Vodafone Mexefest 2018 – Reportagem dia 2

Depois de um dia marcado por alguns altos e baixos, as atuações deste segundo dia prometiam momentos verdadeiramente incríveis, ou não tocassem nomes como Cigarrettes After Sex, Liars, Sevdaliza, entre outros.

- Publicidade -

Começámos cedo, desta vez para ver os Conjunto Corona, que destilaram boa disposição (e também shots de hidromel) no Vodafone Mexefest. Com eles, a festa está sempre garantida, em doses mais ou menos controladas, sendo sempre possível recordar nos seus espetáculos pérolas como o popular vídeo de Valentim Loureiro com “Gondomar! Gondomar! Gondomar”. É complicado perceber se os Conjunto Corona estão sempre no gozo ou se não passa tudo de estratégia. Afinal, temas como “Mafiando Bairro Adentro” e “Noite de Natal em Cima de Vila” falam de coisas tão díspares como bairros problemáticos do Norte ou a escassez de bacalhau. Com mais ou menos paródia, esta foi uma bela forma de começar a noite.

Seguimos para Iguana Garcia, este one-man show que mistura loops de guitarra e sintetizador para os condensar em beats eletrónicos e percussões ambientes. Variando entre o seu computador, teclado e guitarra, o homem distribuiu pelos presentes algumas cópias do seu disco de estreia, Cabaret Aleatório, que veio apresentar ao festival lisboeta. Um concerto onde deu para bater o pezinho nesta música pop de dança.

O concerto passou de rajada, pelo que deslocámo-nos com rapidez ao Coliseu dos Recreios para ver o nome mais esperado desta edição, os Cigarettes After Sex. E, de facto, só pela afluência do público, deu para perceber que quase todo o festival estaria ali metido naquela bonita sala lisboeta.

Apesar da estreia em Lisboa, a banda de El Paso, no Texas, já tinha estado no Vodafone Paredes de Coura onde despertou o interesse dos portugueses, e depois no NOS Primavera Sound, onde efetivamente estabeleceram uma relação de amor com o país. Nesta terceira vez em Portugal, o quarteto não fez por menos e deu um excelente concerto, conseguindo embalar um Coliseu cheio com esta indie melosa e empolada do seu álbum de estreia. Pois é, nas anteriores visitas não tinham, sequer, álbum editado.

Confesso que a primeira vez que ouvi a voz de Gonzalez pensei tratar-se de uma mulher, tal como aconteceu com a primeira que ouvi Rhye, mas efetivamente percebi estar perante um homem muito romântico e que vê no amor a sua grande inspiração para escrever.

De facto, a música da banda pode ser perfeita para ouvir depois do sexo, durante o ato ou até para ouvir junto à lareira.

Verdade seja dita que a música da banda de Greg Gonzalez não é para todos, e há mesmo quem diga que as canções são todas iguais e que estamos presos num loop durante uma hora. No entanto, são temas extremamente belos e que nos tocam no coração. Efetivamente é um estilo de música que não vai muito mais além, mas enquanto os Cigarettes After Sex comporem canções com este efeito narcótico, as suas melodias irão sempre embalar-nos. Agora, incomodativa? Só mesmo para quem não gosta disto.

O concerto apenas pecou pelo som não ser o mais ideal e a própria voz do vocalista ser algo imperceptível por vezes, o que pode não ter ajudado nas incríveis “Affection”, “Each Time You Fall in Love” ou “Keep on Loving You”. E alguma gente do público importava-se mais em tirar fotos para colocar no Instagram, o que não deixa de ser bastante triste.

Seguimos com a nossa demanda para ver uns minutos do concerto da jovem britânica Mahalia Burkmar, de apenas 19 anos.

Do pouco que vimos, o estilo “psycho acoustic soul”, como afirma a própria na sua conta do Instagram, encaixa que nem uma luva à espetacular voz desta miúda. Uma fusão de estilos pouco ortodoxa, que deixam Mahalia aventurar-se por vários percursos. É talento em bruto por lapidar que vamos, certamente, encontrar mais vezes no futuro.

Eva Rapdiva, rapper angolana que fez a sua estreia no Vodafone Mexefest, foi conquistando a difícil plateia aos poucos e poucos, que lá se rendeu perante as suas investidas. E tem coragem ao arriscar no hip-hop, algo que não é muito comum nos dias de hoje.

Dividimo-nos para Julia Holter e Everything Everything, mas nem um nem outro nos entusiasmaram.

Julia Holter, aqui a solo com o seu piano e mais um companheiro em palco, nota-se que perde muita força sem a banda ao vivo. Apresentando temas do mais recente álbum In The Same Room, Julia referiu recentemente numa entrevista que se senta ao piano e grava durante 10 ou 15 minutos, para depois ouvir esse trecho e começar a cantar.

