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Crítica – The Lighthouse

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De Robert Eggers, o cineasta visionário por detrás da obra-prima moderna de horror The Witch, recebemos este conto hipnótico e alucinatório de dois faroleiros que tentam manter a sua sanidade, enquanto vivem numa ilha remota e misteriosa de New England na década de 1890.

Adoro filmes esquisitos. Os momentos aparentemente estranhos, a ambiguidade que parece não ter qualquer sentido, ou simplesmente as sequências puramente WTF… Tudo isto deixa-me profundamente cativado pelo que a história e o seu filmmaker estão a tentar transmitir aos seus espetadores. The Lighthouse é a adição mais recente ao grupo de filmes de horror psicológico que vai fazer os leitores pensarem: “o que raio estou a ver?” No entanto, este é um dos “filmes estranhos” mais acessíveis, uma vez que a maior parte da história é facilmente explicável.

Portanto, espero que este filme de Robert Eggers tenha um lançamento Blu-ray com muito sucesso. Normalmente, o público em geral não gosta (nada) de filmes ambíguos. Hoje em dia, as pessoas querem tudo na palma das suas mãos mesmo antes de assistir ao próprio filme (isto é, trailers).

Assim, um filme sobre dois faroleiros que enlouquecem, onde dezenas de cenas parecem não ter qualquer nexo (na verdade, têm), pode não chamar a atenção dos espetadores. Apesar disso, encontrou a minha. Filmado em preto-e-branco e com um aspect ratio de 1.19:1 (quase quadrado), Eggers oferece uma peça de cinema linda de morrer.

Existe uma tendência (errada) de associar o uso do preto-e-branco a “filmes antigos”, mas realmente é apenas mais uma paleta de cores. Por exemplo, Blade Runner 2049 e Mad Max: Fury Road usam a cor amarela de uma forma super elegante e magnífica. A cor pode afetar-nos emocionalmente, psicologicamente e até fisicamente, muitas vezes sem nos apercebermos disso. O preto-e-branco de The Lighthouse estabelece o ambiente do filme desde o início. Muito sombrio, triste, escuro, com gaivotas com comportamentos esquisitos e condições meteorológicas brutais.

The Lighthouse

Se tentarem imaginar o filme com cor, não vai ser muito diferente daquilo que realmente é. Não há sol, apenas toneladas de chuva, vento e ondas. Está sempre nublado e, dentro de casa, continua escuro e frio. Assim, mesmo que Eggers decidisse filmar com cor, o preto, o cinzento e o branco continuariam a ser os tons predominantes. É por isto que a decisão de realizar este filme em preto-e-branco é tão perfeita. Cada imagem pinga beleza visual. Há incríveis wide shots de Robert Pattinson a trabalhar quem nem um escravo, sendo atingido pelo clima implacável, tudo acompanhado por uma banda sonora assombrosa que eleva todas as sequências.

Do meu ponto de vista, é uma história sobre como a solidão pode fazer qualquer um fugir da realidade. A falta de contato humano nunca contribui para uma boa maneira de viver. Imaginar uma vida melhor ou literalmente fugir para um lugar remoto, com um emprego de trabalho infindável para fazer esquecer quem somos ou o que fizemos, não vai ajudar ninguém a superar o que é, de facto, um problema pessoal. É uma narrativa dada a muitas interpretações, logo ninguém está certo ou errado. Dependendo da nossa experiência de vida e das nossas personalidades distintas, cada um de nós pode ter uma perspetiva diferente e uma compreensão única do que este filme transmite através do seu argumento brilhante.

Uma coisa é certa: Robert Pattinson, e especialmente Willem Dafoe, deviam ser considerados para a temporada de prémios. No entanto, The Lighthouse é demasiado estranho e sinistro para ser premiado com quaisquer nomeações, infelizmente. Dafoe tem 64 anos e rasteja no chão lamacento, leva com chuva e merda literal na cara, para além de entregar um desempenho versátil. Tanto ele como Pattinson oferecem atuações dinâmicas, tendo momentos absurdamente hilariantes como cenas intensamente dramáticas. É, provavelmente, a melhor prestação de Pattinson até à data, mas Dafoe brilha como um ex-marinheiro velho e maluco.

Os sotaques são fantásticos e a capacidade que Dafoe tem em “cantar” poemas marinhos complexos (linguisticamente) em vários takes ininterruptos é digna de qualquer Óscar. É algo que não estava à espera: existem imensos takes longos que se tornam ainda mais impressionantes devido ao talento inegável do elenco. Já não me recordo da última vez em que tive a necessidade de recorrer às legendas para realmente entender o que as personagens estavam a dizer, particularmente Dafoe. Além dos acentos fortes, os diálogos são extraordinariamente ricos e complexos, algo que captou a minha atenção, visto que tenho que estar duplamente mais focado.

Cinematografia incrível, excelente edição e uma banda sonora subtil mas poderosa. É uma pena se The Lighthouse cair no esquecimento. Não vai ser lançado em Portugal (algo muito estranho tendo em conta que esteve presente no LEFFEST), por isso, vou tentar o meu melhor para convencer o maior número de pessoas a vê-lo.

The Lighthouse

Infelizmente, está a ser ignorado por todas as cerimónias principais, o que é bastante injusto, visto que é um dos melhores filmes de 2019. Não tenho qualquer falha a apontar. Algumas pessoas podem não ficar agradadas com a sua ambiguidade ou o seu ritmo lento. Já eu adoro como tudo se encaixa, culminando num terceiro ato chocante, tenso e cheio de suspense que faz com que o build-up tremendo seja digno de mérito.

Concluindo, The Lighthouse é um dos meus filmes favoritos de 2019, entrando para um dos lugares cimeiros do meu Top 10. Filmado num preto-e-branco deslumbrante e com um aspect ratio claustrofóbico, Robert Eggers entrega uma história sobre solidão e isolamento que segue o caminho mais estranho e louco.

É um daqueles filmes WTF que vai deixar todos a pensar sobre o mesmo. Adoro a sua ambiguidade, mesmo que a maior parte da história seja bastante acessível. Repleto de suspense e tensão, principalmente devido à excelente cinematografia e à brilhante decisão de usar o preto-e-branco para definir o ambiente escuro e frio. Robert Pattinson oferece o melhor desempenho da sua carreira, mas Willem Dafoe rouba os holofotes com uma exibição impressionantemente maluca digna de Óscar que, injusta e infelizmente, será ignorada.

Chega a ser de chorar a rir, mas também é poderosamente dramático. Não tenho uma única queixa e adoro-o mais quanto mais penso nele. Por favor, vejam The Lighthouse em casa se tiverem oportunidade. Não o percam!

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