Análise – Resident Evil 2

por David Fialho

Nos últimos anos temos recebido fantásticas conversões de jogos antigos para plataformas mais modernas. A linha entre a remasterização e o remake é, por vezes, difícil de distinguir, quando alguns jogos, apesar de serem reconstruídos de raiz, se mantêm fieis na direção artística e nas mecânicas que apresentam.

Para além das razões mais óbvias – consumistas e revivalistas -, estes relançamentos são uma oportunidade de apresentar clássicos a novas audiências e, por vezes, expandir ideias e conceitos que, na altura, pareciam limitados às capacidades técnicas das máquinas.

Este ano, a Capcom lança Resident Evil 2, num remake que é, provavelmente, o melhor exemplo a seguir neste tipo de adaptações.

Lançado originalmente em 1998, Resident Evil 2 marcou toda uma geração de jogadores que cresceu com a explosão dos jogos gráficos em 3D. O jogo de horror, que era uma sequela de um primeiro jogo já de grande sucesso, não só se apresentou como um jogo original, funcionando na perfeição como uma história isolada, como aproveitava para expandir o mundo de Resident Evil e explorar novas maneiras de jogar.

Talvez seja o seu estatuto de culto e adoração e a sua aventura contida, com início, meio e fim, que tenha sido a razão para a Capcom escolher Resident Evil 2 para o grande passo da série, porque, apesar de ser “apenas” um remake, é, na verdade, um jogo completamente novo.

Resident Evil 2 coloca-nos na pele de Leon ou Claire, oferecendo aos jogadores uma aventura que, para ser consumida ao máximo, requer que o jogo seja jogado quatro vezes.

Não há propriamente uma ordem de onde começar ou acabar. Somos convidados a testemunhar o outbreak de zombie em Raccoon City pela perspetiva de Leon ou Claire pela ordem que quisermos, resultando em experiências consideravelmente diferentes, uma vez que cada um tem a sua versão dos acontecimentos, com caminhos alternativos, puzzles diferentes e personagens novas para interagir.

Por outro lado, há ainda a opção de trocar as histórias e as personagens, algo que, ao adicionarmos todos os segredos e itens para apanhar, dão ao jogo uma longevidade incrível.

Apesar de cada história/cenário individual poder ser feita em apenas seis a oito horas, Resident Evil 2 não dá muito descanso aos jogadores. A cada esquina há um puzzle ou um monstro que nos persegue, criando tensão e a sensação que cada 10 minutos parecem uma hora.

Depois de um experimental Resident Evil 7 na primeira pessoa, Resident Evil 2 também se apresenta de uma forma bastante diferente do original, trocando os cenários e câmaras estáticas por uma experiência imersiva na terceira pessoa, introduzida por outra das melhores entradas da série, Resident Evil 4. De alguma forma, este novo-velho capítulo é mais do que um remake, é uma remistura de conceitos de jogo e mecânicas, afinadas numa experiência cheia de adrenalina e sustos, mas menos frustrações.

Resident Evil 2 é difícil se o jogador assim o preferir. Com três níveis de dificuldade, o jogo incentiva-nos a puxar pelas nossas capacidades, ou seja, mesmo no modo mais fácil nunca vamos estar completamente seguros. Os recursos espalhados pelo jogo são contados à unha e um item descartado para dar espaço a outro pode ser sinónimo de Game Over.

Todas as balas contam, todas as chaves são importantes e, quando menos esperamos, vamos mesmo ter que usar aquela arma especial que andou connosco o tempo todo, como um lança granadas ou uma metrelhadora.

Apesar do design livre, que permite a exploração dos cenários entre salas e corredores, escondendo caminhos secretos e outros atalhos, Resident Evil 2 é, de alguma forma, um jogo linear, que conta com puzzles intuitivos e que puxam pela capacidade de observação do jogador ao ler todos os documentos e elementos dos ambientes para ultrapassar alguns desafios, ou seguir para o objetivo seguinte. Resident Evil 2 é um survival horror no seu estado mais puro ao obrigar-nos a puxar pela cabeça durante todo o tempo.

Visualmente, Resident Evil 2 quer ser dos melhores jogos que existem no mercado. Por vezes consegue, mas outras vezes deixa um pouco a desejar. O seu aspeto fotorrealista apresenta-nos cenários e situações que nem um filme conseguiria fazer melhor. Os ambientes parecem autênticos, as personagens reais, as animações dos zombies e monstros são legitimamente aterrorizantes e o tom assustador do jogo está absolutamente no ponto.

Menos bom é o desempenho do jogo, em particular nas consolas, onde não existe uma opção de trancar a fluidez do jogo que flutua bastante. Ainda que a fluidez seja bem acima do aceitável, esta inconsistência salta à vista, especialmente em cenas com mais ação.

Outro pequeno pormenor que se faz realçar mais do que devia são os reflexos em algumas superfícies mais brilhantes e espelhadas, que aparecem desfocadas e mal aplicadas, algo que retira a imersão de alguns momentos mais calmos, em particular se quisermos observar o ambiente à nossa volta.

O efeito de “remistura” de Resident Evil 2 também se faz sentir na história. Quem nunca jogou não vai sentir isto, mas quem é fã vai encontrar momentos bem diferentes daquilo que se lembrava na sua infância, com a adição de novos momentos e a remoção de outros, em particular da forma como alguns ocorrem.

No entanto, é impossível não apontar que Resident Evil 2 é um produto do seu tempo, com uma história superficialmente simples que justifica a a existência do jogo, mas profunda para a construção do mundo em que se insere. A simplicidade da escrita é notória nas relações entre as personagens que encontramos e nas suas motivações que, contextualmente, parecem exageradas e difíceis de levar a sério, muito ao estilo de um filme de série B.

Mas o melhor fica sempre para o fim e Resident Evil 2 convida o jogador a continuar investido neste mundo. Não só pelas novas aventuras em que pode embarcar, mas pelos modos que se desbloqueiam e pelos elementos estéticos que podemos usar (como novas fatiotas), numa filosofia muito semelhante aos jogos de outra era.

Resident Evil 2 é um excelente remake e um exemplo a seguir. Uma adaptação que não se fica só pela reconstrução visual de um jogo antigo, mas que vai mais além, oferecendo novas formas de jogar e desafios que satisfazem não só o novo público, como os grandes fãs da franquia.

Resident Evil 2 é um jogo a não perder e pode ser jogado na PlayStation 4, Xbox One e PC.

Este jogo foi cedido para análise pela Ecoplay.

Deixar uma resposta

Também pode interessar

O Echo Boomer utiliza cookies para dar a melhor experiência possível aos nossos leitores. Aceitar Ler mais

%d bloggers like this: