The Last Hero of Nostalgaia

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Uma tentativa de ir além dos clichés do género é vitima da sua própria piada, naquele que é um dos soulslikes mais aborrecidos do ano.

Parodiar um género é tornar evidentes os seus defeitos, é brincar com as suas convenções e retirá-las do seu contexto para que possam ser analisadas através de um olhar mais humorístico. É criticar sem o fazer diretamente, sem a suposta malícia de um olhar analítico, como se toda a paródia fosse apenas uma brincadeira inocente – mas a crítica está lá. The Last Hero of Nostalgaia, da Over The Moon, apresenta-se inicialmente desta forma, como uma paródia ao género soulslike e às produções da From Software, procurando encontrar um meio termo entre uma perspetiva mais emocional sobre o poder da nostalgia – com o reino titular perdido entre gerações de avanços tecnológicos e de design – e as modas de uma indústria que se encontra num novo período de transformação no que toca à forma como os videojogos são produzidos.

O problema de The Last Hero of Nostalgaia é, ironicamente, o facto de se tratar de uma paródia. Apesar de brincar e apontar o dedo aos clichés deste novo género, cuja popularidade continua a crescer anualmente – muito alimentado pelos estúdios independentes, que procuram imitar e adaptar esta experiência quase singular na indústria -, a Over The Moon parece ter feito um trabalho de pesquisa mínimo. The Last Hero of Nostalgaia não aprofunda a sua crítica ao género, almejando um humor juvenil, onde os alvos são os esperados: o sistema de combate, as mecânicas de recomeço, a narrativa visual alimentada por personagens que pouco ajudam, tal como funcionalidades online – que aqui são apenas imitadas e não implementadas – e os vários tipos de inimigos que encontramos no género.

A crítica não é mordaz ou minimamente interessante, com o foco a recair sobre piadas fáceis e pouco imaginativas. A primeira área, que funciona como tutorial, está tão cheia de observações previsíveis que ficamos dessensibilizados para o que vem a seguir, com a presença do narrador a agravar ainda mais a ambiência e tonalidade desta suposta paródia. The Last Hero of Nostalgaia é tão desprovido de surpresas que utiliza piadas como tentativas de subverter expetativas, com algumas sequências a procurarem brincar com jogadores ao indicarem, através do sistema de mensagens – outro elemento parodiado e mal utilizado pela produtora -, que um item muito importante está escondido algures na zona, para depois descobrirem que se trata de um par de boxers. Este foco crescente em piadas mais fáceis e menos visuais levam The Last Hero of Nostalgaia a perder a sua veia crítica e a abraçar apenas o humor popular, desvirtuando por completo a sua mensagem sobre o poder da nostalgia e o valor de um herói num género como os RPG e os soulslike.

Uma das maiores armadilhas em criar uma paródia é considerarmos que o humor é o suficiente para justificar alguma falta de qualidade e imaginação no que toca à sua produção. Apesar da intenção ser “imitar para criticar”, a verdade é que uma paródia, para funcionar, necessita de uma estrutura sólida, de regras e de uma visão criativa que procure interligar não só os elementos que está a parodiar, mas também a sua própria mensagem. The Last Hero of Nostalgaia tropeça exatamente nesta problemática ao adaptar a estrutura e mecânicas do género sem fazer nada novo com elas. Se a intenção é criar algo novo, mas suficientemente próximo ao que se parodia, o título da Over The Moon faz o oposto e apenas imita. A estrutura dos níveis é a mesma, com a ação a decorrer em torno de zonas distintas e no desbloqueio de atalhos, e o sistema de combate foca-se em confrontos lentos, ponderados, onde o jogador tem à sua disponibilidade magias, armas, armaduras e ataques lentos e rápidos. A IA é aborrecida, pouco diversificada, com a agressividade a alimentar a maioria dos confrontos que encontrei na campanha. Como as mecânicas são, quase sempre, cópias do que vimos noutros títulos do género, The Last Hero of Nostalgaia apresenta uma jogabilidade pouco equilibrada ou adaptada às suas necessidades, como se todos os elementos que vemos em jogo tivessem de estar presentes como uma forma de piada – uma piada que não resulta quando jogar se torna tão aborrecido e frustrante devido à falta de polimento.

A maior tragédia de The Last Hero of Nostalgaia é que existem sistemas e funcionalidades que demonstram alguma personalidade, como a possibilidade de desbloquearmos memórias – que evoluem os nossos equipamentos -, uma mecânica que serve a narrativa e a ambiência desta experiência nostálgica. Esteticamente, o mundo de Nostalgaia consegue transparecer a sua ruína, apresentando vários estilos visuais numa só cacofonia de designs que nem sempre combinam – o que funciona perfeitamente para a sua mensagem de “recordar o passado”. Mas The Last Hero of Nostalgia faz algo interessante com estes elementos? Infelizmente não. Os equipamentos, por exemplo, raramente afetam a nossa prestação em combate, com o dano sofrido a ser praticamente idêntico entre armaduras, apesar dos seus atributos indicarem mais pontos de defesa. São estes problemas que se amontoam e transformam este jogo numa experiência pouco satisfatória.

No fundo, The Last Hero of Nostalgaia procurou ser uma paródia com algum coração, cuja mensagem sobre o poder das memórias e do saudosismo poderia ter funcionado se as mecânicas acompanhassem a sua temática. Aquilo que encontramos aqui é a diferença entre um filme como Aeroplano e um Epic Movie, onde um procura parodiar inteligentemente os elementos do filme original, mas também funcionar como um produto independente, e outro serve como uma tentativa de encaixar o maior número de piadas fáceis sem grande contexto. The Last Hero of Nostalgaia é, infelizmente, um Epic Movie.

Cópia para análise (Xbox Series X) cedida pela Plan of Attack.

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