Análise – Curse of the Dead Gods (PlayStation 4)

Explorem as ruínas amaldiçoadas de um roguelite que vem apetrechado de clichés, mas também de elementos que o tornam especial.

Curse of the Dead Gods
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Depois de um ano repleto de novidades, é normal sentirmos um certo cansaço e uma verdadeira necessidade em parar e esperar. Com os adiamentos sucessivos, causados pela atual pandemia – que teima em não desaparecer –, 2021 teve, ao contrário de 2020, um início muito mais seguro e espaçado no que toca a lançamentos de peso. No entanto, temos de ver o copo meio cheio, sendo que se criou o cenário ideal para os estúdios independentes e para as suas produções de baixo orçamento que, noutro cenário, poderiam ficar perdidos entre lançamentos de séries populares. Assim é o caso de Curse of the Dead Gods, um interessante roguelite de ação que é tão seguro como diferente o suficiente para agarrar a vossa atenção.

Foquemo-nos nas novidades. Por esta altura, e com o lançamento sucessivo de novos jogos, vocês já conhecem o género roguelike como a palma da vossa mão, que vive, surpreendentemente, tempos de notoriedade há muito merecidos. Mas fica aqui o resumo: Curse of the Dead Gods traz-vos uma campanha com níveis aleatórios, onde a progressão é construída em torno do recomeço constante de uma partida. Quando terminam uma partida ou são derrotados em combate, regressam ao início. Esta é a base para um género que se tem reinventado ao longo dos últimos anos, criando experiências mais acessíveis, como Hades, e um maior carinho pelo público geral. Mas o título da Passtech Games ambicionou adicionar algo diferente à fórmula clássica, munindo-se de uma estrutura de progressão pouco inovadora – seguindo um modelo próximo do que viram em Slay the Spire, com vários caminhos e salas que podem escolher até chegarem ao guardião de cada nível –, mas apostando num combate mais ponderado e numa evolução passiva mais eficaz.

Tal como o nome indica, a nossa personagem está amaldiçoada pelos titulares deuses falecidos, criando assim a mecânica principal do jogo. Ao viajarmos entre níveis ou ao sermos atacados por certos inimigos, aumentamos o nível da nossa maldição e ativamos habilidades passivas que podem ser tão positivas, como destrutivas. Com um total de cinco maldições por nível, podemos ficar condicionados em combate, perder parte da visão – algo que se torna assustador nesta perspetiva top-down – ou a habilidade de iluminar as salas que, consequentemente, aumenta o poder dos inimigos à nossa volta.

Curse of the Dead Gods

Nunca sabemos o que nos vai calhar e se, nos níveis, mais avançados temos a possibilidade de eliminar uma destas maldições, a verdade é que será muito difícil de chegarmos ao adversário principal sem termos ativado todas as desvantagens possíveis. Cria-se, assim, uma verdadeira corrida contra o tempo, uma tensão permanente que nos faz pensar quando e como devemos usufruir de novas armas ou aumentar os nossos atributos (num sistema que me relembrou Dead Cells, divididos por força, destreza e perceção).

E tudo isto funciona devido ao equilíbrio que existe entre as vantagens e desvantagens das armas e das maldições, juntamente com a sua aleatoriedade. Nunca me senti prejudicado devido à falta de alternativas em jogo, antes pelo contrário. Existem armas e relíquias suficientes para combatermos os efeitos das maldições, criando também uma excelente sensação de estratégia que se mantém especialmente viva nos últimos níveis.

Por exemplo, imaginem que estão condicionados no que toca aos ataques à distância. Podem combater esta falha ao apostar num chicote com propriedades elétricas e ao recolher relíquias que aumentam o poder dos ataques elétricos, criando, desta forma, uma sucessão de golpes de meia distância imparáveis – foi assim, contra todas as adversidades, que destruí por completo um dos bosses. Para ajudar, Curse of the Dead Gods é um jogo sistémico, no sentido em que podem combinar vários atributos para criar novos efeitos, como nuvens de gás que podem ser incendiadas ou armadilhas que podem ser ativadas para destruírem grupos de inimigos.

A utilização da luz também é um destaque e funciona não só em combate, como na própria exploração. Os níveis são escuros, muitas vezes não conseguimos ver sequer o que está à nossa frente, mas ao iluminarmos as salas, através de altares ou fogueiras (ou até os inimigos), afastamos a escuridão e conseguimos lutar mais eficazmente. Mas existem outras vantagens. Na luz, a nossa personagem é mais poderosa, os ataques têm mais hipóteses de infligir dano adicional e os inimigos ficam condicionados e mais fracos sempre que abandonam a escuridão dos cenários.

curse of the dead gods review echo boomer 3

É simples e uma mecânica pouco ou nada original, mas representa muito bem o conceito do jogo e da demanda do nosso protagonista nestas ruínas abandonadas, funcionando de forma equilibrada com o sistema de energia que a Passtech Games decidiu implementar. Talvez seja por essa razão que comparam Curse of the Dead Gods a Dark Souls, apenas por esta mecânica de stamina – representada por vários cristais na UI –, mas não existem dúvidas que funciona em combate e que dá ao jogo um ritmo mais ponderado e estratégico, no sentido em que a energia não é só influenciada pelos ataques normais, o desvio e o “parry” – que, no momento certo, atordoa os inimigos –, mas também pelos ataques à distância, funcionando quase como balas.

No que toca à progressão, Curse of the Dead Gods aproxima-se muito mais de uma experiência light do género. Não existe um sistema de evolução por níveis, mas podem comprar novas armas, habilidades e atributos que encontrarão espalhados pelo templo, aumentando, assim, as probabilidades de chegarem mais longe. Também é possível influenciar os favores dos deuses, aumentar a vossa sorte e melhorar as armas com que começam todas as partidas. Já a campanha em si é dividida por várias zonas, todas elas com um boss final e divididas por níveis progressivamente mais desafiantes. É uma pena, no entanto, que o cansaço se instale rapidamente e que as batalhas contra os bosses sejam, pela minha experiência, o elemento mais acessível do jogo, bastando uma boa preparação e alguma destreza para os obliterar.

Curse of the Dead Gods é um roguelite muito interessante cuja longevidade não é, ao contrário de outros jogos do género, o seu maior ponto de venda, mas sim os momentos de combate e de exploração. É normal que se cansem, as novidades rapidamente se esgotam, mas as primeiras horas foram muito empolgantes pela combinação entre as maldições, a escuridão e a aposta sistémica em elementos que adicionam novas camadas ao combate. Não é um passo evolucionário para o género, mas é um excelente companheiro para este início de ano.

Nota: Muito Bom

Disponível para: PC, PlayStation 4, PlayStation 5 e Nintendo Switch
Jogado na PlayStation 4
Cópia para análise cedida pela Ecoplay

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