilmente se assume como algo plausível, tendo em mente o fator psicológico.

Não se separa dos clichés do género e é bastante previsível, mesmo que o final chegue com uma boa surpresa. É o típico B-movie que é bom para ver em casa em uma tarde de domingo, mas se conseguirem apanhar o mesmo nos cinemas, não se irão arrepender do dinheiro gasto.

Concluindo, Greta é o primeiro filme subvalorizado e despercebido de 2019. Com duas performances extremamente cativantes de Isabelle Huppert e Chloë Grace Moretz, este filme destaca-se dos mais recentes do mesmo tipo. A química das protagonistas carrega a maior parte da história envolvente, apesar de ser obrigatório mencionar o bom e surpreendente desempenho de Maika Monroe. Os problemas narrativos são indiscutíveis e podem tanto ser interpretados como completamente descabidos ou razoavelmente plausíveis, na melhor das hipóteses, dependendo do tipo de espetador que o leitor é.

Existem justificações suficientes para observar os eventos da segunda metade e as ações da personagem de Huppert tanto como surreal ou realista. Deste lado, ficamo-nos pela última.

Nota:

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