Dark Scrolls Preview: Potencial para algo melhor

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Com Dark Scrolls, a doinksoft continua a explorar os géneros e mecânicas nostálgicas em mais um regresso à ambiência 8 bits, mas agora numa tentativa de adaptar a experiência roguelike aos jogos de ação e plataformas com uma novidade que poderá encontrar os seus fãs.

Enquanto os roguelikes se assumem como um dos géneros fortes da indústria dos videojogos, com mais e mais estúdios a procurarem a experiência de “morte e recomeço” que popularizou títulos como Hades e Slay the Spire junto do público, levanta-se a questão: para onde levar o género? Esta é uma questão pertinente e que parece mover alguns dos nomes mais sonantes do género, que procuram testar os limites de adaptabilidade dos roguelikes a novos formatos, mecânicas e sistemas que nem sempre associaríamos ao género. Loot River, por exemplo, quis repensar a forma como nos movimentamos em campo e como controlamos o espaço para criar novas oportunidades de combate. Dead Cells foi dos primeiros a associar o género aos metroidvanias, com mundos exploráveis e habilidades que desbloqueiam novas zonas, sem alterar a forma que popularizou os roguelikes. Desde combates em arenas, cartas, carros, até roleta russa e jogos na primeira, segunda e terceira pessoa, até onde poderão ir os roguelikes?

A bolha certamente está no horizonte e a indústria irá encontrar um novo género de estimação para recomeçar o processo de popularização e produção que já vitimizou os battle royale no passado, mas, até lá, a doinksoft quis dar os seus dois tostões. Novamente ao lado da Devolver Digital, o estúdio norte-americano volta a apostar no saudosismo e nas referências nostálgicas em Dark Scrolls, só que, ao contrário de Gato Roboto e Gunbrella, decidiram abandonar os metroidvanias em favor de um roguelike diferente, mas igualmente familiar. Dark Scrolls é um sidescroller de ação em 2D, com excelente pixel art e animações que seriam impossíveis na era dos 8 bits, mas as referências ao passado não se escondem e o novo jogo da doinksoft parece ser um elo perdido entre Castlevania e Rastan. No fundo, Dark Scrolls é um beat em up, com níveis curtos, separados por zonas de descanso e com um boss no final de cada fase, onde podemos até escolher o caminho que queremos seguir – tal e qual Castlevania III: Dracula’s Curse.

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Então qual é a novidade? Dark Scrolls é um auto scroller. Seja a solo ou com amigos, o jogo de ação move-se automaticamente para a direita enquanto atira todo o tipo de inimigos e armadilhas contra os jogadores. A doinksoft utiliza a câmara automática para surpreender sempre que pode para obrigar os jogadores a adaptarem-se a qualquer surpresa, uma escolha que casa perfeitamente com os elementos roguelike de Dark Scrolls. Os níveis nunca são totalmente idênticos, os inimigos podem aparecer de qualquer lado e não existem propriamente padrões para decorarem – é tudo uma questão de reflexos. Dark Scrolls desdobra-se entre jogo de ação e assumidamente um bullet hell, segundo a própria doinksoft, e é possível sentir esta aposta assim que começamos a jogar – especialmente se jogarmos a solo.

Não tive a oportunidade de experimentar Dark Scrolls com outros jogadores, mas é possível sentir como a doinksoft vê o modo cooperativo como a verdadeira experiência do seu jogo e basta olharmos para as personagens para percebermos porquê. Nesta preview, pude experimentar os três heróis principais e compreender as suas vantagens e desvantagens a solo. Pigeon, a ladra do grupo, é a personagem mais rápida e com um ataque de médio alcance, perfeita para desvios de emergência e para contra-ataques. Depois temos o bárbaro, Grizz, que atira machados de um ponto do ecrã até ao outro, como se os seus músculos não fossem já suficientemente inchados. Grizz é mais lento, não é capaz de dar um duplo salto, como Pigeon, mas tem a habilidade de saltar em cima dos inimigos e aproveitar a projeção para alcançar plataformas superiores. Por fim, temos o mágico do grupo, Emerys, que parece ter-se perdido no caminho até às terras de Final Fantasy. O seu ataque não é tão rápido como Pigeon e nem é tão ágil como poderia ser, então compensa estes entraves com ataques de longo alcance, que ricochetam pelo cenário, e é capaz de fazer um dash que serve de ataque secundário.

