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Crítica – 1917

Sam Mendes traz a sua visão singular a este épico sobre a Primeira Guerra Mundial, 1917. No auge da WWI, dois jovens soldados britânicos, Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman), recebem uma missão aparentemente impossível. Numa corrida contra o tempo, têm de atravessar território inimigo e entregar uma mensagem que impedirá um ataque letal contra centenas de soldados, entre eles o irmão de Blake.

Deixem-me respirar fundo… Esperem, mais uma vez… Ufa, não faço ideia de como sobrevivi a esta sessão IMAX de 1917. Normalmente, não aprofundo a componente técnica visto que a maioria das pessoas não tem conhecimento ou não se importa com estes atributos, mas é impossível não abordar a cinematografia de Roger Deakins. Não é a primeira vez que um filme é editado de forma a parecer “one shot ” (um take contínuo), mas nunca deixa de me impressionar.

Birdman de Alejandro G. Iñárritu, Silent House protagonizado por Elizabeth Olsen ou o famoso Rope do influente Alfred Hitchcock… todos produzem o mesmo truque. Até séries como Mr. Robot e The Haunting of Hill House já trouxeram dois episódios fenomenais “one shot”, também editados com os chamados stitches (os cortes existentes são invisíveis para o espetador, dando assim a sensação de um take ininterrupto). Os cortes são frequentemente aplicados quando uma personagem aleatória passa à frente da câmera; quando esta última “desliza” sobre uma parede ou um objeto que ocupa todo o ecrã; ou quando as personagens estão simplesmente a passar por uma área escura.

1917

Sam Mendes, Roger Deakins e Lee Smith (editor) trabalham juntos para entregar o filme de guerra mais imersivo de sempre (provavelmente). Sim, tem uma premissa simples e a narrativa principal é básica, mas a parte técnica notável eleva tremendamente este filme. Mesmo que não possuam o mínimo conhecimento sobre filmmaking ou sobre como os filmes são feitos, é impossível assistir a esta obra e não pensar “algo está estranho, parece diferente”. É um filme destinado a ser visto no maior e melhor ecrã possível. Ver 1917 em casa numa TV ou num computador não vai funcionar.

Durante todo o tempo de execução, senti-me como se estivesse lá com Schofield e Blake. Parece que somos um terceiro soldado a acompanhá-los na missão vital para salvar milhares de vidas. Acredito que 1917 é o melhor filme “one shot” que vi até hoje (tenho usado as aspas por alguma razão, não confundam com um filme one shot a sério), com Birdman bem perto. Se este último lida com muito mais diálogo e atores com falas, o primeiro tem dezenas de sequências de roer as unhas com tiroteios, explosões e muita correr/caminhar/nadar através de lama, cadáveres, sangue e muitos ratos nojentos.

Não tenho palavras para descrever a cinematografia de Roger Deakins. Não é apenas um filme, é uma experiência completa. Não é apenas mais um atributo técnico porreiro. É toda a base de 1917 e a principal razão pela qual tantas pessoas estão a correr para o cinema, pelo mundo fora.

1917

No entanto, muitas pessoas estão a ignorar completamente o trabalho de Lee Smith. Não se esqueçam, não é um verdadeiramente um único take. Se foi editado para parecer um take contínuo e, se realmente parece ser um único take, então o editor deve receber tanto reconhecimento como todos os envolvidos. Sim, não tem que trabalhar com milhares de cortes (contei 14, mas com certeza existem mais), mas estes existem e Smith tem que fazer com que ninguém os sinta. E consegue alcançar isso na perfeição.

O meu último parágrafo sobre os aspetos técnicos tem que ir para Sam Mendes e Thomas Newman. Como realizador, Mendes é capaz de entregar precisamente o que ele imaginou e de coordenar perfeitamente os seus atores. Não só realizou o meu filme favorito da saga de James Bond (Skyfall), mas oferece agora um dos meus filmes favoritos de guerra de sempre. Quanto a Newman, apenas desejava que Joker tivesse sido lançado noutro ano, pois a banda sonora de 1917 é fantástica. Hildur Guðnadóttir provavelmente vai levar o Óscar de Best Original Score, mas se Thomas Newman surpreender, também ficarei feliz.

Muitas comparações estão a ser feitas com Dunkirk de Christopher Nolan. São filmes semelhantes no que toca ao objetivo princpal de cada um que é proporcionar a experiência de guerra mais imersiva possível. A nível de história e de personagens, ambos não desenvolvem muito. O filme de Nolan é adorado pela maioria dos críticos e por público em todo o mundo, mas uma queixa comum sobre este é a falta de empatia com as personagens.

1917

Nunca me importei com isso, pois o filme nunca tentou fazer das suas personagens importantes. Dunkirk é um filme sobre o evento e não sobre as pessoas que lá estavam. Daí os protagonistas serem apenas soldados que se encontraram na pior das situações, tal como em 1917. No entanto, penso que este último faz um trabalho melhor ao fazer-nos importar com os protagonistas e a sua missão.

As personagens de George MacKay e Dean-Charles Chapman têm arcos pequenos, mas existentes. No início, Blake é a personagem emocional, enquanto Schofield parece ser mais racional. Nós, enquanto espetadores, preocupamo-nos primeiro com a missão, mas, com o passar do tempo, conhecemos os traços pessoais e as motivações de cada um. No final do filme, encontrei-me a chorar. Ambos trabaham muito bem um com o outro, mas é o diálogo deles que mais me impressiona. O que parece ser apenas uma conversa insignificante enquanto caminham por um campo aberto de relva, realmente não o é. Se não é importante no momento, vai ser. As prestações são mais físicas que outra coisa, mas ambos entregam performances excelentes.

Diria que adoro 1917 tanto como Dunkirk. Se não gostaram deste último, não sei se gostarão do anterior. Posso estar tentado a escolher 1917 devido ao facto de o ter visto agora, mas há um pequeno aspeto que afeta os dois negativamente. O seu valor de repetição não é tão alto como outros filmes, já que as suas realizações técnicas não funcionam tão bem numa TV normal no conforto da nossa própria casa. Nunca sentirão ou entenderão a tal “experiência imersiva” de que todos falam. Não saberão o que fez as pessoas ficarem de boca aberta. Não vão adorar tanto como todos os outros, pois partem em desvantagem.

Sam Mendes, Roger Deakins e Lee Smith. Realizador, diretor de fotografia, editor. Três papéis-chave na criação de um dos melhores filmes de sempre sobre a WWI. Editado de forma a parecer um take contínuo, 1917 é uma conquista técnica impressionante, elevada pela cinematografia de fazer cair o queixo por parte de Deakins, pela banda sonora emocionalmente poderosa de Thomas Newman, pela realização impecável de Mendes e pela edição perfeita de Smith.

George MacKay e Dean-Charles Chapman entregam prestações (físicas) fantásticas, mas é o filmmaking surpreendente que rouba os holofotes. Produção artística, guarda-roupa, som, o que quiserem. Tudo é absolutamente perfeito. Merece ser visto no maior ecrã possível, já que esta é uma experiência incrivelmente imersiva que não terão em casa. Entra direto para o meu Top10: Melhores Filmes de 2019 e espero que adorem-no tanto como eu.

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