Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties Review: Remake com coração e muitas hesitações

- Publicidade -

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties chega com a missão ingrata de revisitar um dos capítulos mais divisivos da saga e, ao mesmo tempo, provar que a RGG Studio ainda sabe honrar o legado que construiu.

Em The Dark Knight, de Christopher Nolan, a personagem Harvey Dent, numa conversa com Bruce Wayne, e sem conhecer a sua verdadeira identidade, afirma que “ou morremos como heróis ou vivemos até nos tornarmos vilões”. Este arco de personagem que o vilão inconscientemente premeditava, serve também de reflexo para a RGG Studio, uma acarinhada e popular equipa, que passou um estúdio que não falhava, mesmo com jogos imperfeitos, para um estúdio que passou a falhar mais vezes do que acerta.

Se fizer uma retrospetiva às minhas experiências com os jogos da RGG Studio, desde Like a Dragon: Infinite Wealth, percebo que deixei de ser meigo a cada novo lançamento, mesmo acreditando em segundas oportunidades, espero sempre que o mais recente lançamento seja melhor. Ao mesmo tempo, há também uma pitada de Síndrome de Estocolmo nesta relação com os jogos, quando temos de sacudir aqueles anos de súplicas por mais títulos localizados para passar a pedir algum brio. Ainda assim, mantém-se a tola e vã esperança de que o futuro Stranger than Heaven seja bom. Se acreditamos? Não. Se queremos engolir as palavras? Sim.

Yakuza 3, que é agora relançando com o remake Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties, tem a infelicidade de ser o patinho feio em duas frentes. Quando o jogamos depois das prequelas originais e quando o jogamos depois das respetivas versões Kiwami. Num lado, está a tentar navegar uma transição tecnológica para a PlayStation 3. Noutro, está a competir injustamente com o Dragon Engine. Ainda assim, é das minhas entradas favoritas por abrandar o frenesim da série. As prequelas foram uma injecção de adrenalina e de imersão no mundo do crime nipónico; filmes que podíamos jogar; drama polvilhado de bizarria e distracções para queimar tempo sem a frustração de sentir que o desperdiçámos. Yakuza 3 também é isso, mas segue a mensagem do final do segundo jogo para começar quase do zero e longe da azáfama de Tóquio. Agora, em Okinawa.

Kiryu deixou a liderança dos Tojo para abraçar a gestão do orfanato Morning Glory numa praia de Okinawa. Este início é pachorrento e foi muito criticado por envolver a rotina da criançada que vive consigo e Haruka. Apesar de Kiryu ter abandonado a sua família mafiosa, existe uma outra mensagem de paternidade neste jogo que envolve pessoas que, de facto, precisam de um modelo. Pessoas que estão mesmo dependentes de nós, mas que também conseguem ensinar alguma coisa aos adultos do jogo.

yakuza kiwami 3 dark ties review echo boomer 1
Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties (SEGA)

E porque esta paz não pode durar muito tempo, ou não teríamos jogo, Kiryu é puxado para os dramas da tal outra família em Tóquio. Em causa, está o vácuo de poder após a sua saída, e um ataque a Daigo, que está a atrair os piores jogadores de Kamurocho. Ao mesmo tempo, a subsistência do orfanato está em causa devido a uma disputa de terrenos para a construção de uma estância turística ou expansão da base militar. Um drama mais político em contraste com outro mais insidioso e que podem, ou não, estar relacionados.

Yakuza 3 ficou-me no coração pelo que descrevi, mas reconheço que é agora uma experiência datada, com controlos rígidos, exagero de missões secundárias (algumas obrigatórias), combates aleatórios forçados e um ritmo que não apela a quem procura a gratificação instantânea. No entanto, era um jogo com alma, com uma ingenuidade que refletia a do Kiryu, e que perdemos nesta versão Kiwami. Aliás, é o que temos vindo a perder a cada novo jogo porque a RGG dessa altura já só existe em nostalgia. A que nos entregou este jogo, é a mesma que nos tem vindo a desiludir nos últimos anos com decisões e práticas questionáveis. Não que antes fosse melhor, mas isso é outro desabafo.

