Silent Disco – Uma experiência de solidão coletiva

por Cláudia Silva

“Vens aqui regularmente? Vai ser uma grande noite.
 O teu lugar é aqui. Não te sentes livre?
 Blindado contra o mundo exterior?
 Não sentes que tens algo a dizer? Consegues dançar até à revolução?”

Este é o mote que designa o conceito de Silent Disco – um conceito cuja origem remonta a 1967. Neste ano, uma revista de mangá japonesa intitulada de Astroboy, no capítulo The Summer of 1993, a personagem principal vai a uma festa onde toda a gente utiliza auscultadores. Esta é a primeira referência conhecida, em relação ao conceito de utilização de headphones em espaços comuns. Mas é agora, em pleno século XXI, que a ideia começa a ganhar mais expressão no espaço das vivências nocturnas.

Foi em 2005 que começaram a surgir as primeiras festas silent disco, sendo que o seu epítome foi em 2016, adequando-se bem àquilo que são os ideais e as vivências da geração Millennial: dá-nos a liberdade de escolha e uma oportunidade para quebrar as regras, questionando o que é normal e o que aceitamos como normal. É, enfim, a tecnologia a unir as pessoas.

Prolifera um pouco por todo o mundo – de bares, a discotecas, a festivais de música (por exemplo Coachella ou Bonnaroo, para referenciar dois dos mais conhecidos) – e difere do conceito de discoteca convencional pelo facto do som dos DJ’s ser emitido através de um transmissor FM para os headphones (sem fio) que cada participante utiliza, ao invés de ser transmitida através das tradicionais colunas de som.

Sem os auscultadores, para quem observa de fora, parece que um grupo de pessoas está a dançar (e cantarolar) ao som de nada. Porém, para cada participante, esta experiência é extremamente imersiva e, de certa forma, dependendo da perspetiva de cada um, uma forma mais peculiar e poética de vivenciar a experiência de clubbing. Um ode deveras irónico à expressão popular “dança como se ninguém te estivesse a ver”. Porque, realmente, ninguém está.

Normalmente, neste tipo de festas, dois ou três DJ’s emitem os seus próprios alinhamentos, e cada participante pode escolher ao som de qual dançar, mundando a frequência nos seus auscultadores, bem como diminuir ou aumentar o volume. Uma experiência que acaba por ser bastante “personalizável” ao nível individual de cada um. Porque, afinal, cada pessoa vive a noite de uma forma diferente. Dependendo da frequência que cada participante escolhe, e que pode ir mudando à sua medida, a cor dos auscultadores também muda – o que complementa e cria um efeito visual bastante interessante!

Este conceito é popular, particularmente – e percebe-se porquê – em espaços nocturnos localizados em locais onde há queixas devido ao ruído elevado, possibilitando, igualmente, que se possa continuar a experiência mesmo para além do horário em que o ruído público passa a ser proibido. Uma resposta, no mínimo, criativa, à problemática da poluição sonora nas grandes cidades, onde espaços de habitação e de diversão noturna coexistem.

Do conceito geral para o particular, surge Alfredo Martins, diretor artístico do espetáculo Silent Disco, que teve lugar na discoteca Rive Rouge, no Cais do Sodré, em Lisboa, dias 11 e 12 de abril. Neste caso, mais do que a simples experiência de cada participante receber a música dos DJ’s através de um par de auscultadores, há toda uma história que é contada ao longo dos 50 minutos que compõem a sua atuação.

Afinal, não é só o dançar. É tudo o que o dançar significa. A mensagem subjacente de Silent Disco é abordar a experiência – hoje vulgarizada – das festas noturnas, reformulando esta vivência e trazendo à luz a questão da identidade que cada um de nós toma nestes espaços coletivos. A nossa identidade individual, num espaço comunitário, numa experiência que tem tanto de pessoal como de partilhada.

Segundo o que se pode ler no site d’a BoCA – Biennial of Contemporary Arts, organização cultural que co-produziu esta espetáculo – “esta criação procura especular sobre a natureza do clubbing como um ato de resistência, capaz de reconfigurar formas de reflexividade, afectividade e corporalidade. Identidades espectaculares, sexualidades múltiplas, consumos hedonistas, fisicalidade crua – poderão estes constituir-se como práticas políticas de resistência?”

O centro de tudo é o bailarino e coreógrafo Marco da Silva Ferreira que, na sua atuação de 50 minutos, nos convida a viver a expressão da dança, ao som de deep house, sempre acompanhado de uma narrativa que vai sendo relatada, enquanto somos incentivados a explorar e mover-nos livremente pelo espaço vazio da discoteca, deixando à escolha de cada um, viver esta experiência sozinho ou em simbiose com os outros participantes, sintonizando a energia com as pessoas ao seu redor.

E ali estás tu, num espaço partilhado, mas que é só teu, imerso e eufórico ao mesmo tempo, num misto de sons e sensações, a tua espinha dorsal como que uma serpente e o teu corpo que se contrai de dentro para fora – numa experiência que, no final, é de solidão coletiva.

Mas, no fundo, não importa se estás ali a afundar-te na tua própria alma ou se é o ato de nos unirmos com os outros, em silêncio, que é tão poderoso. Este tipo de evento criou todo um novo conceito: criar o nosso próprio festival de música, ao mesmo tempo que partilhamos o espaço físico com outros que criam os seus próprios submundos dentro dos seus mundos, entregues totalmente àquele momento.

Para quem gosta de novas e diferentes experiências, viver com emoções fortes e alguma intensidade, esta é, definitivamente, algo a experimentar. Tão singular, tão libertador! Tão bizarro que, quando acaba, o estranho é voltar à realidade.

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