Com menus de degustação focados nos sabores nacionais e oficinas que juntam brunch, jantar e cerâmica, o Tágide e o seu Gastrobar oferecem uma experiência cultural e sensorial no Chiado.
A redefinição da alta gastronomia e das experiências culturais no coração de Lisboa tem vindo a passar por um equilíbrio delicado entre a preservação da identidade local e a adaptação às exigências do mercado internacional. No restaurante Tágide, uma das casas gastronómicas mais emblemáticas e prestigiadas da capital, a celebrar 80 anos de existência no Chiado, a gestão do espaço reflete essa dinâmica, combinando a tradição culinária portuguesa com propostas distintas e eventos onde a arte e a restauração se cruzam de forma direta.
A liderar este ícone lisboeta desde 2007 está Suzana Barros de Brito. Formada na Escola Superior de Artes Decorativas, com especialização em peritagem artística, a empresária iniciou a sua trajetória no mercado da arte, somando experiências na leiloeira Sotheby’s, em Londres, e na gestão do acervo artístico do antigo Banco Comercial Português (BCP). Há quase duas décadas que comanda este destino gastronómico no Largo da Academia Nacional de Belas Artes, instalado num edifício de arquitetura pombalina.
A história do Tágide remonta a 1950, altura em que abriu portas no Largo da Biblioteca como um vistoso restaurante-boîte, fundado pelo comerciante vinícola Campos Ferreira e pela atriz francesa Mireille Robert. Foi precisamente a artista gaulesa que batizou a casa, inspirando-se nos versos de Luís de Camões que invocavam as ninfas do Tejo. Com uma atmosfera marcada pelo trabalho decorativo de Estrela Faria e pela música da orquestra liderada pelo maestro Jorge Brandão, o espaço fixou-se na década de 50 como o centro da vida noturna lisboeta, atraindo astros internacionais como Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, Georges Ulmer ou Jacqueline François, além de referências nacionais como Simone de Oliveira e Madalena Iglésias.
Em 1970, a direção iniciou a transição para o segmento da alta restauração, promovendo uma profunda reestruturação em 1973 que culminaria, no ano seguinte, com a transferência para a atual morada. O projeto de decoração, assinado por Duarte Pinto Coelho, integrou na arquitetura do imóvel lustres do século XVIII, fontes em pedra do século XVII e painéis azulejados setecentistas, elementos patrimoniais que preservam até hoje a identidade da sala principal. Na estrutura societária da empresa fundadora figurava o banqueiro Jorge de Brito, criador do Banco Intercontinental Português (BIP). Entre 1981 e 1992, o estabelecimento alcançou um feito histórico ao ser distinguido com uma estrela Michelin, convertendo-se no primeiro restaurante da capital a ostentar o galardão. Já sob a liderança de Suzana Barros de Brito, o imóvel foi alvo de uma nova intervenção estética em 2007, que harmonizou o legado histórico com apontamentos contemporâneos, introduzindo obras de Maria João Brito e um candeeiro concebido por Tim Madeira.
A estrutura do espaço divide-se atualmente entre a sala do restaurante, no piso superior, e a área do bar e esplanada, no piso inferior, onde opera o Tágide Wine & Gastrobar, lançado em 2012 para oferecer um ambiente mais informal, focado em cocktails e propostas gastronómicas descontraídas. A lotação máxima do restaurante pode atingir as 100 pessoas em ocasiões especiais de eventos, mas a operação quotidiana privilegia uma ocupação mais reduzida, situada entre os 40 e os 45 lugares, de modo a garantir a fluidez do serviço, a compostura do ambiente e a própria espacialidade do local. No piso térreo, o modelo direciona-se a uma audiência mais jovem.
A proposta gastronómica assenta na valorização firme dos sabores nacionais, rejeitando a descaracterização do receituário em função de modelos genéricos internacionais. Sob o comando executivo do chef Hugo Rochi, cozinheiro brasileiro com raízes familiares em Itália, a linha culinária preserva a matriz portuguesa como pilar central, acolhendo detalhes contemporâneos e uma submissão estrita à sazonalidade dos produtos. O cardápio afasta-se de influências de cozinhas de outras latitudes, priorizando espécies piscatórias do Atlântico e pratos clássicos como o Bacalhau de meia cura ou a Barriga de leitão fumada.
