Será que a rotina diária se tornou tão digital que o ato de criarmos algo real com as nossas próprias mãos se pode transformar no maior luxo da semana?
No coração de Lisboa, há um espaço emblemático que decidiu desafiar a monotonia das noites urbanas ao fundir gastronomia de qualidade com a tradição milenar do barro. Fomos ao Chiado testar o programa Ceramic By Night do Tágide Gastrobar, uma experiência imersiva que acontece às quartas-feiras à noite e aos sábados ou feriados, neste caso em formato de brunch. O conceito convida os clientes a trocar os ecrãs por pincéis enquanto saboreiam um menu, transformando um jantar comum num momento de pura terapia artística e descompressão.
Entrar no edifício do Tágide, situado no Largo da Academia Nacional de Belas Artes, em pleno Chiado, é fazer uma viagem prolongada no tempo. Enquanto nos sentávamos no Tágide Wine e Gastrobar, a equipa partilhava connosco detalhes deliciosos sobre a herança do espaço. Relembraram-nos que se trata não só de um edifício da época pombalina, com todas as características inerentes – desde a traça arquitetónica portentosa do século XVIII aos painéis de azulejaria e a fonte que, no piso superior, ali se ostenta como original -, como também da sala onde outrora cantou Charles Aznavour, entre outras celebridades que marcaram a música do século XX, numa época em que o Tágide era um ponto de referência na vida noturna lisboeta, com o maestro Jorge Brandão a liderar o conjunto musical residente.
Mas o respeito pela história deste lugar icónico não impede a modernização da casa. A ideia de trazer os pincéis e o barro para a mesa nasceu há cerca de dois anos, e focarmo-nos no percurso inspirador da anfitriã e na sua ligação íntima a este projeto ajuda a perceber o porquê de tanto sucesso.
Gestora do Tágide há quase duas décadas, Suzana Barros de Brito é a mente criativa por trás deste casamento de mundos. A sua carreira fala por si: desde a formação académica principal, em Peritagem de Arte, com um percurso internacional que passou pela icónica leiloeira internacional Sotheby’s, em Londres, a transição para a gastronomia deu-se em 2007, quando assumiu a liderança e gestão do icónico restaurante, que pertence à sua família. O olhar detalhista e o respeito absoluto pela manualidade ajudaram a moldar o espírito do Gastrobar e esta nova experiência, em que ela mesma participou, sentando-se à mesa connosco e pintando a sua sardinha-elétrico.
Mãe de três filhos, empresária e apaixonada por fundir conceitos, Suzana transpôs o seu próprio amor pela olaria utilitária em grés para dentro do restaurante ao fundar a sua marca autoral, a Terr.a.mar. O Ceramic By Night é, no fundo, a partilha desta paixão com o público, resultando num conceito onde a refeição se transforma numa autêntica sessão de arteterapia guiada pelo próprio espírito de quem pensou o espaço.
A dinâmica do projeto foi desenhada para que a criatividade flua sem pressas e, acima de tudo, conviva em harmonia com os prazeres da mesa. O processo começa assim que os clientes chegam, momento em que a equipa apresenta algumas peças já finalizadas, vidradas e saídas do forno, para que os participantes percebam como as cores ganham um brilho intenso e mudam radicalmente de tom após a cozedura.
Logo de seguida, cada pessoa seleciona o seu modelo base a partir de uma variedade de peças com forte identidade portuguesa, que incluem as clássicas sardinhas, azeitoneiras, canecas, taças e as emblemáticas andorinhas de parede.
Os materiais e as tintas especiais são entregues antes de os pratos principais chegarem à mesa, o que permite que as pessoas comecem a pintar e, à medida que chega a entrada, já estejam imersas na primeira fase do trabalho.
Na nossa mesa, as grandes protagonistas foram as tradicionais sardinhas de cerâmica. Enquanto conversávamos e jantávamos, fomos dando vida àquelas peças de cerâmica pré-cozida, materializando o nosso instinto criativo – chamemos-lhe assim – numa execução de forma muito livre.
Não se deixem intimidar com o desafio de se arvorarem em pintores ou artistas por alguns (deliciosos) minutos. Falo por mim: não sou artista, mas a minha peça, em particular, ganhou tons em azul profundo com pequenas pintas delicadas, enquanto outra a meu lado recebia detalhes rosados e texturas escamadas através de pinceladas fluidas… Outras, à volta, não ficaram menos bem.
Olhar para elas ali, lado a lado com os pratos e os copos de vinho, permite-nos perceber a essência maleável do projeto, onde cada um pode pintar um pouco, deixar o pincel descansar para saborear um petisco, conversar, dar um gole no vinho e voltar à peça quando desejar.
Outro aspeto importante: não se desmoralizem com os resultados iniciais. Nesta fase inicial, a tinta especial de cerâmica ainda se apresenta baça, opaca e com aquele aspeto de pó característico do barro pré-cozido e ainda por vidrar.