Ora, apesar da compositora ter voz e talento, não senti no público do Tivoli aquele click de ligação. Tem canções melódicas, umas mais calmas, excelentes para o silêncio total, e outras onde se nota a falta a banda, pois é constante ver Julia nos seus devaneios. E foi esta versão mais experimental de Julia Holter que não nos cativou a atenção.

Já os Everything Everything não são uma banda para massas, e o meio Coliseu provou isso mesmo. Já passaram várias vezes pelo nosso país, mesmo por aquela sala, em 2013, e continuam sem conseguir mais do que isto. O falsete de Jonathan Higgs torna-se facilmente insuportável ao fim de um par de temas e a música da banda não é propriamente catchy. É mais de mesclar e deitar fora, neste caso, é ouvir uma ou duas e seguir viagem, tal como fizeram os que por ali passaram.

Já fui a muitos concertos ao longo da minha vida, mas recordo-me de poucos com uma aceitação tão boa por parte do público como foi o caso de Sevdaliza. E umas quantas declarações de amor também.

Nascida no Irão e a viver na Holanda, a artista veio ao Mexefest provar que uma artista independente, como fez questão de dizer, é capaz de realizar algo que há muito desejava. Com um bailarino em algumas músicas, um baterista e outro membro nos sintetizadores, Sevdaliza deu um dos melhores concertos da edição deste ano do festival lisboeta.

Ela dança e canta sem dificuldades, diluindo as sombras na beleza da sua voz. Ao Mexefest, Sevdaliza trouxe os EPs The Suspended e Children of Silk, editados em 2015, e o álbum de estreia, Ison, mostrando uma eletrónica próxima dos terrenos do trip-hop, mas andando de mão dada com géneros como o grime ou dubstep.

Perante um auditório cheio, a artista teve uma performance imaculada e muito aplaudida, mostrando que o que ouvimos em disco não é puro show-off. Temas como “Human”, “Marilyn Monroe”, “Bebin” ou “That Other Girl” mostraram o alcance vocal da cantora e levaram muita gente a levantar o rabo das cadeiras. Agradeceu aos portugueses porque nunca antes tivera uma receção calorosa na estreia em qualquer outro país e mostrou-se ainda uma ativista social ao rejeitar temas como a intolerância ou o racismo.

Uma bela estreia em Portugal. Quando Sevdaliza regressar, certamente que será recebida com todo o amor e carinho.

A tocar à mesma hora estava Liars, projeto do norte-americano Angus Andrew, agora a solo, mas com a companhia de um endiabrado baterista, e que quase destruía as colunas com a pujança sonora das suas músicas. Ou seja, o contraste total com Sevdaliza.

Angus Andrew apresentou-se no Vodafone Mexefest vestido de noiva, mas isso não o impediu de dançar e cantar freneticamente na estação do Rossio. Este é um punk eletrónico e eletrónico que dá vontade de headbanging e o público fez questão de aceitar esse convite.

Sem banda, mas com várias máquinas para fazer barulho, Liars é um projeto desconcertante, provocador e cheio de poder, com músicas como “Coins In My Caged Fist”, do novo álbum TFCF, ou “Mess on a Mission”, claro, a causar aquele desconforto agradável em toda a gente. Excelente escolha para encerrar o palco Estação Vodafone FM.

As nossas pernas já acusavam cansaço, mas não podíamos deixar o Vodafone Mexefest sem ir à discoteca criada por Moullinex no muito bem composto Coliseu dos Recreios. Estando acompanhado por amigos e convidados (Xinobi, Da Chick, We Trust, etc), o projeto de Luís Clara Gomes é a verdadeira celebração da liberdade e da música de dança, ou não fosse esse o mote dado pelo mais recente disco Hypersex.

Por onde quer que passe, a festa é garantida com Moullinex, e fica impossível não dançar ao som do house-pop festivo e libertador deste projeto nacional. E que bem tem crescido ao longo dos tempos.

Terminada mais uma edição do Vodafone Mexefest, percebe-se facilmente que o festival tem vindo a crescer cada vez mais e que a cada edição fica mais eclético, havendo opções para todos os gostos e mais alguns. Só se lamenta alguns horários de atuações e um ou outro nome mais deslocado, mas, depois do cartaz mais fraco no ano passado, o festival redimiu-se este ano. E de que maneira.

- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Sigam-nos

12,483FansCurti
4,064SeguidoresSeguir
656SeguidoresSeguir

Relacionados

Sonic Blast já tem datas para 2021

A 10ª edição do festival irá, também, realizar-se num novo recinto.

Porto/Post/Doc 2020 já tem datas para acontecer ao Porto

A edição deste ano terá como tema central A Cidade do Depois.
- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Recentes

Estado de Emergência. Eis as medidas para o Natal e passagem de ano

Basicamente, um prolongamento das medidas já em vigor.

Android Auto começa a chegar (de forma oficial) a Portugal

Em breve já não será preciso recorrer a plataformas alternativas para instalar a aplicação.