Crítica – “Velvet Buzzsaw”, Uma sátira cheia de suspense e horror

por Natália Correlo

É difícil explicar este filme a quem não o viu porque a primeira coisa que me apraz dizer acerca deste é: Já alguma vez viram um bando de abutres a sobrevoar um animal moribundo às portas da morte? Velvet Buzzsaw é sobre isto, pelo menos no início. Depois, o foco inverte-se e o animal moribundo decide retaliar.

Posto de outra forma, este filme é sobre vários profissionais ligados ao mundo da arte que descobrem um artista fenomenal cujo trabalho se revela sobrenatural (e quando digo “sobrenatural”, não me refiro ao sentido figurado).

Na realidade, Velvet Buzzsaw é várias coisas ao mesmo tempo. Para além de satirizar as pessoas envolvidas no mundo da arte, tece também um comentário ao próprio conceito de “arte” e à forma como este pode ser manipulado e desvirtuado em consequência da ambição desmesurada.

Tendo em consideração a componente satírica do filme, existem vários diálogos irrisórios bem como personagens deliberadamente ridículas. Uma delas é Morf Vandervalt (Jake Gyllenhaal), um crítico de arte cuja crise de identidade leva-o a desenvolver uma relação romântica com Josephina (Zawe Ashton), uma jovem interesseira que está disposta a aproveitar qualquer oportunidade, seja esta ética ou não, para subir na carreira.

Quanto ao resto das personagens, estas pouco divergem das anteriores. À exceção de Damrish (Daveed Diggs), um artista em ascensão, e Piers (John Malkovich), um pintor com um bloqueio criativo, nenhuma das outras personagens é mais do que um “abutre” ansioso por fazer dinheiro.

Neste sentido, houve uma afirmação feita por Rhodora Haze (Rene Russo), uma comerciante de arte, que poderá fazer o espetador duvidar acerca do próprio valor da arte. É possível que a determinada altura dê consigo a pensar que a arte apenas é considerada como tal porque alguém com influência suficiente disse “Gosto!” enquanto admirava uma peça. Alguém cuja opinião é tão respeitada que todas as suas perspetivas são aceites como verdades universais.

E, ainda que exista alguma legitimidade nesse facto, a ideia de que existem uma ou duas opiniões soberanas que podem fazer ou destruir carreiras parece-nos um pouco desoladora. Mas pior do que esta noção, é a forma como este meio romantiza e explora o lado fatalista da vida de alguns artistas para ludibriar o público e encarecer o preço das obras produzidas.

De facto, Velvelt Buzzsaw deixa transparecer todo o elitismo e hipocrisia escondida naquilo que é considerado arte e usa elementos de horror e thriller para fazer o que na vida real é raro: dar poder de resposta à própria arte.

Todavia, como se propõe a conjugar vários géneros (sátira, horror, thriller), nem sempre é bem-sucedido na sua consecução. Aliás, se tivéssemos que eleger o género mais bem conseguido, seria sem dúvida a sátira, dado que a vertente de horror e thriller raramente nos fez sentir imersos na comoção do filme. Apesar de tudo, o trabalho concretizado pelos atores foi bastante consistente e, por isso, Velvet Buzzsaw é uma boa opção de entretenimento, especialmente para quem quiser ver indivíduos sem escrúpulos a sofrer desgraças terríveis.

Velvet Buzzsaw está disponível na Netflix.

Nota: 

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