Análise – Darkwood

por João Canelo

Apesar da popularidade do género de terror e de jogos como Resident Evil 2, que conquistaram a crítica e os fãs com o seu foco no horror e na ação, é raro encontrarmos projetos como Darkwood. Produzido pela Acid Wizard Studio, Darkwood é um jogo de terror, mas é igualmente uma viagem tensa e surreal por lendas polacas, onde a sensibilidade do leste da Europa é palpável desde o seu design até à forma como desenrola o seu horror. Darkwood é estranho, arrepiante e um dos melhores jogos deste ano.

É difícil falar em Darkwood sem estragar algumas das suas surpresas, mas iremos fazer o nosso melhor. Como um jogo de terror, Darkwood é um jogo mais assente na exploração e na sobrevivência, com a jogabilidade a focar-se na descoberta de novos locais e na recolha de recursos para a construção de novos itens e para a troca com outros sobreviventes.

O jogo coloca-nos numa floresta, onde as raízes cobrem tudo à nossa volta, e com um objetivo muito claro e direto: sobreviver e fugir. Para tal, teremos de explorar, lutar e compreender, através das sequências mais surreais, os mistérios por detrás da floresta e a verdadeira natureza da nossa estranha e peculiar personagem. É um título assustador e não precisa de sustos fáceis para nos manter tensos.

Existe uma estranheza e um foco na peculiaridade que transforma a sua campanha numa viagem inesperada, onde somos confrontados por imagens fortes e por cenários que, à primeira vista, podem ser incompreensíveis devido ao seu horror. A jogabilidade é um pouco lenta e existe uma barra de stamina que limita a corrida da nossa personagem, algo que nos desafia ao longo da campanha, e com a perspetiva de cima para baixo e com uma visão limita, onde só conseguimos ver o que está à nossa frente. Darkwood mantém-nos numa tensão constante onde não sabemos o que nos espera no interior de uma das casas abandonadas ou nas três zonas da floresta que podemos explorar.

DarkwoodA história mantém esta aposta no surrealismo e injeta-lhe ainda uma aura de desconforto através de trupes que costumamos vemos em fábulas ou em histórias de encantar. As descrições são meticulosas e superam qualquer interpretação feita por atores, que Darkwood, muito pela sua produção independente, rejeita, focando-se unicamente em diálogos escritos e em notas que podemos recolher pelos locais.

O jogo dá-nos ainda um leque interessante de personagens que complementam o seu ambiente ao criar um mundo opressivo e à beira do fim, onde o real e o irreal se misturam. As ilustrações, muito detalhadas e em tons de pretos e branco, são o nosso único contato com o mundo do jogo e deixam-nos ver as suas personagens de perto. Esta simplicidade na apresentação dá um tom ainda mais pessoal a Darkwood e cria uma neblina psicológica que é agravada por sequências de sonho e por manipulações visuais onde nos deparamos com cenários onde nada é o que parece.

A tensão mantém-se na jogabilidade e na exploração, com Darkwood a dar-nos um mapa repleto de locais para descobrirmos e com itens para recolhermos. Apesar de não seguir uma estrutura convencional, apostando mais em puzzles visuais e evitando a linearidade do género, Darkwood deixa-nos explorar e descobrir o seu mundo sem nunca perder o fio condutor da narrrativa. A jogabilidade é lenta e o combate é muito ponderado e pausado, restrito pela barra de stamina, mas está construído de forma a encontrarmos algo novo a um ritmo impressionante e a criar um mistério suficientemente palpável para nos motivar a seguir em frente.

É, no entanto, um jogo muito difícil e implacável, e será totalmente normal sentirem-se desorientados e perdidos na floresta durante as primeiras horas. Desde que não comentam riscos desnecessários e prestem atenção ao que está à vossa volta, irão conseguir chegar ao fim.

DarkwoodDarkwood não é inovador no que toca às suas mecânicas, mas consegue equilibrar todos os seus elementos sem desvirtuar o seu ambiente e foco no horror. Para além da sobrevivência, ainda que não precisemos de nos alimentar, podemos construir novos itens e melhorar os nossos equipamentos, como o espaço do inventário. É possível ainda reforçar as habitações e tapar janelas e portas, algo que se torna imprescindível durante as noites.

Por fim, temos a evolução da personagem. Através da preparação de cogumelos e de outros alimentos, podemos criar seringas, e não comida, que nos dão acesso a novas habilidades. Esta preparação é feita no fogão da nossa casa e sempre que tivermos uma seringa cheia, somos transportados para um menu onde podemos escolher uma habilidade positiva, como a possibilidade de sabermos onde estamos no mapa ou vermos mais além, mas também um efeito negativo que limita a nossa personagem. Pode parecer cruel, mas é uma aposta eficaz e que complementa o mundo do jogo.

Apesar do seu foco na exploração, Darkwood divide a sua ação em duas partes – dia e noite. Este ciclo temporal determina a aposta na sobrevivência, com os dias a serem dedicados à recolha de itens e ao avanço da história, e com a noite a obrigar-nos a encontrar abrigo e a fugirmos da escuridão. Durante a noite, não podemos (ou não devemos) sair e explorar, e é absolutamente necessário manter uma fonte de luz sempre ligada para termos alguma proteção.

O mundo de Darkwood transforma-se à noite e é ainda mais perigoso, com alguns dos momentos mais tensos e assustadores a acontecerem durante estas horas. A nossa casa pode ainda ser invadida por inimigos que teremos de eliminar, mas a verdadeira tensão está nos acontecimentos paranormais, onde veremos portas a abrirem sozinhas e cadeiras a deslocarem-se. Ao sentir-mo-nos presos dentro de casa, estes momentos são exponenciados e iremos temer cada vez que o sol cai.

Nada disto seria possível sem o excelente trabalho de som, a cargo de Artur Kordas. Com a visão limitada, que nós achamos ser perfeita para o jogo, é essencial estarmos atentos aos sons que nos rodeiam para compreendermos que perigos poderemos encontrar. A ação é pontuada pela banda sonora, que nos dá um foco interessante em músicas com tons mais graves e em drones, onde a descoberta de novos locais ou a chegada de um perigo iminente dão origem a uma destas composições aterradoras.

DarkwoodMas no geral, Darkwood foca-se mais no seu ambiente e na construção deste mundo surreal onde o desenho de som parece transmitir-nos a sensação de nojo, de algo pegajoso e nefasto – um pouco como a série Silent Hill.

Darkwood não é um jogo para todos – e ainda bem. Como jogo de terror e sobrevivência, é uma das experiências mais tensas e assustadoras que já encontrámos e um título que merece ser devidamente explorado por todos os fãs do género. Darkwood é diferente e único, algo que se torna claro quando exploramos a sua floresta e descobrimos os segredos por detrás da sua história. Há aqui uma alma muito europeia, um desespero e uma aceitação da morte que só podemos ver em produções mais a leste, dando-nos um olhar sobre um mercado cujos criativos têm muito para oferecer. Não o deixem escapar.

Este jogo (versão para PlayStation 4) foi cedido para análise pela Crunching Koalas.

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