Análise – A Plague Tale: Innocence

por David Fialho

Ao longo do ano, alguns dos jogos mais interessantes são aqueles que surgem quando menos esperamo. Produções mais contidas, com experiências lineares e produções mais equilibradas, mas sem o brilho e explosões de estúdios que teimam em apostar em jogos explosivos com modos multijogadores que prometem décadas de divertimento em troco de passes e fatos para os nossos personagens.

No ano passado, a Focus Home Interactive trouxe-nos um desses exemplos, com Vampyr, da DontNod Entertainment, da fama de jogos como Life is Strange. Já este ano somos presenteados com uma pérola chamada A Plague Tale: Innocence, um jogo original da também francesa Asobo Studio, estúdio maioritariamente dedicado ao suporte e conversões de jogos para diferentes plataformas, mas que aqui se revela capaz de criar uma experiência bastante singular e cheia de alma e emoções fortes.

Inspirada naquela que foi uma das pandemias mais devastadoras da história da humanidade, A Plague Tale: Innocence leva-nos até uma França medieval, desolada pela peste negra e pelas forças da Inquisição.

Neste jogo inteiramente dedicado à narrativa (conta apenas com um modo de história), somos apresentados à jovem Amicia e ao seu jovem irmão Hugo, que se encontra doente e procura urgentemente uma cura para a sua maleita. Perseguidos pela Inquisição que quer à força toda capturar o pequeno Hugo, os irmãos partem numa jornada perigosa à procura de segurança e respostas.

Este é um título narrativo de aventura num cenário medieval, assente em regras realistas e eventos históricos que marcaram a época. Aqui, porém, a Asobo tenta explorar este mundo ao injetar um pequeno elemento sobrenatural aos eventos do jogo, aumentando as possibilidades não só narrativas, ao ter liberdade de criar as suas próprias regras e elementos do mundo, como também criar mecânicas de jogo através da progressão da personagem, as suas ações e eventuais puzzles e desafios.

Uma das mecânicas mais interessantes de A Plague Tale: Innocence gira em volta do terror da pandemia que se alastra com a mordidela de ratos. A presença dos ratos neste jogo funciona um pouco como as hordas de zombies em Days Gone, com uma apresentação aterrorizante que consome tudo o que encontra pela frente. É uma interação semelhante à que encontramos em jogos como Alan Wake, onde a luz, neste caso o fogo, afasta estas unidades de roedores e abre espaço para a resolução de puzzles, algo que nos abre caminho para chegar ao final do nível.

Estes puzzles e obstáculos são, na sua maioria, resolvidos a solo, mas consoante a história, vamos ter a ajuda de Hugo e outros elementos do elenco secundário com os quais podemos interagir para ativar ações em sincronia ou à distância.

Os puzzles contam com soluções simples, mas satisfatórias, ajudando a manter o ritmo da história que se prolonga ao longo de 17 capítulos que contam com alguma exploração graças aos níveis lineares, mas com espaço e itens para colecionar, além de segmentos de ação furtiva também devidamente desenhados para serem ultrapasados de várias maneiras.

Apesar de ser uma experiência a solo, a quantidade de elementos que requer a utilização de uma personagem secundária é imensa. Seria interessante saber como este jogo resultaria com um modo cooperativo, até porque também existem vários momentos de tensão.

A história de A Plague Tale: Innocence é relativamente simples, mas cheia de emoções, muito graças à dinâmica entre os dois irmãos e aos riscos de se aventurarem neste mundo enquanto são perseguidos e fogem da peste negra. Ao longo do jogo, podemos assistir ao progresso da sua relação, que é cada vez mais emocional, à medida que Amicia teme pela perda do seu irmão devido à doença que acarreta.

Sem escolha de diálogos ou elementos que possam alterar o rumo da história, A Plague Tale: Innocence é um jogo que beneficia imenso de ser jogado um pouco às escuras, sem saber mesmo nada do que vem a seguir, com momentos de tensão a serem eficazes com as nossas ações quase instintivas a ataques de inimigos e aos momentos de fuga dinâmicos.

A Plague Tale: Innocence conta com alguns momentos de luta e confronto direto com inimigos, nomeadamente soldados e populares. Mas este não é o foco do jogo, e A Plague Tale: Innocence tenta ao máximo fazer-nos quase sentir mal por matar uma personagem. Por vezes, é um mal necessário, e, por essas razões, alguns dos segmentos tornam-se estranhamente pesados, algo que noutro jogo mais tradicional seria algo banal, pois sentimos o remorso das nossas ações na pele de Amicia.

A apresentação de A Plague Tale: Innocence é sólida e, por vezes, impressionante, com visuais com tons fílmicos, com uma palete que muda consoante os variados ambientes da nossa jornada. Os níveis coloridos são belos e vibrantes e os mais negros conseguem dar-nos arrepios e alguma ansiedade, em particular catacumbas e ruinas em períodos noturnos.

As animações são variadas e contextuais às ações da personagem e, em conjunto com os visuais quase livres de informação no ecrã, tornam a experiência imersiva e cinemática.

A cereja no topo do bolo é a música. Ao longo do jogo, temos uma bela banda sonora – negra, triste e emocional, com muitas cordas e melodias características de outras obras de ficção da época. Familiar, simples e muito eficaz, ajuda-nos a estabelecer muito bem o tom de todas as cenas.

Contudo, as animações faciais são, por vezes, um pouco rígidas e artificiais, e eventuais problemas de sincronização em movimentos rápidos (em particular na PlayStation 4 Slim) relembram-nos que estamos perante um jogo.

Sendo um jogo inteiramente dedicado à história, seria interessante ter também um lançamento mais eficaz a nível emocional. A Plague Tale: Innocence tem um bom lançamento, mas sente-se um pouco abrupto para os novos jogadores, além de que, numa primeira impressão, não deixa estabelecer uma relação imediata com os dois protagonistas.

Felizmente, a jornada é longa e cheia de interações fantásticas, das mais adoráveis e deliciosas às mais tristes e aterrorizantes.

A Plague Tale: Innocence não esconde a sua violência, mas utiliza-a de uma forma contida e quase elegante, não mostrando, ou evitando ser gratuita, sempre que há essa oportunidade.

Como um filme de época ou um livro de ficção e fantasia mais obscuro, A Plague Tale: Innocence é uma autêntica pérola. Uma experiência singular que merece ser experimentada por todos os jogadores que gostam de algo mais linear, mas também recheado de história, personagens e mecânicas de jogo satisfatórias que nos “obrigam” a jogar só mais um nível.

A Plague Tale: Innocence já está disponível para PC, Xbox One e PlayStation 4.

Este jogo (versão para PlayStation 4) foi cedido para análise pela Ecoplay.

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