Marvel’s Wolverine Review: Hora da Carnificina

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Em Marvel’s Wolverine, Logan regressa aos videojogos pelas mãos da Insomniac Games com mais uma emocionante história original que, apesar de não atingir os patamares de outros jogos do estúdio, apresenta uma fantástica versão deste herói da Marvel e um sistema de combate bem divertido.

Marvel’s Wolverine é mais uma emocionante adição ao longo currículo da Insomniac Games, cujo legado é bastante diverso, cobrindo jogos de aventura e plataformas como a saga Ratchet and Clank, sci-fi bélico com Resistance, exploração e diversão com o quase esquecido Sunset Overdrive e, claro, alguns dos melhores jogos de super-heróis da última geração e meia, com Marvel’s Spider-Man. Sempre experimental, mas com níveis de confiança e de produção extremamente elevados, a Insomniac Games dá assim continuidade ao seu legado e às adaptações de banda desenhada, focando-se num dos mutantes mais reconhecíveis desse meio (se não for mesmo O Mutante) e, nas últimas décadas, até do cinema. Falo, obviamente, de Logan, aka Wolverine.

Marvel’s Wolverine representa uma mudança, não para algo novo e refrescante, mas para algo mais tradicional e passado. Abandonando o formato de mundo aberto que Marvel’s Spider-Man nos trouxe de forma consciente – como seria balouçar com teias por Nova Iorque sem liberdade? – e focando-se numa aventura mais linear e focada na narrativa. Uma abordagem que cada vez mais aprecio nos dias de hoje (especialmente após tantos anos de jogos da PlayStation em mundo aberto carregados de conteúdo que roçam o entulho), mas que, ao fim das minhas cerca de 17 horas da história principal (20 para completar tudo), sinto que poderia ter feito muito mais com esta personagem e mundo.

Sei que parece um início negativo, mas que fique claro: gostei muito de Marvel’s Wolverine. E acho que é um ótimo jogo. Mas, ao contrário de outros lançamentos recentes para PlayStation 5, este foi daqueles que, ao terminar a sua história, não me marcou, deixou saudades ou deu aquela vontade de dizer aos amigos “têm de ver isto”. Um efeito e sentimento que poderá, no entanto, ser mais intenso para os fãs de Logan e do fan-service que Marvel’s Wolverine tão bem oferece.

Marvel's Wolverine
Marvel’s Wolverine – PlayStation 5 Pro Photomode (Insomniac Games/Echo Boomer)

Em busca da melhor versão de Wolverine

À semelhança de Marvel’s Spider-Man, Marvel’s Wolverine conta-nos uma história completamente nova, focada em Logan, que mistura e remistura vários traços da personagem, mitologias e pedaços de história da BD. Como nos contou Marcus Smith, Diretor Criativo do projeto, Marvel’s Wolverine bebe de décadas de história da personagem, mencionando, em particular, inspirações da saga de 1982 de Chris Claremont e Frank Miller, de Weapon X e até de Old Man Logan, cobrindo assim um espetro variado de histórias que vão da origem aos últimos dias da personagem. “É uma grande responsabilidade”, desabafou Smith connosco, afirmando que o objetivo é também criar uma espécie de versão definitiva de Logan, e uma que a maioria das audiências provavelmente desconhecia por completo.

Por exemplo, este não é, definitivamente, o Logan que conhecemos no cinema com Hugh Jackman, ao longo dos últimos 26 anos. Não é grumpy, constantemente zangado ou revoltado. É um Logan com uma abordagem francamente refrescante, não só para aquilo a que eu já estava habituado, mas também para o arquétipo mais comum dos heróis relutantes. Logan, aqui interpretado por Liam McIntyre, faz-se sentir como um verdadeiro herói, com atos heroicos, carisma e qualidades de um excelente role model moral. É um Logan bondoso, emotivo, com medo dos seus demónios internos, mas com coragem de partilhar o que sente. Um dos pilares desta versão da personagem é a tradicional falta de memória e uma sensação constante de déjà vu, de estar consciente de que tem uma vida nova nas últimas décadas, mas vidas diferentes num passado longínquo. Elementos que não só solidificam a personagem e a tornam extremamente interessante, como são usadas como forças motoras emocionais desta aventura.

