Crítica – Long Shot

por Manuel São Bento

Fred Flarsky (Seth Rogen) é um jornalista que, devido à sua escrita (excessivamente) arrebatada, está novamente desempregado. Um dia, por casualidade, encontra Charlotte Field (Charlize Theron), que em tempos foi sua “babysitter”, mas que hoje se transformou numa das mais influentes mulheres do mundo. De secretária de Estado, ela concorre agora à presidência dos EUA. Contente por voltar a vê-lo, Charlotte contrata Fred, que a conhece há várias décadas, para escrever os seus discursos e para os transformar em algo menos solene do que o habitual. Contudo, o que parecia ser uma parceria estritamente profissional depressa vai dar lugar a algo mais…

Quem imaginaria que a primeira grande surpresa (positiva) do ano seria um filme protagonizado por Seth Rogen numa comédia romântica?! Este género tem tido problemas durante os últimos anos (apenas uma mão cheia de filmes são dignos de grandes elogios), mas o elenco impressionante de Long Shot chamou a atenção no início de 2019 quando a watchlist do ano estava a ser planeada. O sentido de humor de Rogen é único e Charlize Theron é uma das melhores atrizes do século XXI. Adicionem mais três atores fantásticos como Bob Odenkirk (President Chambers), O’Shea Jackson Jr. (Lance) e um irreconhecível Andy Serkis (Parker Wembley) e obtém-se uma “via verde” para o sucesso.

Sendo assim, qual é o ingrediente chave que falta? Uma história bem escrita e convincente, que é o problema número um das rom-coms do presente. A maioria destes filmes vai diretamente para os serviços de streaming, uma vez que estes são mais fáceis de produzir. Basta reunir um elenco razoavelmente decente e criar uma narrativa clichê sobre como duas pessoas sem nada em comum acabam juntas através dos plot devices mais improváveis e ilógicos, e assim se realiza um “sucesso” com um orçamento reduzido.

A premissa de Long Shot segue uma variação desse conceito e ainda carrega a convencionalidade habitual, mas é a química dos seus protagonistas, a comédia hilariante e o argumento excecionalmente bem escrito que o faz destacar-se dos restantes.

Os diálogos não são forçados, a grande maioria das piadas resulta (e de que maneira) e aqui fica o melhor elogio que posso oferecer a este filme: tomou um tom sério e funcionou perfeitamente. Há uma mensagem sincera para transmitir aos espetadores e esta é entregue da maneira mais realista possível. O romance não nasce abruptamente, nem do nada. Em vez disso, tem um arco maravilhoso, repleto de dilemas morais presentes em relacionamentos da vida real e decisões extremamente difíceis. Tudo o que qualquer personagem diz ou tem sentido e faz o público pensar no que faria no lugar respetivo, ou tem piada e faz a audiência rir.

Os atores são brilhantes, como era de se esperar. A química entre Seth Rogen e Charlize Theron é palpável e é uma das razões pelas quais a parte do romance funciona. Claramente, divertiram-se muito a filmar, e isso é visível no grande ecrã. Rogen é a principal fonte das gargalhadas, mas prova que também pode ser dramático se necessário. Theron é simplesmente impecável. Não consegue interpretar uma única linha do seu guião de uma forma que não seja perfeita, quer esta pertença a uma cena romântica ou a um momento cómico. O seu alcance emocional está em exibição durante todo o tempo de execução e Jonathan Levine deve sentir-se incrivelmente grato enquanto realizador por ter uma atriz tão notável para trabalhar.

Para além de tudo isto, resta um elogio para um departamento que nunca pensei mencionar num filme assim: maquilhagem. Antes do filme, sabia que Andy Serkis estava no elenco, mas esqueci-me completamente do seu papel. Sem um pingo de exagero, é quase impossível reconhecê-lo como Wembley, a não ser que se saiba de antemão que ele participa no filme. Ao reverificar os membros do elenco, fiquei quase tão surpreso com a descoberta como o quanto me diverti com este filme. O’Shea Jackson Jr. também oferece um desempenho hilariante, enquanto Bob Odenkirk não tem muito tempo de ecrã para brilhar.

Este é um daqueles filmes ao qual não se consegue exatamente apontar falhas claras. Um filme sem falhas não significa que seja um filme perfeito e magnífico. Apenas significa que realmente não temos um problema significante com o mesmo. Se cada aspeto de um filme for apenas “bom”, então o mesmo é “bom”, não “incrível” ou “impressionante”.

É desta perspetiva que interpreto Long Shot. É uma comédia romântica extremamente divertida, inegavelmente uma das melhores destes últimos anos. Mesmo que o conceito principal siga as histórias tradicionais do género, o argumento brilhantemente escrito, os momentos hilariantes e os protagonistas fantásticos fazem desta história surpreendentemente séria em algo bastante entertaining.

São duas horas com um ritmo rápido que recomendo a qualquer leitor que apenas deseje passar um bom bocado no cinema.

Long Shot já está nos cinemas.

Nota:

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