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Super Bock em Stock dia 2: A euforia dos Jungle e a melancolia dos The Saxophones

Começou cedo o último dia do Super Bock em Stock, isto já depois de termos recarregado baterias do primeiro dia. O músico brasileiro Zé Vito, que mora em Lisboa há um ano, subiu ao palco da Sala 2 do São Jorge ainda antes das 20h. Embora já conte com quatro álbuns em nome próprio, a verdade é que, de certa forma, ainda se está a apresentar ao público português. Nesse sentido, podemos dizer que marcou pontos, com uma atuação muito promissora.

Para além de cantor e compositor, Zé Vito é produtor musical, uma valência que ficou bem patente na forma fiel como conseguiu transferir para o palco o trabalho de estúdio. Para esse efeito, contou com a preciosa ajuda de um quinteto de instrumentistas, do qual se destacou o saxofonista Fábio Rangel, cujos solos entusiasmantes arrancaram merecidos aplausos.

Zé Vito no Super Bock em Stock
Foto: Amilcar Sousa

O alinhamento do espetáculo foi composto quase exclusivamente por temas de Além Mar, trabalho editado há escassos dias, que cruza a música popular brasileira com os territórios do funk/afrobeat. O novo álbum inclui um dueto com o fadista Marco Oliveira, que subiu ao palco para cantar não só “Cada um com a sua crença”, mas também para colaborar numa surpreendente recriação de “Colonial Mentality”: o tema instrumental de Fela Kuti foi misturado com a letra de “Eu vou ser como a Toupeira” de Zeca Afonso (ambos gravados na década de 70), tendo sido dedicado a um “Brasil das trevas” liderado por Bolsonaro.

À saída do concerto, alguém nos lembrou que Zé Vito é, também, um dos fundadores da Abayomy Afrobeat Orquestra, a primeira banda de afrobeat do Brasil. Abayomy significa “encontro feliz”. E foi exatamente isso que aconteceu na noite de sábado.

Já os Still Corners foram o primeiro nome a subir ao palco do Coliseu de Lisboa nesta segunda noite de música. A concorrência era forte – Lo-Fang estava a tocar, assim como Charles Watson, e Lolo Zouaï apresentava-se no muito concorrido Capitólio – pelo que a banda britânica não teve muita gente a vê-los. Na verdade, não me lembro de ter visto o Coliseu tão vazio nos primeiros temas. E eles não mereciam, de todo, ainda que achemos que teria sido mais sensato colocá-los num Cinema São Jorge ou num Tivoli BBVA.

Reza a história que a voz de Tessa Murray teve a sorte de se encontrar com as ideias do produtor e multi-instrumentista Greg Hugher, aos quais se viriam a juntar o guitarrista Leon Dufficy, o baixista Luke Jarvis e o baterista Jack Gooderham. E assim nasceram os Still Corners.

Still Corners no Super Bock em Stock
Foto: Mário Vasas

Ao vivo, a coisa funciona mais ou menos como em disco: é um som étereo com muito dream pop e synth-pop à mistura, ou seja, apostando-se forte nos sintetizadores e, aqui e ali, em bonitos solos de guitarra.

Ora mais expansivos, ora mais minimais, a música dos Still Corners, que até nos fazem lembrar, a espaços, os Beach House, irá encantar os adeptos de dream pop.

“The Message” e “The Trip” (excelente ao vivo), a terminar um concerto já com mais público a assistir, deixaram bons apontamentos para um regresso dos Still Corners ao nosso país. Aliás, foi mesmo isso que a vocalista Tessa Murray deixou antever, prometendo um regresso no próximo verão. Resta saber a qual festival.

Após o concerto dos Still Corners no Coliseu dos Recreios, a chuva levou a que muitos festivaleiros procurassem refúgio da chuva ali mesmo ao lado, na Casa do Alentejo, onde já atuava o duo israelita Lola March. Fomos lá espreitar e deparámo-nos com uma sala a rebentar pelas costuras. A vocalista Yeal Shoshana e o guitarrista Gil Landau trouxeram consigo um baterista, um baixista e um teclista e o mínimo que podemos dizer é que souberam conquistar o público.