Outra dessas forças é, obviamente, Jean Grey, a sua eterna cara-metade, que o Universo quer constantemente mantê-los separados. Tal como Logan, é também uma personagem com um passado misterioso e aparentemente apagado, em busca de respostas, com uma presença surpreendentemente constante no jogo, com uma ótima dinâmica de “power couple” que nos faz mesmo torcer pelo romance e que dá ao jogo uma adorável sensação de esperança e de luz mesmo quando tudo parece estar perdido.

Marvel's Wolverine
Marvel’s Wolverine – PlayStation 5 Pro Photomode (Insomniac Games/Echo Boomer)

A Origem de Wolverine, sem X-Men

Como já é sabido, Marvel’s Wolverine passa-se numa altura em que os “X-Men”, como equipa, ainda não existem. Pelo menos foi assim que a Insomniac Games apresentou o jogo. No entanto, é claro que, se existirem alguma vez, a história de origem do grupo poderá ser também diferente da que temos assistido ao longo dos anos noutros meios. Não entrando muito a fundo na história ou em possíveis implicações, se estão à espera de encontrar qualquer outro X-Men para lá de Wolverine e Jean, então vão ficar desiludidos. Marvel’s Wolverine faz fan-service, mas não se debruça em easter eggs, cameos ou outros piscar de olhos. No fundo, é um pouco a mesma abordagem aos Avengers no mundo de Marvel’s Spider-Man – que, curiosamente, é o mesmo mundo de Marvel’s Wolverine.

A história foca-se assim na X-Team, já formada, composta pelo rival/irmão de Logan, Sabertooth, e Raven aka Mystique, liderada por Nathaniel Essex. Existem outras personagens secundárias neste elenco, como Walter e Tyger, com papéis bem importantes, mas é na dinâmica entre os quatro elementos principais que a história se vai desenvolvendo, como uma família disfuncional. O jogo apresenta-nos o grupo uma altura em que Logan regressa à equipa após uma breve ausência sem aviso, ajudando assim a apimentar a relação entre ele, Sabertooth e Raven, durante uma missão de resgate de Nathaniel, que foi raptado por Bolivar Trask, um dos antagonistas do jogo e o criador dos Sentinelas, poderosas máquinas exterminadoras de mutantes. É um setup forte, mas rapidamente percebemos para onde se dirige, especialmente considerando a natureza de Essex, quem ele é e o que representa no material original.

Por causa disso, achei Marvel’s Wolverine extremamente previsível. Desde o primeiro contacto com o jogo, tornou-se claro quem está no lado certo e errado da história, ou até no meio. Mas a Insomniac também parece não querer ocultar isso, dando a personagens como Essex um perfil extremamente suspeito, com um Troy Baker a dar a voz e a cara de forma altamente distrativa. Francamente, arrisco-me até a dizer que Baker e a sua personagem são mesmo os pontos mais fracos do jogo.

A narrativa de Marvel’s Wolverine também não é propriamente arrojada, nem vai a sítios muito inesperados. É contida e focada, correndo o risco de ser até pouco memorável, e em alguns momentos desnecessariamente complicada ou pouco clara. Mesmo adorando esta versão de Logan e o papel de McIntyre, tanto na voz como na sua cara e expressividade, sinto que não houve grande evolução ou crescimento ao longo do jogo. O mesmo não se pode dizer de Jean, cujas motivações e descobertas vão-se moldando às circunstâncias, tornando-a até mais interessante de seguir. Outro aspeto que também me deu a sensação de uma aventura menos interessante do que estava à espera tem a ver com o formato do jogo. Mesmo sendo linear e com a promessa de nos levar numa aventura à volta do mundo, a verdade é que há uma grande repetição de cenários e de ambientes, onde passamos demasiado tempo em determinadas zonas, particularmente no Japão, onde o jogo se abre um pouco mais, com exploração pelas suas ruas numa missão de resgate que parece que nunca mais termina.

