O eclipse total em Paredes de Coura criou um cenário sem precedentes: música ao vivo, óculos de sol partilhados e um anfiteatro natural cheio.
Mesmo descontando o facto de apenas em Bragança o mesmo poder ser avistado na plenitude, a loucura sobre o eclipse total do sol foi real – as crónicas anunciarem que o último visto em Portugal datava de 1912 ajudaram bem ao facto. Tal foi a situação em Paredes de Coura, com os modestíssimos 99,1% de ocultação máxima a não impedirem o stock esgotar em todo o lado do concelho e noutras partes do Alto Minho. Foi neste clima de gente a partilhar óculos à vez que se entra no recinto do Vodafone Paredes de Coura junto à praia do Taboão.
Estamos a poucos minutos do início do concerto encenado de First Breath After Coma e Salvador Sobral, concebido para exibição em teatros, facto que não impediu a organização de apostar no mesmo como referiu Salvador Sobral, a figura que vai marcar esta edição do festival pela sua ubiquidade em múltiplas formas. Chegam às 19h30, ponto máximo do sol a tapar a lua, canta-se uma saudação ao mesmo, mas o facto é que o som não teve muitas vezes as melhores condições e os momentos de encenação de dissolveram para além das primeiras filas. Vai ficar na história como um dos epifenómenos mais curiosos da edição de 2026, acima de tudo pela extraordinária coincidência de circunstâncias que deu origem a que tantos milhares de pessoas se juntassem naquele anfiteatro natural a ouvir música portuguesa numa tarde de verão a assistir a um fenómeno natural destes. Seguramente caso único.
CMAT é outra de nação atlântica, a Irlanda, mas tem uma escolha muito portuguesa antes da chegada ao palco – “Amanhã de Manhã” das Doce, com muito coro a acompanhar. Ciara Mary-Alice Thompson e banda chegam com vontade de dar tudo, um country pop sempre a puxar por dar tudo nos vocais e muito violino irlandês em cima (não dá para ser direto no título de uma canção do que com “Euro-Country”). Se genuinamente Lola Young deu no ano passado um concerto mais calibrado (embora também trate o público por bitches), mais na zona do que os desvarios performativos por vezes a atirar para todo o lado de CMAT (paragens súbitas das pessoas em palco são um exemplo), o calor das primeiras filas e a evidência de que há ideias ali e de que a artista é de facto artista fazem marcar na agenda querer perceber o que se passará por ali nos próximos anos.
Os Capitão Fausto levantam a eterna questão do lugar do beto do panorama musical português, e em especial na aldeia gaulesa perante esta influência que tem sido Paredes de Coura. Faz sentido excluir? Faz sentido chegar ali e dizer “Olá, nós viemos de Alvalade”? Muitas questões e opiniões aqui, a apresentação dos membros da banda de Tomás Wallenstein a terminar com “O meu nome é Tomás e nós pertencemos aqui” deixa muito claro que ele tem noção desta questão que Coura tem consigo mesma. Acabaram por ir parar ao palco Coura sem Paredes e a coincidência acabou por ser feliz, resultando em casa ao barrote e num sítio em que a “Célebre Batalha de Formariz” não se perde no espaço (e dois dias depois da efeméride dos combates de Travanca que dão o dia ao concelho – sabedores saberão). E claro que Salvador Sobral apareceu.
Faltavam as Wet Leg, que deram um verdadeiro concerto de cabeça de cartaz ao estilo clássico. Rhian Teasdale, a vocalista de cabelo bem rosa e óculos de sol anos 2000, e a guitarrista Hester Chambers vieram acompanhadas por mais três membros da banda para dar um concerto que agrada a miúdos e graúdos com clássicos automáticos como “Chaise Longue” ou a agitação de “Mangetout” a garantir o povo da frente aos saltos e os sentados nas toalhas cá atrás a bater o pezinho de forma ritmada. A nova fornada do indie de matriz claramente do outro lado do canal da mancha a impor-se com vigor, a evolução de Moisturizer a fazer trilhar uma carreira sólida para quem apareceu lá longe na Estação do Rossio em 2021 no malogrado Super Bock em Stock ainda em modo tímido.