Lola Marsh no Super Bock em Stock
Foto: Gustavo Veríssimo

Foi uma noite de perfeita comunhão entre uma banda verdadeiramente feliz em cima do palco e uma plateia que recebeu de braços abertos Remember Roses, disco de estreia editado no ano passado. Canções como “You’re Mine” e “Wishing Girl” deixaram a audiência completamente rendida. Noutros temas mais melancólicos, tais como “She’s a Rainbow” ou mesmo o tema que dá título ao álbum, a voz da vocalista soou como o resultado de uma admirável mistura entre Kate Bush e Lana Del Rey.

De forma triunfal, despediram-se ao ritmo dos anos 60 com uma versão blues-rock de “These Boots Are Made For Walkin’”, o clássico de Nancy Sinatra. A julgar pelo impacto muito positivo que deixaram, decerto que não demorarão a voltar.

Regressámos depois ao Coliseu para assistir ao concerto de U.S. Girls. O nome pode sugerir uma banda composta por mulheres mas, na realidade, é o projeto a solo da americana Meghan Remy. Um percurso que já conta com uma década de existência e com sete álbuns que são o reflexo de um talento multifacetado (para além do seu projeto musical, é também artista plástica e já filmou uma curta-metragem).

O alinhamento do espetáculo foi maioritariamente composto por temas de “In a Poem Unlimited”, trabalho editado no início deste ano. À sua música de contrastes, acrescentam-se letras com conteúdo pertinente e incisivo, que tanto abordam sentimentos primários como considerações políticas. Pegue-se por exemplo em “M.A.H.” (um dos momentos altos desta noite), onde expressa a sua desilusão com a administração de Barack Obama (“you took me for an eight-year ride, though you were never by my side”).

U.S. Girls no Super Bock em Stock
Foto: Mário Vasa

Longe vão os tempos em que Remy surgia sozinha em palco. A riqueza instrumental do novo disco – que mistura elementos de pop-rock experimental, jazz-funk e eletrónica – exige agora mais presença. Com uma taxa de ocupação média de 60% segundo a aplicação do festival, o Coliseu assistiu a uma atuação em jeito teatral, encenada por Remy e mais sete elementos, incluindo uma segunda cantora. Talvez essa teatralidade justifique a toada morna, quase em câmara-lenta, com que se desenrolou a primeira parte de um concerto que também foi prejudicado por problemas técnicos.

Os momentos mais mexidos surgiram na sequência de temas como “Rosebud”, “Pearly Gates” e “Damn That Valley”, este último extraído do álbum Half Free, lançado em 2015. Ou quando, já na reta final, os quase dez minutos sempre em crescendo de “Time” permitiram que todos os músicos brilhassem, numa cacofonia perfeita entre guitarra, bateria e saxofone.

Ainda assim, ficou a sensação de um concerto com altos e baixos. A surpresa chegaria poucas horas depois do espetáculo, com o anúncio de um concerto de U.S. Girls para o dia seguinte na Galeria Zé dos Bois. Uma segunda oportunidade para Meghan Remy e companhia se redimirem de um concerto que não chegou verdadeiramente a encher-nos as medidas.

A esta altura, o concerto dos The Saxophones seria o único concerto a decorrer – Rejjie Snow estaria a gastar já os últimos cartuchos – pelo que o casal Alexi Erenkov e Alison Alderdice foi abençoado com uma sala cheia (mas sempre em movimento graças ao posterior concerto dos Jungle) no Cinema São Jorge.

Embora sejam um duo, ao vivo apresentam-se também com o baixista Richard Laws. A banda, que se tinha apresentado nessa mesma semana no Hard Club, no Porto, tocava pela primeira vez em Lisboa os temas do EP If You’ re on the Water, de 2016, e do disco deste ano, Songs Of The Saxophones.