A oferta divide-se entre o serviço à carta e duas opções fixas de degustação: o Menu Camões e o Menu Tagide. O Menu Camões, proposto pelo valor de 68€ com couvert incluído, confere ao cliente a liberdade de selecionar qualquer entrada, prato principal e sobremesa disponíveis na carta, configurando uma solução comercial vantajosa. Por seu lado, o Menu Tagide apresenta uma sequência mais extensa, englobando duas entradas, um prato de peixe, um prato de carne, pré-sobremesa e sobremesa. Para ambas as opções, a seleção de vinhos é disponibilizada através de suplementos específicos. A ementa inclui igualmente alternativas vegetarianas estruturadas, cobrindo entradas e pratos principais.
No nosso caso, visitámos o Tágide no passado mês de julho, e tivemos oportunidade de provar alguns pratos, tais como Sarrajão curado com tomate, pimento vermelho, broa e manjerico, peixe que muitos dizem ser a alternativa ao atum; Barriga de Leitão fumada com favas, chouriço e molho de pimenta, muitíssimo suave apesar da crocância da crosta; e, a terminar em beleza, o O Ovo Dourado, constituído por pêssego, manga, chocolate branco e flôr de laranjeira. O ovo chega inteiro à mesa, sendo que o objetivo é partir com delicadeza, seja com a colher, dando leves toques, ou então com uma faca, para os menos habilidosos. E sendo uma sobremesa, é fácil perceber: ao invés da gema temos molho de manga, e a clara é substituída por chocolate branco. E sim, tudo é comestível… ainda por cima numa sobremesa deliciosa.
Para além da operação de restauração pura, o espaço dinamiza no Gastrobar um conceito criativo que funde a gastronomia com a aprendizagem prática de cerâmica e a pintura de azulejos. Estas oficinas, que requerem marcação prévia e surgem associadas a formatos de brunch (37€) ou jantar (39€), captam um volume expressivo de público nacional. Durante as sessões, os participantes moldam e decoram peças em barro ou trabalham sobre azulejos utilizando pigmentos inspirados nos séculos XVII e XVIII, designadamente o amarelo girassol e o azul cobalto, sendo as peças posteriormente vidradas e submetidas a cozedura em forno próprio antes de serem entregues na semana seguinte.
A introdução desta vertente artística na experiência do restaurante reflete o próprio percurso de Suzana Barros de Brito e a sua relação antiga com o barro. Essa ligação remonta à adolescência: aos 15 anos, teve o primeiro contacto com o suporte cerâmico num curso de verão, onde aprendeu a pintar sobre as placas de argila dos azulejos. Já durante a sua gestão no Tágide, a empresária retomou a prática de moldar a terra e desenvolveu um conjunto de pratos artesanais em grés decorados com elementos de fósseis marinhos, desenhados expressamente para apresentar a entrada de Vieiras com caviar na carta da casa. Esta aproximação continuada ao trabalho com a matéria-prima levou, em 2023, ao nascimento da terr.a.mar, uma marca autoral que combina a celebração dos elementos naturais com as iniciais dos seus três filhos: Tomás, António e Mafalda.
A gama da terr.a.mar abrange desde artigos ornamentais a peças de serviço de mesa – incluindo pratos de apresentação e de amuse-bouche, recipientes para azeite e manteiga, jarras e até bijuteria -, todos submetidos a vitrificação a altas temperaturas para suportar o manuseamento exigido pela restauração profissional. Parte destas criações foi incorporada no quotidiano do Tágide, enquanto outras foram encomendadas para unidades hoteleiras e residências privadas. A manufatura é realizada nas instalações da Ceramista Shop, em Oeiras, onde a responsável colabora com outros criadores do setor, com quem tem participado em mostras coletivas, alimentando o plano de expandir a marca para os mercados internacionais.
A vertente artística e patrimonial reflete-se de igual modo na própria composição interior dos espaços do restaurante. As soluções de iluminação foram entregues a criadores portugueses, sobressaindo candeeiros concebidos a partir de vidros reaproveitados da antiga fábrica de vidros Gaivota, que operava historicamente no Chiado, assim como uma peça única desenhada por Tiago Mestre para a entrada principal. O mobiliário incorpora também artigos com percurso histórico, incluindo cadeiras provenientes do antigo Hard Rock Cafe de Lisboa, adquiridas num antiquário.
No fim de tudo, e ao assinalar oito décadas de atividade, o Tágide mantém-se como um caso singular no panorama da restauração lisboeta, onde a herança da alta cozinha e o património do Chiado cruzam hoje a gestão empresarial com a produção cerâmica artesanal.
