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Crítica – An American Pickle

An American Pickle tem uma premissa ridícula e conta com Seth Rogen em dose dupla que lhe dá algum valor.

An American Pickle

Sinopse: “Seth Rogen interpreta Herschel Greenbaum, um trabalhador em dificuldades que imigra para a América em 1920 com o sonho de construir uma vida melhor para a sua amada família. Um dia, enquanto trabalhava na fábrica, cai num tanque de picles e fica preso durante 100 anos. A salmoura preserva-o perfeitamente e quando emerge em Brooklyn de 2020, descobre que não envelheceu um único dia. Mas quando vai à procura da sua família, fica preocupado em saber que o seu único parente é o seu bisneto, Ben Greenbaum (também representado por Rogen), um programador informático educado que Herschel nem consegue começar a entender.”

A HBO Max (não disponível em Portugal) chegou ao mercado para se tornar mais uma prova de como o streaming tem sido vital para novos cineastas e argumentistas por todo o mundo. An American Pickle é o primeiro filme original lançado pelo respetivo serviço (por cá está disponível na HBO Portugal) e oferece oportunidades a Brandon Trost (estreia na realização a solo) e Simon Rich (estreia no argumento de uma longa-metragem) de demonstrarem os seus talentos. Apesar da minha curiosidade sobre o que estes podem oferecer, os meus olhos estavam obviamente focados na prestação dupla de Seth Rogen. Estando longe de ser dos melhores atores atuais, apreciei sempre os seus papéis mais cómicos, principalmente nos mais recentes Long Shot e The Lion King. Com uma premissa com enorme potencial para gerar umas gargalhadas incríveis, como se comportou An American Pickle?

Bom, estou surpreendido com a abordagem grounded e “realista” de Trost e Rich. Nos primeiros 20 minutos, tudo aponta para uma história ridícula onde as coisas mais absurdas ocorrem. Basicamente, adoro tudo até ao aparecimento do título do filme mais alguns minutos. Os objetivos de vida de Herschel, a sua relação amorosa, os eventos que o levam a ficar preso por um século, a justificação “científica” (tecnicamente brilhante) que dão aos espetadores depois de descobrirem que está vivo e que não envelheceu um dia… Tudo maluquices, mas o que esperar de uma premissa louca por si só?

Nunca se esqueçam: ter expetativas erradas (irrealistas, exageradas, sem sentido) pode rapidamente transformar a vossa experiência num pesadelo. An American Pickle tem uma narrativa absurda porque desenvolve um conceito absurdo. É exatamente isso que é tão incrivelmente cativante e divertido: as possibilidades são infinitas, desde que as pessoas que estejam ao leme sejam criativas o suficiente. É também aqui que me sinto um pouco desiludido, principalmente com Rich, que não consegue levar esta história ainda mais longe, tanto em termos de personagem como da própria narrativa. Na verdade, assim que os créditos finais começaram a rolar, o meu primeiro pensamento foi “já acabou?”

Durante todo o tempo de execução, os espetadores têm que lidar com apenas duas personagens que não são profundamente exploradas. Herschel é um homem fora do seu tempo, mas, com a sua determinação impressionante e personalidade trabalhadora, parece conseguir superar todos os desafios que lhe colocam à frente. Por outro lado, Ben tem dificuldades em colocar o seu produto/ideia no mercado, mas não parece ter a mesma vontade do seu bisavô. Assim, toda a narrativa entra num ciclo em que Herschel executa as suas ideias com sucesso e um Ben invejoso tenta prejudicar o seu parente. Cada reiteração torna-se menos engraçada, menos divertida e menos plausível (aceito a maioria dos pontos de enredo, mas alguns são, de facto, demasiado exagerados para o mundo em que se encontram).

An American Pickle

Obviamente, a componente cómica está praticamente ligada por inteiro a Herschel e, como esperado, ao seu conhecimento cultural datado. É uma questão de tempo até Herschel dizer algo que não deve, principalmente afirmações relacionadas com as suas opiniões sobre religião, racismo e todos os assuntos sensíveis que possam imaginar. Alguns espetadores podem até ofender-se com algumas piadas, que são precisamente as que mais me fizeram rir.

Infelizmente, o argumento de Rich não tem a imaginação que uma premissa destas exige (demasiado focado em estereótipos e piadas fáceis), mas, tendo em conta que este é o seu primeiro crédito enquanto argumentista de uma longa-metragem, é um bom começo. Trost faz um trabalho decente, especialmente quando se trata de filmar duas personagens interpretadas pelo mesmo ator (técnica aparentemente simples de executar, mas que requer imensa atenção ao mais ínfimo detalhe), logo não me importaria de os ver a trabalhar juntos novamente.

No entanto, tudo se resume ao desempenho duplo de Rogen, o qual eleva o filme de forma subtil. Rogen é a principal razão pela qual estou a escrever uma crítica positiva. É capaz de incorporar estas personagens de uma maneira tão convincente que, em determinados momentos, pensei genuinamente que o filme era escrito e realizado por ele próprio. Parece um projeto pessoal, algo que posso facilmente imaginar como um filme de Seth Rogen. É hilariante quando precisa de o ser e extremamente sério quando a história requer.

Em último caso, não vejo este filme como uma comédia pois, ultimamente, nem o considero como tal. É estranhamente uma história doce sobre família e as razões pelas quais esta tanto significa para todos nós.

Resumindo, An American Pickle adota surpreendentemente uma abordagem bastante grounded ao conceito “homem fora do seu tempo”, concentrando a sua mensagem no tema “família”, mesmo que a sua premissa seja absolutamente absurda.

O primeiro ato prepara uma história logicamente ridícula, mas hilariante, e que, infelizmente, não atinge o seu potencial. Os estreantes Brandon Trost e Simon Rich fazem um trabalho razoável com a narrativa, mas Rich podia ter explorado um pouco mais as personagens principais, tendo que agradecer a Seth Rogen por uma prestação dupla fantástica. O tipo de humor presente no filme não vai agradar a todos, mas funcionou para mim, mesmo que tenha perdido força ao longo do tempo de execução. A comédia está no seu melhor quando aborda as barreiras culturais fixadas na mente de Herschel.

É uma história curta e rápida, com uma bela banda sonora de Nami Melumad (Michael Giacchino escreveu os temas), que qualquer pessoa pode desfrutar, desde que tenha as expetativas mais acertadas.

An American Pickle está disponível na HBO Portugal.

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