Só com um dos heróis, sem falar ainda no elenco que poderá ser desbloqueável na versão final, senti que existem limites na sua performance em combate. A dificuldade é uma constante, como seria de esperar, e é preciso tirar partido das habilidades únicas das personagens para evitarmos as hordas de inimigos, mas não fiquei satisfeito com os padrões de ataque dos protagonistas. A minha personagem favorita, sem surpresas, foi Pigeon devido à sua velocidade e destreza, mas há um limite na forma como se consegue defender de ataques aéreos. O pico de dificuldade que surge assim que alcançamos no segundo nível é tão acentuado que os problemas nos padrões, na mobilidade algo flutuante das personagens e a falta de habilidades mais reativas ficaram ainda mais claros para mim. Se combinarmos as três personagens, temos certamente a melhor experiência de Dark Scrolls. Fica o aviso.

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A progressão de Dark Scrolls também demonstra algum potencial e divide-se em duas fases. A primeira é a temporária, a experiência basilar de qualquer roguelike, mas que Dark Scrolls adapta muito bem à jogabilidade imediata e caótica dos brawlers e shooters. Cada personagem tem um contador de estrelas, que vai até ao nível cinco. Quando atingimos o número máximo, temos acesso a um ataque especial, que nos obriga a voltar ao zero quando é utilizado. Isto seria pouco e a doinksoft sabia-o bem, então adicionou outro elemento. A meio dos níveis, depois de desfazermos aranhas, sapos, zombies em moedas, nós visitamos a loja para adquirir novas habilidades temporárias. O que torna Dark Scrolls mais singular no género é que podemos equipar estas habilidades aos vários níveis das estrelas. Por exemplo, nós podemos definir que temos acesso a ataques de fogo no nível 1, mas quando chegamos ao nível 3 já desbloqueamos a possibilidade de ficarmos mais rápidos. Este sistema incentiva à utilização ponderada dos ataques especiais e à gestão das estrelas para que possamos tirar partido das habilidades temporárias. Uma boa decisão, muito simples, e que não pára a ação do jogo para obrigar o jogador a fazer grandes loadouts, mas consegue, ainda assim, dar espaço para que exista alguma estratégia.

A segunda forma de progressão é a permanente, como seria de esperar nesta nova era dos roguelikes. Dark Scrolls avalia a nossa prestação ao longo de cada tentativa, mesmo que percamos antes de chegarmos ao final (e nesta versão de preview, seria impossível ir até ao fim), e traduz os números de monstros derrotados, moedas colecionadas e a zona a que chegámos em pontos de experiências. De 100 em 100 pontos, nós temos acesso a um cristal, que podemos utilizar para desbloquear permanentemente emotes, habilidades (como atacar inimigos quando sofremos dano) ou então personagens. Por exemplo, Nezumi requer algum trabalho e exige a utilização de 100 cristais para a desbloquearmos. Isto são muitas horas que precisamos investir no jogo, mas também pude descobrir que é possível encontrar novas personagens ao longo dos níveis. Como o adorável Biscuit, um cão que salvamos durante o combate contra o boss da primeira zona, onde temos de ser suficientemente rápidos para quebrar a sua jaula.

Dark Scrolls encontrou um novo nicho no género roguelike e louvo a dedicação da doinksoft em expandir o seu catálogo com um jogo inesperado. No entanto, Dark Scrolls não foi tão cativante quanto esperava e admito que me cansei da fórmula ao fim de umas horas. Apesar de adorar o estilo visual, as animações e até a aposta numa câmara automática, o sistema de combate precisa de maior variedade e os controlos, ainda que responsivos, necessitam de maior feedback para perder a flutuação que emanam, algo que acredito que vá ser aprimorado até ao lançamento. Como experiência a solo, Dark Scrolls parece incompleto e as personagens foram feitas para colaborarem entre si e nem tanto para assumirem o manto de heróis solitários. Mesmo com as minhas críticas, Dark Scrolls terá certamente os seus fãs e vejo aqui potencial para algo melhor, mas não consigo esconder que não fiquei desejoso de me atirar para a versão final.

João Canelo
João Canelo
Crítico de videojogos, Guionista, Professor e o responsável pelo melhor mortal nas aulas de Educação Física em 2002. Um aficionado por jogos peculiares.
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