Marvel's Wolverine
Marvel’s Wolverine – PlayStation 5 Pro Photomode (Insomniac Games/Echo Boomer)

Hora da Carnificina

De um lado mais positivo, temos a jogabilidade, que é fantástica, visceral e viciante. Não é bem um “simulador de Wolverine” como Spider-Man nos fez sentir, mas é um fantástico jogo de ação com mecânicas familiares e fáceis de absorver. Como descrevi já na minha antevisão, o combate de Marvel’s Wolverine afasta-se de Spider-Man e aproxima-se mais de um God of War ou até mesmo de um Ghost of Yotei. Somos frequentemente rodeados por dezenas de inimigos, que nos atacam isoladamente ou em grupo, tendo nós, jogadores, que decidir rapidamente entre atacar, desviar ou contra-atacar com um sistema de parry. Para quem adorar parries, a satisfação do impacto ao carregar no L1 no momento certo, ativando às vezes um stun, vai proporcionar uma experiência divinal. Já quem não gostar muito da mecânica vai sentir-se no inferno, dado que é uma das mecânicas mais importantes para a sobrevivência, para lá de esquartejar inimigos com as icónicas lâminas.

O combate é rápido e agressivo, cheio de oportunidades para finalizadores e uso de habilidades que se vão desbloqueando ao longo do jogo e que vamos poder alterar e experimentar um pouco. Não é um combate particularmente profundo, até porque as nossas únicas armas são os três pares de lâminas e muita raiva, mas é possível ir trocando buffs e até 4 de 6 habilidades especiais para a “build perfeita”. É um sistema simples, que roça um pouco os elementos RPG, mas não dá esse passo nem está muito preocupado numa personalização profunda.

O ciclo do combate é viciante, na medida em que é extremamente divertido esquartejar inimigos, tentar evitar contacto e tentar acumular o máximo de energia da nossa barra de raiva, que, uma vez completa (em três fases), permite fazer uma cadeia de finalizadores brutais. O jogo faz um excelente trabalho a incentivar-nos à agressividade, com trade-offs interessantes, onde, por exemplo, eliminar um inimigo dá-nos mais raiva, mas fazer stun primeiro, antes de o finalizar, dá-nos mais vida. É um combate de decisões constantes e imediatas, mas que também corre o risco de se tornar repetitivo e, por vezes, confuso. E admito que, mesmo na dificuldade normal recomendada, houve alturas em que estava a jogar em piloto automático, a carregar em botões ao acaso, enquanto sangue e membros esvoaçavam pelo ecrã.

Um pormenor interessante ao longo desta aventura é que, na maioria do tempo, Logan tem alguém ao seu lado. Seja Sabertooth, Raven ou Jean, que nos auxiliam durante os combates, eliminando autonomamente inimigos e fazendo combos orgânicos para os finalizar. Dá a sensação de que, a certa altura durante o desenvolvimento do jogo, a Insomniac experimentou algum sistema de co-op, ou outro tipo de estrutura de missões para o jogo, algo que também é aparente com os colecionáveis, na sua maioria baús e estátuas que dão experiência ou pontos para a criação de novos fatos, um nadinha reminiscentes de jogos enquanto serviço.

Marvel's Wolverine
Marvel’s Wolverine – PlayStation 5 Pro Photomode (Insomniac Games/Echo Boomer)

Extras pelo caminho

Para além da campanha, existe também um conjunto de desafios extra, normalmente um por nível, que são as memórias de Logan. À medida que avançamos nos níveis, vemos umas raízes a materializarem-se que nos levam à porta de uma cabana, onde lá podemos encontrar um desafio de time trial, de eliminação de certos inimigos, ou até gauntlets que são um pequeno modo de horda com um toque de roguelite, onde temos de sobreviver a várias ondas de inimigos, cada vez mais difíceis. Terminando estes desafios, Logan conta-nos mais uma das suas histórias de outra vida (narração e texto), recuperando assim memórias, mas também desbloqueamos novas “strands”, que são, no fundo, slots genéticas para alocar melhorias de combate ou defesa bastante substanciais. Por essa razão, as memórias são muito importantes de completar. Felizmente, são bastante curtas, não afetando o flow do jogo principal, mas as gauntlets sentem-se por vezes a mais, até porque demoram cerca de 20 minutos a serem completadas.

