The Glenn Miller Orchestra – Regresso a um filme a preto a branco

por Bruno Rocha Ferreira

Um Grande Auditório do CCB muito bem composto, justificando data extra em Lisboa, recebeu a digressão nacional da The Glenn Miller Orchestra (neste caso, trata-se da versão britânica, formada em 1988 e com selo oficial das Glenn Miller Productions). Esta ghost band dedica-se ao reportório do célebre músico misteriosamente desaparecido sobre o Canal da Mancha em 1944, e é um caso sério de popularidade em Portugal.

Composta por cinco saxofones, quatro trompetes, quatro trombones, contrabaixo, bateria e piano, e liderada por Ray McVay, a atuação começa com “American Patrol”, e depressa se percebe que estamos perante uma máquina bem oleada, com alguns trombones a deslocarem-se para a frente do palco a assumir lugar de destaque. Esta espécia de carrossel vai ser, aliás, uma constante. Em seguida, “Little Brown Jug”, com desta vez a serem os joelhos dos saxofones a dobrar-se.

Se transparece como sendo uma rotina algo mecanizada, o facto é que também é entretido, e o som sai perfeito e sem falhar uma nota. Existe uma preocupação clara por não se instalar uma rotina, e o cantor Mark Porter surge em palco pela primeira vez para cantar o standard “My Prayer”.

Uma sala não esfusiante, mas quente, escuta “Copacabana” e “A String of Pearls”, sob a batuta calmamente confiante do maestro. A tarimba tem destas coisas, e sentimo-nos seguros na parte detrás deste carro.

Tempo para a entrada de Catherine Sykes, que será a vocalista de “I’ve Heard That Song Before”, num estilo clássico de baile de gala. Em tempos de grande relaxe no vestuário, estamos dentro de uma cápsula em que importa estar vestido em traje de gala.

“I Got a Gal in Kalamazoo” e “Begin the Beguine” são interpretadas antes de outro ponto alto, “Minnie The Moocher”, o êxito de Cab Calloway reinterpretado por esta Big Band.

Segue-se um clássico dos clássicos, “Moonlight Serenade”, com os metais a fazer perceber o porquê de se encherem salas com esta banda – é realmente diferente do que estar discos dos anos 40. “Trumpet Blues” e depois uma originalidade, um arranjo de Glenn Miller para o Concerto de Piano de Tchaikovsky. Divertida esta versão, daquilo que aparentemente era uma grande paixão do mestre, a música clássica, o qual fez três arranjos no total do compositor russo.

“Pennsylvania 6-5000” é tocado com a colaboração do público, e depois Mark Porter volta para uma comparativamente moderna “New York, New York”, escrita para o filme de Martin Scorsese do mesmo nome e passada nos anos da Grande Guerra. De forma surpreendente, temos direito a uma interacção com o público com as lanternas dos telemóveis no ar. Um momento ternurento.

Outra música célebre, “When the Saints Go Marching In”, popularizada por Louis Armstrong, com Catherine a voltar pouco depois para “As Time Goes By”.

De volta às músicas celebrizadas por Glenn Miller com “Chattanooga Choo Choo” e “Sing Sing Sing”, antes da primeira saída de palco. Após palmas em dose generosa por parte dos espectadores satisfeitos, o encore chega prontamente com “In The Mood”, provavelmente a mais célebre de Miller, e que foi ironicamente tocada no funeral de Peter Sellers, que nutria especial ódio pela composição. No CCB, bem recebida por quem sabe ao que vem, antes de um final “Adios”. Pela lógica das coisas, é mais provável que seja um até breve.

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