The Saxophones no Super Bock em Stock
Foto: Mário Vasa

E umas músicas depois, percebemos uma coisa: o São Jorge é uma sala demasiado grande para os The Saxophones. E não dizemos isto por um mau motivo. É que a música que sai de palco, aliada à voz de Alexi, é tão simples e minimalista, bela e suave, mas tão lenta que merece ser vivida o mais perto possível. Aliás, a sonoridade chega mesmo a ser mais “quieta” ao vivo que em disco. E isso até é bom, pois obriga a um silêncio e atenção extrema ao que está a ouvir e presenciar.

Talvez por isso, ao longo do concerto, o duo (trio ao vivo), que revelou estar em tour com os seus dois bebes e avós, nunca tenha recebido uma grande ovação ou chuva de aplausos. Pode ter sido por o público estar tão embevecido ou, simplesmente, por a música poder soar demasiado monótona. Quero acreditar que terá sido a primeira hipótese.

Por último, o nome mais esperado do festival, os Jungle, que encerraram esta edição do Super Bock em Stock.

À hora marcada, os vários elementos da banda subiram a palco perante um Coliseu quase a rebentar pelas costuras. Plateia e bancada cheios, camarotes cheios, e até no topo, lá em cima, o espaço estava coberto de gente. Reunidas as condições ideais, portanto.

Regressados a Portugal para apresentarem o segundo álbum de estúdio, For Ever, lançado no passado mês de setembro, os Jungle já gozam de algum estatuto por cá e eram, de longe, o nome mais sonante do cartaz. Há, porém, um problema: as canções deste segundo álbum não têm a mesma qualidade que as do primeiro disco.

Não obstante, o grupo abriu o concerto com “Smile”, faixa que abre o novo disco. Seguiu-se um dos singles, “Heavy, California”, já bem celebrado até porque tem passado nas nossas rádios, e, logo depois, um regresso ao primeiro disco com um dos melhores temas, “The Heat”, a mostrar todo o groove e soul dos Jungle.

Jungle no Super Bock em StockSe “Julia” nos passa um bocado ao lado, no lado oposto está o belíssimo single “Happy Man”, também este do segundo disco. Entretanto surgiram-se uma série de temas, quase todos do segundo disco, e que abrandaram um bocado o ritmo e a euforia do concerto. O que quer isto dizer? Que os Jungle não vão conseguir ter tanto feedback positivo com For Ever. Não se sente a mesma vibe, não há tanto soul e, de facto, não são muitas as faixas que se destacam, além dos singles e “House in LA”. Sim, é um álbum maduro, está muito bem produzido, mas não é a mesma coisa que o primeiro. Bem, nunca é, na verdade.

Neste tempo do concerto, houve ainda duas paragens quando os Jungle interpretavam “Crumbler” e “Lemonade Lake”. Chegou a temer-se o pior e muita gente aproveitou para apanhar  boleia ou transportes públicos, mas a banda lá regressou a palco. Essas músicas, porém, não foram mais tocadas.

Não tivemos direito a encore, mas os Jungle deram-nos um final fortíssimo, com temas oriundos, claro, do primeiro álbum: “Drops” (ao vivo torna-se bem mais épica que em álbum), seguindo-se da mais celebrada “Busy Earnin’” e, claro, nem a propósito, “Time”. Era tempo de dizer adeus, mas o Coliseu não se importava de mais umas quantas músicas. Para nós, foi um bom concerto, embora algo desequilibrado.

Não temos dúvidas que os Jungle foram uma aposta ganha neste Super Bock em Stock, fazendo uma festa bonita e com um ambiente incrível. Contudo, apesar dos bilhetes para o festival terem esgotado ao segundo dia, achamos que faltaram mais nomes fortes no cartaz deste regressado Super Bock em Stock. Agora, resta esperar pela edição do próximo ano.

Texto por: Alexandre Lopes e Amilcar Sousa


 

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