Entre incentivos, há também que ter em atenção os fatos que se podem desbloquear no jogo. Aqui é onde se concentra a grande maior parte do fan-service de Marvel’s Wolverine, com uma lista bem compreensiva de fatos familiares, incluindo versões de filmes, jogos e até de animação. Mesmo não os usando, o jogo motiva-nos a usar o material obtido na exploração para os desbloquear, porque isso aumenta-nos, por exemplo, a barra de vida. Para além dos fatos, há também dezenas de lâminas. No entanto, estas não são tão interessantes, com pouca distinção entre elas, com exceção de uma meia dúzia pela sua cor ou tipo de lâmina, sem grande variedade de forma.

Marvel's Wolverine
Marvel’s Wolverine – PlayStation 5 Pro Photomode (Insomniac Games/Echo Boomer)

Modos de desempenho para todos

Como seria de esperar, Marvel’s Wolverine é um jogo bastante bonito e tecnicamente impressionante, com a Insomniac Games a dar particular atenção ao desempenho. Na PlayStation 5 base, o jogo conta com modos de 60 FPS com Ray-Tracing, mas, na PlayStation 5 Pro, onde joguei, os benefícios são mais variados, com modos exclusivos. Aqui temos o Performance Pro, com alvo de 60 FPS e upscale para 4K via PSSR; e o modo Quality Pro, que tranca o jogo nos 30 FPS com Ray-Tracing, detalhes granulares e outros elementos melhorados. A diferença entre ambos, trocando entre um e outro, não é imediatamente notória e, dada a intensidade do jogo, o modo Performance Pro é o recomendado. Mas há mais: há ainda um toggle separado para Ray-Tracing avançado e, para quem tiver TVs ou monitores compatíveis, modo de 120 Hz e de VRR, que elevam o jogo até uma média de 80-90 FPS (pelas minhas espreitadelas ao contador nativo da TV), com tudo ativo.

Visual e esteticamente, o jogo aproxima-se muito da direção de Marvel’s Spider-Man, com um look mais CGI que fotorrealista, mas com modelos incrivelmente detalhados e ambientes extremamente ricos em detalhe. No entanto, Marvel’s Wolverine é bastante inconsistente na sua fidelidade gráfica. Enquanto que, em alguns cenários, a iluminação é fantástica e se aproxima do CGI, com os modelos das personagens e dos inimigos a destacarem-se do ambiente com grande definição e fantástico jogo de luz e de sombras, existem muitos outros momentos onde a ilusão quebra e parece que estamos a jogar um jogo da geração passada. A qualidade dos NPCs também varia bastante, com o elenco principal de personagens a contrastar drasticamente com o resto da população, assim como muitos elementos, acessórios e props ambientais que claramente não tiveram tanta atenção. Esta quebra de consistência é particularmente notória na reta final do jogo, em algumas sequências de escala maior, nos níveis de mota, em flashbacks e outros cenários onde passamos menos tempo, mas é o suficiente para nos distrair e retirar um pouco da envolvência do jogo.

Apesar dos meus queixumes, Marvel’s Wolverine divertiu-me bastante e deixou-me agarrado ao ecrã durante o tempo todo. Para além disso, é sempre refrescante termos novos jogos mais lineares e focados, sem grandes artifícios para exploração redundante e desbloqueios sem valor. Às vezes, menos é mais, e este é um perfeito exemplo disso. Sim, são menos de 20 horas, mas o jogo conta com mais incentivos para permanecer, como um modo New Game Plus e dificuldade nova desbloqueada. E também acho que tem a duração ideal para fazer o que quer e contar a história que pretendia. No fim de contas, é um bom jogo, mas sem a garra suficiente para se juntar aos candidatos a GOTY.

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Cópia para análise cedida pela PlayStation Portugal.

David Fialho
David Fialho
Licenciado em Comunicação e Multimédia, considero-me um apaixonado por tecnologias e novas formas de entretenimento. Sou editor de tecnologia e entretenimento no Echo Boomer, com um foco especial na área dos videojogos.
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