Cose di Mamma: a alma da cozinha italiana contemporânea

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Entre uma decoração rica em memórias e uma cozinha aberta onde brilha um forno de pizza napolitana, o Cose di Mamma destaca-se pela transparência e frescura dos ingredientes.

Situado na Estrada da Luz, em Benfica, o restaurante Cose di Mamma – que tem também outro espaço em Benfica – apresenta-se como um refúgio acolhedor que renasceu em dezembro de 2025, após um rebranding estratégico da antiga Casa Italiana. Sob a gestão de David Bento, o espaço aposta num conceito de cozinha italiana contemporânea que foge aos clichés, focando-se numa atmosfera familiar e confortável.

A fachada moderna, com a sua estrutura metálica e caixilharia em tons de verde-azeitona, harmoniza de forma descontraída com a vegetação tropical e as palmeiras que guardam a entrada, criando uma transição suave para um interior onde a decoração equilibra o estilo industrial com elementos rústicos e afetivos.

As condutas de ventilação à vista e o uso extensivo de madeira clara em estantes repletas de garrafas, cerâmicas, livros e fotografias antigas conferem ao espaço uma patine de história. Um dos elementos que achamos mais carismáticos é a “parede de memórias”, um mosaico visual com imagens de várias personalidades que marcaram o percurso da casa, incluindo uma fotografia da cantora Ágata que se topa logo à entrada.

O mobiliário alterna entre mesas de madeira maciça e o padrão terrazzo, com cadeiras estofadas num verde profundo – tudo convidando a refeições demoradas. Não obstante, o coração do restaurante é, sem dúvida, a cozinha aberta, onde o trabalho coreografado dos chefs e pizzaiolos acontece à volta de um grande forno redondo e de uma bancada de mármore com pizzas quentes e massas sempre a sair.

A carta do Cose di Mamma ostenta um bom equilíbrio entre acessibilidade e sofisticação. O menu de almoço, disponível de segunda a sexta-feira por uns muito competitivos 13,50€, inclui clássicos como a Pasta Pomodoro com Mozzarella de Búfala, Risotto de Abóbora com Chèvre e Guanciale, ou as pizzas Margherita e Diavola.

No entanto, é na carta principal que a amplitude desta cozinha “da Avó” se revela. O couvert parece ser ótimo para abrir as hostilidades, por exemplo, com uns Grissinos, jutamente com Manteiga com tomate seco e manjericão, bem como azeitonas marinadas.

A nossa experiência começou com a chegada do vinho, um Bico Calado 2023, tinto regional alentejano da Casa Relvas. Este vinho, um lote de Alicante Bouschet, Aragonez, Touriga Nacional e Trincadeira, revelou-se um companheiro à altura da nossa jornada. No copo, a cor rubi definida e os aromas a frutos vermelhos e bosque antecipavam uma estrutura ótima para conjugar com sabores intensos. O rótulo, com a sua ave aristocrática em traje de época, trouxe um toque de humor e irreverência à nossa mesa, personificando o espírito da casa.

Iniciámos o banquete com um Flat Bread C/ Mozzarella Fior Di Latte, Azeite D’Alho e Alecrim, que serviu de introdução perfeita. Este pão foca-se nos sabores clássicos italianos (alho, alecrim e, opcionalmente, o queijo fior di latte). Traduzido literalmente como “pão achatado”, é um tipo de massa relativamente fina que não cresce muito (como a base de uma pizza, mas mais leve e de aspeto rústico).

Em simultâneo, provámos também uma Focaccia com Azeite de Alho, Azeitonas e Alecrim, uma delícia coberta de deliciosas azeitonas pretas cujo aroma se funde com o perfume das ervas aromáticas, criando uma textura e um paladar muito mediterrânico.

Portanto, foram duas ótimas escolhas, para partilhar antes de chegar a massa ou o risoto! Para os pratos principais, explorámos o que de melhor a secção de pratos especiais oferece.

Deliciámo-nos com a Pasta Funghi Trufada, do menu dos principais, um prato de fettuccine fresco mergulhado num molho de trufa negra de tom profundo e terroso, cujo rigor é equilibrado pela frescura de quatro generosas quenelles de ricota cremosa e raspas de limão. Foi um exercício de elegância onde a acidez do citrino cortou perfeitamente a gordura da trufa.

Não resistimos também ao Risotto Gamberi, que nos conquistou pelo tom alaranjado vibrante do seu bisque apurado, servido com camarões sumarentos e o contraste textural de tomates cherry confitados e feijão-verde estaladiço, que conferiu uma modernidade inesperada a um prato clássico, dando uma nota fresca e vegetal ao risotto.

Com remorsos por não estarmos a testar nenhuma verdadeira pizza numa casa deste calibre, não resistimos a testar os limites da saciedade e pedimos a Pizza Funghi, que se revelou um verdadeiro corolário desta refeição, com sabores da terra, ao combinar três espécie de cogumelos, o Portobello, o Paris e o Shimeji, sobre uma base de ricota trufada. A massa, fiel ao estilo napolitano, apresentou-se com a borda alta, tostada e perfeitamente alveolada, provando que as 48 horas de fermentação não são apenas um detalhe técnico, mas um segredo bem guardado e que proporciona uma boa leveza digestiva.

O vinho Bico Calado portou-se como um mestre de cerimónias, com o seu final longo e suave a limpar o palato entre a intensidade da trufa e a cremosidade do bisque.

Terminámos a experiência com duas sobremesas artesanais servidas em doses que convidam à partilha familiar.

O Tiramissú apresentou-se como um dos melhores que já testámos: com camadas equilibradas de café e mascarpone, suave e envolvente sob uma nuvem de cacau puro, mas onde, acima de tudo, o toque do licor Disaronno se faz sentir de forma subtil e persistente, impactando num paladar único.

Por fim, fomos surpreendidos pela Mousse de Chocolate, com 70.5% de cacau. Esta proposta densa e aveludada não veio acompanhada de gelado, pois tinha acabado a provisão do restaurante para o dia, mas, para compensar, apresentou-se coberta de pistáchios inteiros ligeiramente tostados: uma delícia crocante e doce.

O Cose di Mamma funciona de forma contínua do meio-dia às 23h30, servindo tanto clientes locais como visitantes de fora num ambiente que beneficia de uma luz natural generosa durante o dia e se torna sofisticado e intimista ao jantar. É daqueles restaurantes que oferece uma celebração da autêntica cozinha italiana em cada detalhe, onde o rigor da técnica e a hospitalidade de toda a equipa têm conquistado inúmeros visitantes.

Graça Pacheco
Graça Pacheco
Licenciada em literaturas clássicas e com um doutoramento em estudos literários, sou colaboradora e fã do Echo Boomer. Escrever, para mim, é um ofício desafiante mas também um hobby. Também adoro gastronomia, gosto de explorar novas tecnologias e sobretudo, adoro cinema e TV.
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