Análise – Rage 2

por David Fialho

Estrondoso, colorido, anárquico e violento. É assim que se apresenta Rage 2, a sequela do jogo id Software lançado em 2011 para a PC e consolas.

Altamente inspirado em clássicos cinematográficos pós-apocalípticos, como a série Mad Max, Rage 2 reforça essa ideia oito anos depois do seu jogo original, atualizando-se igualmente a um mundo pós-Mad Max: Fury Road. É uma aposta mais colorida, que mascara um mundo desolado por guerras e governos fascistas que tentam dominar o mundo e os seus sobreviventes depois de um armagedão.

Esta homenagem a trabalhos como o de George Miller vai tão longe que a Bethesda trocou de equipa de desenvolvimento. A id Software, responsável por êxitos como Quake e DOOM, passou a ser mera influente e espetadora do trabalho agora desenvolvido pela Avalanche Studios, conhecida pela série Just Cause e pelo jogo oficial de Mad Max.

Consigo trouxeram o seu motor de jogo proprietário, o Apex Engine, usado nos seus jogos anteriores (em vez do id Tech, usado nos shooters da Bethesda, como os recentes Wolfenstein e DOOM), com o qual a equipa produziu os seus jogos anteriores, um motor preparado para jogos de mundo aberto e para muita ação explosiva.

Uma estrada sem rumo

Quase uma década é demasiado tempo para obrigar os novos jogadores colocarem-se a par dos eventos de Rage 2. Felizmente, o jogo abre com um resumo dos eventos passados e, para o melhor e para o pior, a história do novo título não é profunda e complexa o suficiente, fazendo o mínimo dos mínimos para dar alguma motivação de progresso ao jogador.

Em Rage 2 vestimos a pele de Walker, o último Ranger deste mundo (homem ou mulher), que embarca numa aventura para deitar abaixo as novas fações emergentes e um grupo ditatorial intitulado Authority, liderado por um general biónico.

À semelhança de muitos jogos recentes, que apostam no modelo de jogos enquanto serviço, Rage 2 debruça-se mais no lore do jogo e menos na história, confundindo narrativa com construção do mundo. Textos e logs preenchem os lentos e confusos menus enquanto avançamos na história, com a progressão do jogo a focar-se em vários tipos de missões e objetivos espalhados pelo mundo aberto.

Na nossa jornada vamos conhecer três personagens importantes espalhadas pelo mapa que nos dão acesso a contratos e objetivos principais. Na prática, trata-se de uma enorme lista de objetivos de caça à cabeça de bandidos, limpeza de outposts, perseguições de comboios de veículos e, em raros casos, combates com bosses e corridas.

Sendo um modelo de mundo aberto, temos aqui um extenso mapa, com dimensões aceitáveis para um jogo contemporâneo e diverso o suficiente. Para além da típica wasteland, temos selvas, desertos arenosos e outros mais rochosos, além de zonas pantanosas. Com um ciclo dia-noite, a ambiência do jogo apresenta-se dinâmica, mas sem grandes efeitos em termos de jogabilidade.

Cada área corresponde, mais ou menos, aos distritos das personagens principais com as quais interagimos. A falta de direção do jogo reflete-se numa quantidade de pontos por explorar onde reina a repetição de zonas de combate e de edifícios, assim como objetivos, por vezes, frustrantes. Os destaques vão para pequenas cidades aparentemente desenhadas com mais cuidado, assim como alguns outposts de inimigos, devidamente decorados e ajustados às fações que os controlam.

Pé no pedal

Rage 2 conta ainda com uma série de níveis mais lineares e bem desenhados que fazem parte dos objetivos principais de história. Infelizmente, é no mapa do mundo que o jogador vai passar mais tempo.

A navegação pelo mundo de Rage 2 pode ser feita a pé, mas nada melhor do que usar os veículos que temos à nossa disposição. Rage 2 conta com grande variedade de veículos (mais do que armas), cada um com uma condução bastante diferente. Há motas, veículos voadores, carros de corrida, carros de combate, tanques, camiões e muito mais. A condução dos veículos primários, como o caso do Phoenix, que nos é oferecido no início do jogo, é, no mínimo, competente. Requer alguma habituação, mas, assim que se lhe ganha o jeito, é o nosso veículo de eleição.