O verdadeiro truque de magia acontece nos bastidores pois, terminada a noite, as peças ficam com o restaurante entre uma a duas semanas. É lá cima, no forno de alta temperatura de as próprias instalações dispõem, que as nossas “obras” tão especiais passam pelo minucioso processo de vidragem e cozedura. Este mergulho no calor transforma tudo, fazendo com que as cores antes baças ganhem vida, graças a uma intensidade vibrante e um brilho reluzente vitrificado que muda por completo o aspeto do objeto.
Quem regressa para recolher as suas criações fica, em geral, absolutamente espantado e orgulhoso com o resultado final, ao ver que aquela peça pintada despretensiosamente entre garfadas se transformou numa loiça utilitária real, pronta a ser usada no dia a dia e com um acabamento digno de montra. Para que tudo corra bem, a única regra de ouro partilhada pela casa dita que, quanto mais tinta tiver a peça, melhor será o resultado, porque agarra muito mais e ganha texturas incríveis.
E se a experiência artística convence, a proposta gastronómica do bar não lhe fica atrás.
O menu do Ceramic By Night custa 39€ por pessoa e inclui a experiência da cerâmica e um menu de jantar completo com entrada, prato principal, sobremesa e uma bebida a copo. Para quem prefere apenas focar-se na arte com um copo na mão, existe a opção do Menu Cerâmica por 20€, que inclui uma bebida e a peça, enquanto a versão de fim de semana dedicada ao Brunch com cerâmica fica por 37€.
A viagem de sabores do nosso grupo arrancou com a escolha entre o crocante Croquete de cachaço, que se revelou muito cremoso por dentro e encimado por uma maionese de ervas fresca, e a tradicional Patanisca de bacalhau. São, de facto, ambos ideais para petiscar, enquanto as mãos se habituam aos pincéis. O sabor da boa comida tradicional está presente e confere um conforto imediato.
Nos pratos principais, o menu oferece três caminhos distintos, a começar pelo Picadinho de cogumelos com batata frita, que se assume como a feliz opção vegetariana do menu. A segunda opção foca-se no fresquíssimo Salmão curado com arroz cremoso de lima, funcho e agrião, cuja acidez viva do citrino corta e equilibra lindamente a envolvência do arroz.
Para fechar as opções de prato principal, a sugestão do chef brindou os que optaram por ela nesta noite com um suculento Lombo de Porco com Batata Assada a Murro e Espinafres, perfeitamente selado, acompanhado por batatas assadas à antiga e espinafres salteados.
Toda a refeição foi harmonizada com o Vinho Tinto Tágide, da colheita de 2023, com indicação geográfica de Lisboa. Produzido e engarrafado pela prestigiada AdegaMãe sob a assinatura do enólogo Diogo Lopes, este néctar inspirado pela frescura do Atlântico combina as castas Touriga Nacional, Pinot Noir e Aragonez num perfil elegante e com uma acidez equilibrada que casou surpreendentemente bem tanto com a carne, como com a frescura do salmão curado.
Para fechar a noite com a nota doce certa, o menu deu-nos a escolher entre o guloso Brownie de Chocolate, que veio acompanhado com creme de pistácio e frutos do bosque, ou o clássico Leite creme tradicional. Este veio com a crosta de açúcar queimada no ponto, servido numa taça que antecipa o destino final das nossas próprias obras de arte.
Embora o Ceramic By Night já exista há dois anos, tem sido a geração urbana mais nova a impulsionar o seu sucesso recente. Numa era saturada de ecrãs e notificações constantes, o regresso ao trabalho manual funciona como o derradeiro escape mental para quem trabalha na cidade, o que justifica que as quartas-feiras à noite se tenham tornado o período mais concorrido de toda a semana. Os turistas internacionais também já se renderam à experiência de pintar a sua própria recordação de Lisboa e, como as peças precisam de tempo para cozer, o restaurante disponibiliza um serviço de envios internacionais com embalamento rigoroso em plástico bolha e seguro incluído, o que já levou andorinhas e sardinhas pintadas no Chiado até ao Reino Unido, França, Itália e Hong Kong.
Quando questionámos Suzana Barros sobre se este programa era gastronomia com cerâmica ou vice-versa, a resposta revelou uma teoria muito própria e desarmante. Para a proprietária, este projeto assenta verdadeiramente num conceito de “nutrição”. E a realidade é que percebemos perfeitamente o porquê desta afirmação, pois não se trata apenas do valor nutricional equilibrado da comida que nos chega à mesa, mas sim do facto de este lado oficinal, experimental e de contacto direto com o barro, nutrir profundamente o espírito ao permitir-nos criar algo genuinamente nosso e que, claro, tem a virtude de nos unir (ainda mais) em torno da boa comida.
Se procuram um plano original para quebrar a rotina a meio da semana, o Ceramic By Night, no Tágide Wine & Gastro Bar, prova que existem muitas formas de saborear a vista magnífica e a história de Lisboa, mas a melhor delas é ter um ótimo pretexto para desfrutar de boa comida em excelente ambiente e companhia.
