A reabertura da Malice marca uma mudança de conceito, agora centrado numa interpretação contemporânea da cozinha italiana.
O Malice, restaurante localizado no nº 238 da Rua de O Século, no Príncipe Real, em Lisboa, reabriu portas no passado dia 21 de maio com uma nova orientação gastronómica, passando a apresentar-se como uma osteria italiana. A mudança assinala uma reformulação do conceito original do espaço, agora centrado numa abordagem mais definida à cozinha italiana, sob a direção do fundador e chef executivo Jorge Marques.
O projeto, cujo nome se deve a duas avós que se chamavam Maria Alice – a junção dos nomes resultou no nome do estabelecimento -, surge como o palco de uma homenagem sentida à herança dos avós. O novo enquadramento inspira-se no modelo tradicional das osterias, estabelecimentos italianos historicamente associados a um ambiente informal e a uma oferta gastronómica assente em especialidades regionais e em cartas reduzidas. Estes espaços caracterizavam-se pela simplicidade, tanto na experiência como na execução culinária, privilegiando a origem dos produtos e a autenticidade dos pratos. A proposta atual da Malice recupera esses princípios, articulando-os com técnicas contemporâneas e com a experiência acumulada pelo chef ao longo do seu percurso profissional.
Jorge Marques desenvolveu parte da sua carreira em cozinhas de referência no contexto europeu, tendo passado pelo Dinner by Heston Blumenthal, em Londres, e pelo Maaemo, em Oslo. No restaurante londrino, contactou com abordagens que cruzam técnica e investigação histórica aplicada à gastronomia, enquanto no espaço norueguês integrou uma cozinha centrada na valorização do produto e na sazonalidade. Este percurso influencia a linha adotada na Malice, que aposta numa leitura da cozinha italiana baseada nos seus fundamentos, evitando elementos acessórios e privilegiando a execução rigorosa.
A reabertura do Malice implicou também alterações ao espaço físico, isto é, foi redesenhado para refletir a nova identidade, adotando um ambiente mais informal e orientado para o convívio à mesa. E nós, claro, tivemos de ir provar.
Num ambiente muito animado, com direito a DJ e tudo, a nossa experiência começou por vislumbrar o menu, que ainda é vasto. Começando na secção Antipasti Pasticlub, pedimos umas Almôndegas Nduja & Parmesão, que é como quem diz, almôndegas cujo interior é o enchido típico da cozinha calabresa – e, em geral, da cozinha italiana, muito picante, feito com carne de porco e especiarias – com queijo parmesão, tendo sido provavelmente das melhores almôndegas que comemos em muito tempo num restaurante. Também ótimo estava o Sfizio de Burrata, composto por massa de pizza com Mortadela com Pistache – carne de porco finamente moída e cubos de touro com pistaches inteiros ou em pedaços – burratina (versão menor da famosa burrata) e molho de tomate. É daquelas entradas que podia vir em ponto gigante, isto é, como se fosse um prato principal, que ficaríamos inteiramente satisfeitos.
Seguindo para os Primi Piatti, a coisa fica ainda mais interessante. Não, não pedimos a Lasanha caseira, mas sim a Nduja Rigatoni a la Vodka, que basicamente é massa Rigatoni com molho de tomate, vodka e enchido picante da Calábria. Sim, sente-se aquele “kick” do álcool e do picante, mas nada que seja intolerável. E sim, massa cozida no ponto! Também bastante recomendável é a Costola di Manzo, ou seja, Costela de Novilho com osso, cozinhado a baixa temperatura. Certamente não será surpresa dizer que não sobrou nada… à exceção do osso.
Já a secção das Pizzas é generosa, com um total de 10 opções distintas. Há ainda as Pizzetas (fermentação lenta) e as Sandwichs, cujo pão é igualmente de fermentação lenta. A conselho do staff, pedimos a Sandwich de Pistácio, composta por Creme de Pistácio, mortadela de Pistácio e Burrata. É para os fãs do famoso fruto seco, sem dúvida, sendo daquelas propostas ótimas para pedir ao passar pelo local e seguir viagem.
Infelizmente já não ficámos para os Dolci – nesta altura a festa estava ao rubro e com muita, muita gente -, pelo que só mesmo uma próxima visita para provar o Tiramisu da casa ou a sobremesa com o curioso nome It’s Bananas.
Inserido numa zona reconhecida pela sua diversidade cultural e dinâmica urbana, o Malice pretende alinhar-se com a lógica de proximidade e partilha associada ao conceito de osteria. E segundo o que pudemos comprovar, tem tudo para ser um sucesso.