É difícil descrever a experiência de condução de Rage 2 devido às diferenças de cada veículo. Em suma, os de quatro rodas são os que se conduzem melhor, ainda que, por vezes, pareça que estamos a empurrar um carro de brincar com um cabo de vassoura.

Muitas cores e pouca forma

Visualmente, Rage 2 é um jogo bastante inconsistente. A sua apresentação colorida em tons de azul, rosa e amarelo, com uma estética punk e anárquica, mistura elementos de um mundo decadente com o de um evoluído tecnologicamente. Parece ser uma mistura altamente interessante, mas infelizmente o trabalho desenvolvido pela Avalanche Studios deixa algo a desejar.

Enquanto que nos PCs e consolas premium (Xbox One X e PlayStation 4 Pro) existem maneiras de melhorar a experiência de jogo (como a possibilidade de jogar a 60fps), nas consolas base, como o caso da PlayStation 4 Slim, onde foi analisado o jogo, a fluidez e apresentação de Rage 2 deixa um gosto bastante amargo.

O jogo apresenta-se desfocado, as texturas são muitas vezes de baixíssima qualidade e alguns efeitos visuais tornam a imagem desfocada e difícil de compreender. Além disso, o jogo parece mais lento do que deveria de ser, com a fluidez a ficar-se pelos 30fps. É difícil parar e olhar para a arte do jogo e conseguir admirá-la em todo o seu esplendor, especialmente se for jogado numa televisão moderna de grandes dimensões.

Com opções bem-vindas, como a remoção de motion blur e aberração cromática ou até o ajuste de FOV, é estranha também a inexistência de um modo HDR, que, neste jogo em particular, com a arte que apresenta, poderia dar um certo brilho ao mundo de Rage 2.

O controlo no meio do caos

Felizmente, a jogabilidade é extremamente divertida, afinada e caótica. A influência da id Software faz-se sentir no modo como movemos a personagem, usamos habilidades ou de como as armas se comportam.

À medida que progredimos em Rage 2, vamos desbloqueando habilidades (ao explorar várias Arks no mapa) e evoluindo os nossos movimentos até nos tornarmos em autênticos super-soldados. Double jump, dash lateral, poderes telequinéticos e muito mais podem ser usados em combinações que podem tornar um confronto num autêntico bailado psicadélico de luzes e explosões.

O combate é, no mínimo, satisfatório e extremamente denso. Por vezes denso demais, com ações intuitivas que são acionadas acidentalmente se não nos habituarmos a todos os comandos e atalhos.

No meio do caos nem sempre somos os imortais que desejaríamos ser, pelo que teremos de usar buffs e injeções de vida à distância de um botão. O jogo permite também a produção de alguns destes elementos com recursos apanhados na exploração. Contudo, a estranha decisão de termos que usar os lentos menus do jogo, em vez do uso de atalhos na roda de armas e itens, torna os combates, por vezes, frustrantes, especialmente se estivermos em risco de perder.

Frustrante também é o áudio do jogo, que, tal como os visuais, apresenta-se pobre e inconsistente, com uma banda sonora dinâmica que não se ajusta sempre às nossas ações ou se desliga de um momento para o outro. Também é frequente existirem sons quebrados em repetição, além de ruídos estranhos e estridentes capazes de assustar qualquer um.

Paródia ou não? Eis a questão

Mas talvez a pior parte de Rage 2 seja mesmo o seu tom. A apresentação do jogo com a atitude punk é, no mínimo, embaraçosa. Apresenta-se como um jogo que quer parodiar o género, mas infelizmente acaba por querer ser levado demasiado a sério, injetando no jogo todos os clichés e problemas dos jogos mais genéricos da atualidade.

Rage 2 tem um bom sistema de combate, uma jogabilidade divertida e uma progressão extensa que irá agarrar os jogadores durante horas para brincarem com as armas e habilidades em diferentes cenários. No entanto, quase tudo o resto neste título é tecnicamente embaraçoso e limitador. Os visuais não deixam tirar partido do que o jogo tem realmente para dar e a estrutura com missões repetitivas e genéricas, sem um fio condutor ou uma visão forte, acabam por estragar a experiência.

Rage 2 está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4.

Este jogo (versão para PlayStation 4) foi cedido para análise pela Ecoplay.

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