Análise – Vampyr

por David Fialho

Vampyr é o mais recente jogo da Dontnod Entertainment, a criadora de jogos como Remember Me e o original Life Is Strange.

Neste novo projeto, a produtora francesa aposta num jogo que adiciona ao elemento narrativo a exploração e ação.

Vampyr é um jogo na terceira pessoa que nos leva até uma cidade de Londres no início do século, devastada pela Primeira Grande Guerra e pela gripe espanhola. Para tornar tudo ainda mais negro e perigoso, há a existência de vampiros, como o nosso personagem principal, Jonathan Reid.

Vampyr é uma espécie de história de origem de um super-herói. E esta é uma sensação que nos é dada tanto de início como à medida que vamos avançando na história.

Reid é um cirurgião que foi para a guerra e que se confronta com a perda da sua família quando regressa a Londres e é misteriosamente transformado num vampiro. Confuso e perdido com tudo o que se passa, o sentimento de culpa e de angústia apodera-se dele, assim como o de responsabilidade em ajudar aqueles que mais necessitam, os cidadãos da sua cidade a sucumbirem à febre espanhola e ao medo das ameaças sobrenaturais.

Um dos aspetos mais interessantes de Vampyr é o modo como o jogo nos coloca no lugar da personagem principal. Durante o jogo, todas as personagens secundárias são extremamente completas e complexas, com diferentes personalidades e histórias para contar, que se aproveitam da nossa boa vontade para nos dar missões secundárias, que se dividem em limpar áreas, encontrar itens, fazer pazes com outras personagens ou arranjar curas para as suas maleitas. No fundo, o típico de um jogo RPG.

Mas o que torna este jogo diferente dos tradicionais é a urgência e o controlo que temos sob estas personagens. Sendo Reid um vampiro que precisa de sangue humano, o jogo coloca-nos numa situação em que podemos alimentarmo-nos destas personagens para tornar a nossa mais forte e apta para desafios futuros. Claro, existem diversas consequências, que são o término destas histórias secundárias – a destabilização social numa das regiões do mapa e, obviamente, um pesar da nossa consciência.

E Vampyr não nos esconde esta tentação em “morder pescoços”. Durante diversas cinemáticas, o jogo mostra-nos Reid a ficar cada vez mais descontrolado, ou, então, os encontros com inimigos apresentam-se substancialmente mais difíceis de ultrapassar.

As escolhas neste jogo não se ficam só por aqui. Tal como outros jogos, temos ao nosso dispor um círculo de diálogo com conversas por desbloquear através das nossas ações. Ao longo do jogo, vamos tendo novas conversas que vão depender do cumprimento de objetivos ou até do nosso progresso pessoal enquanto vampiros, dando-nos a sensação que raramente conseguimos ter todas as conversas possíveis com uma determinada personagem.

Visualmente, Vampyr apresenta uma atmosfera excelente. Esta Londres de 1918, apesar de não ser grande como a maioria dos jogos de mundo aberto, é bastante densa. E o facto de andarmos a pé, em vez de veículos, dá-nos a sensação de um mapa com dimensões aceitáveis.

As ruas são estreitas e claustrofóbicas, estão ricas em detalhes e parece que escondem perigos a cada esquina. Isto é acentuado pela noite constante com diferentes condições atmosféricas que apresentam nevoeiro e chuva.

A cidade está ainda dividida por diferentes distritos para explorar, bastante distintos entre si, desde zonas bem cuidadas e limpas, a partes mais decadentes e de aspeto duvidoso.

Temos ainda imensos atalhos por abrir, túneis e esgotos para explorar, com missões que nos obrigam a dar “uma volta maior” para conseguirmos ter acesso a áreas que uma simples exploração não nos daria.

A jogabilidade de Vampyr é relativamente simples, muito semelhante até a jogos como The Witcher, com dois botões de ataque e diferentes ações para acionar poderes.

O combate é fácil o quanto basta, com um ritmo pausado o suficiente para conseguirmos dar a atenção necessária a cada inimigo. Teremos que ter atenção à nossa barra de stamina, e à barra de sangue, por vezes com mais cuidado do que a de vida, pois são estas que nos permitem fazer alguns dos ataques finais.

Conosco teremos sempre diversos tipos de armas, desde bastões, a espadas, pistolas ou caçadeiras, com diferentes efeitos nos inimigos, dependendo do tipo de jogo que queremos por em prática.

A dificuldade do jogo depende em parte do nosso progresso e da escolha de nos querermos manter um vampiro bom ou mau, sendo que perde algum efeito se formos limpando as ruas por onde passamos de modo a ganhar experiência para melhorar a nossa personagem. E muitas voltas são necessárias, pois os requisitos para subir níveis são bem elevados.

A diversidade de inimigos é interessante e variam entre humanos, monstros, lobisomens e outros vampiros. O destaque vai para as batalhas de bosses, que, apesar de poucos, apresentam desafios que colocam em causa a nossa estratégia e sentimento de progressão. Contudo, podem ser um pouco frustrantes por acusarem pouco dano.

Menos positivas são as animações, especialmente a nível das conversas, e, por vezes, no movimento da nossa personagem.

Vampyr apresenta um sistema de diálogo algo datado, com animações simples e modelos pouco trabalhados, ainda que se insiram no registo visual do jogo. Neste departament,o o jogo pode-nos retirar do sério, com movimentos faciais simplistas e uma câmara estranha e aborrecida.

Controlar Reid pode, no início, ser também esquisito, parecendo que desliza pelo chão. Mas felizmente é algo que ao longo do jogo deixa de ser tão notório.

Vampyr não é um jogo muito ambicioso. É contido no seu conceito e nos seus valores de produção, que se encontram entre jogos AAA e jogos independentes. É bastante diferente do que o estúdio já fez para trás. No entanto, há uma sensação de estarmos perante um jogo especial e um início de uma franquia interessante, que, elevando o que Vampyr tem de bom, é capaz de algo espetacular.

Vampyr está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One.

Este jogo foi cedido para análise pela Ecoplay.


 

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