Com o crescente número de jogos clonados com recurso a inteligência artificial, a Anthropic começou a colocar um travão a esta tendência, limitando a utilização de um dos seus modelos mais avançados.
A Anthropic introduziu novas instruções no Claude Code, a sua ferramenta de programação com inteligência artificial, para tentar impedir que os utilizadores a utilizem para reproduzir videojogos existentes, mesmo que esses projetos sejam apresentados com outros nomes ou como produções originais.
A alteração foi identificada no final de outubro pelo utilizador Chasm, que encontrou uma nova regra interna, denominada “tengu_heron_brook”, introduzida através dos servidores da Anthropic. A instrução é bastante explícita, permitindo continuar a desenvolver jogos originais, jogos de determinados géneros ou baseados em recursos próprios, mas estabelecendo que a ferramenta não deve “criar uma reprodução de um jogo específico já existente, mesmo que tenha outro nome ou seja apresentado como original”.
Esta mudança foi entretanto confirmada por Addy Osmani, membro da equipa técnica da Anthropic, que explicou que foram acrescentadas duas frases às instruções do Claude Code com o modelo Opus 5.5, com o objetivo de impedir a utilização da ferramenta para violar direitos de propriedade intelectual. O responsável esclareceu ainda que a criação de jogos originais ou baseados em ideias e recursos dos próprios utilizadores deverá continuar a funcionar normalmente, admitindo que poderão existir situações em que a ferramenta recuse trabalhos legítimos.
Esta decisão tem particular interesse depois de vários estúdios independentes terem começado a cancelar demos e playtests públicos, precisamente por recearem que os seus jogos sejam reproduzidos com recurso a ferramentas de IA, ainda antes de chegarem ao mercado. Um dos exemplos é a Digital Sun, responsável por Moonlighter, que decidiu adiar o primeiro playtest público de ReVamp para evitar que terceiros utilizassem a versão de demonstração para criar um clone do jogo. Situações semelhantes afetaram também Drunken Goddess Reflux e Spookitchen.
O problema chegou também à Valve, que reconheceu recentemente as preocupações dos produtores com o aumento de jogos produzidos com IA na Steam, incluindo a crescente quantidade de “AI Slop” no Steam Next Fest. Durante um encontro com produtores independentes, a Valve foi confrontada até com relatos de alegadas tentativas de extorsão, em que pequenos estúdios terão recebido ameaças de que os seus jogos seriam copiados e publicados antes dos originais.
As restrições também podem afetar as recompilações de jogos?
Outra questão interessante envolve as recompilações de videojogos que começaram a surgir nos últimos meses, permitindo recuperar títulos como Fable II, Forza Horizon ou Lost Odyssey no PC, sem depender de emuladores tradicionais. Alguns destes projetos utilizam ferramentas de inteligência artificial para acelerar a conversão do código original, um processo que normalmente exige bastante trabalho de programação e engenharia inversa.
No entanto, existe uma diferença importante entre reproduzir um jogo para lançar uma cópia concorrente e recompilar o código de um título antigo para permitir que funcione noutras plataformas. Embora a nova regra do Claude Code se refira genericamente à reprodução de jogos existentes, a Anthropic ainda não esclareceu até que ponto poderá afetar projetos de preservação, recompilações ou outras modificações desenvolvidas pela comunidade.
E já começaram a surgir relatos de possíveis limitações, como indica um pedido de suporte publicado no GitHub, onde um utilizador afirma que o Claude Code passou a recusar trabalhos relacionados com a criação de módulos digitais personalizados para jogos de tabuleiro, desenvolvidos a partir de materiais fornecidos pelos próprios clientes. Embora não seja possível confirmar que todos esses trabalhos estejam legalmente autorizados, o caso demonstra as dificuldades que poderão surgir quando a ferramenta não consegue distinguir diferentes utilizações de conteúdos protegidos.
Para já, também não existem garantias de que a alteração seja suficiente para impedir a criação de clones, uma vez que se trata de instruções dadas ao modelo e não de um bloqueio técnico absoluto. A Anthropic admite que continuará a ajustar estas restrições para evitar recusas indevidas, mas ainda não confirmou se pretende aplicar regras semelhantes aos restantes modelos Claude.