É possível que esta versão de Kiwami 3 seja o primeiro contacto de muitos com o terceiro título e está tudo bem aí, uma vez que a intriga principal está lá. E se não tiverem qualquer ligação ao original, as novas caras não farão confusão. E é aqui que surge a controvérsia deste jogo. Um dos atores foi acusado de assédio sexual e mantido no jogo, ao passo que outros foram substituídos aquando de rumores ou acusações de posse de drogas leves. O que também reflecte a mentalidade e justiça nipónica, quando consideram fumar mais grave do que assediar (ou pior) outras pessoas. A justificação do estúdio foi que queriam que a personagem respirasse da aura do actor, visto partilharem traços. Para mim, é mais uma de “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.”

Ainda, se não tiverem meio de comparação, não vão estranhar o que foi alterado ou removido do jogo, como as Revelações do Kiryu. Kiryu esteve preso durante anos e saiu em liberdade para uma sociedade que avançou sem ele. Nomeadamente, a tecnologia. É um infoexcluído ingénuo que passa a ter um blogue para registar situações caricatas, que acontecem à sua volta, para as traduzir em ataques especiais. Removeram essa mecânica, removeram a personagem que o ensina a criar um blogue e removeram outras tantas para simplificar o sistema de combate que agora se resume a dois estilos, o do Dragão e Ryukyu, um estilo inspirado em artes marciais de Okinawa. É algo que faz sentido narrativamente. O que não faz, é que nenhum jogo actual conseguiu superar a variedade e versatilidade do sistema de combate de Yakuza 0 ou dos Judgment.

yakuza kiwami 3 dark ties review echo boomer 2
Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties (SEGA)

Se houve conteúdo retirado para uma melhor digestão desta versão de Kiwami, também temos novas atividades e uma expansão adicional focada no vilão – a expansão Dark Ties. Temos o Lalala Phone com redes sociais e que nos permite personalizar o telemóvel a nosso bel-prazer, como se estivéssemos nos pindéricos anos 2000, e toda a gestão do orfanato. Podemos tratar do jardim e da casa, cozinhar para a criançada e ajudá-los nos seus problemas de primeiro mundo. Já o Bad Boy Dragon coloca o Kiryu a gerir um gangue de motoqueiras em Okinawa, inspirado na subcultura Sukeban de miúdas delinquentes, onde personalizamos fardas e motas para andar em cenários de pancadaria juvenil.

A expansão Dark Ties permite-nos jogar com Yoshitaka Mine, o vilão que teve o seu desfecho alterado para satisfazer uma agenda cinemática alternativa e perversa da RGG, que começou por ser uma brincadeira no primeiro Like a Dragon e que agora só nos deixa a coçar a cabeça de confusos. Se jogaram Like a Dragon Gaiden: The Man Who Erased His Name, sabem do que falo. É um outro lado da moeda para gerar empatia e que serve para variar de jogarmos com o Kiryu.

É pena que isto assente num lançamento tremido e colado a fita adesiva, desde gralhas nas legendas a linhas de código nas mesmas, iluminação e HDR desequilibrados desde o Like a Dragon: Ishin!, entre outros problemas técnicos. A inconsistência visual é algo que não deixa de me surpreender, com personagens principais superdetalhadas e outras que parecem copiadas e coladas da versão da PlayStation 3. E como o estilo do Yakuza 3 pendia para a caricatura, estas novas caras e expressões realistas, não assentam bem, quando parecem sacos de pele plástica sobre esqueletos robóticos. No geral, o resultado é um regresso agridoce, com decisões difíceis de ignorar, num remake que oscila entre o preservar da alma do original e expor as fragilidades de um estúdio que já foi sinónimo de compra garantida.

Dado o meu apego ao passado, reconheço que esta escrita soe um nada enviesada. E é por isso até recomendo Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties, mas apenas a quem não tenha acesso aos outros jogos. Se o tiverem, optem pelas versões remasterizadas, que incluem o 4 e 5, antes que sejam removidas das lojas digitais! Por pirraça, espero que o Nagoshi capriche no seu GANG OF DRAGON e que seja a concorrência necessária para a RGG voltar a entrar nos eixos. Se não entrar, ninguém nos tira o passado, principalmente se tivermos as versões físicas na coleção.

Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela SEGA.

André Pereira
André Pereira
Formado em Tradução, escrevo sobre jogos desde 2008. Ou tento. Respiro RPG e isso é um problema num backlog crescente.
- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Relacionados