Crítica – Severance

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Severance é mais uma aposta da Apple TV+ repleta de thrill e suspense em nove episódios que causam ao espetador uma sensação stressante, logo desde o primeiro minuto.

Texto por: Graça Pacheco

Com Ben Stiller a alcançar aqui uma boa prestação na cadeira de realizador, ator celebrizado em comédias de consumo mediano (Meet the Parents), mas também em alguns dramas de alcance mais profundo (While We’re Young), Severance reúne qualidades para vir a alcançar bastante sucesso no streaming da Apple.

Esta série de ficção criada e escrita por Dan Erickson, que se alinha com o thrilling psicológico pós-moderno de produções como Black Mirror (um conjunto de narrativas que retratam um futuro tecnologicamente distópico), conta com grandes nomes como Patricia Arquette, Christopher Walken e John Turturro. Desenvolve uma história sinistra, anelante, de frio suspense, centrada na figura de Mark (Adam Scott), um ex-professor de história que, depois de perder a mulher, Gemma, opta por ir trabalhar para uma empresa misteriosa, regida por altos padrões morais e funcionais, a Lumon Company. Porém, dos verdadeiros propósitos do seu novo trabalho é que Mark e os colegas – Irving (John Turturro), Helly R. (Britt Lower) e Dylan (Zack Cherry) pouco ou nada sabem.

A história começa com a rápida promoção de Mark a encarregado da equipa dos refiners (os refinadores de números), depois de esta se ter visto reduzida com o desaparecimento de um dos seus colaboradores, Petter (Yul Vásquez). Enquanto todos eles se vão conhecendo e crescendo dentro do seu labiríntico piso de paredes e tetos brancos asséticos, Mark começa a questionar a finalidade do seu trabalho, nos quatro terminais de computador onde executam a monitorização e gestão de uma série de dígitos dispostos aleatoriamente nos seus ecrãs. “O que será que estes números representam?”, perguntam a certa altura. Um deles responde com uma pergunta ainda mais inquietante: “E se estes números representarem pessoas? Como saberemos se o que estamos a fazer não é dar ordem para as matar?”

Mas o thrill não se fica por aqui. Alguns elementos mais inquietantes deste cenário em que a tecnologia futurista é posta ao serviço de uma maior produtividade contribuem para formar uma atmosfera profundamente maquiavélica que perpassa todos os instantes da cena. Em primeiro lugar, a severance (rutura ou separação, em português): a cisão interior do indivíduo, assegurada através de um procedimento cirúrgico que implanta no cérebro do colaborador uma cápsula ou chip. Este permite acionar a separação interna das memórias, à entrada e à saída do trabalho, concretamente, durante a subida e a descida do ascensor (não é por acaso, já que, como é sabido, este mecanismo se tornou num importante e simbólico meio da ficção de terror).

Assim, o implante cirúrgico no cérebro dos colaboradores é o que permite controlar-lhe os fluxos da memória à entrada e à saída da empresa, impedindo-os de se deixarem influenciar no trabalho pelas suas emoções pessoais ou de transportarem consigo, para o exterior, os segredos da empresa. Outro aspeto arrepiante é o facto de o conselho superior da Lumon nunca se dar a ver: este só comunica com as suas estruturas hierárquicas através de uma voz quase inaudível e abafada que passa através de um intercomunicador. Este ambiente sedicioso e excruciante é coadjuvado pelo mapa labiríntico da empresa, que dispõe de uma Breaking Room, onde são interrogados os funcionários que não seguem as regras, ou de uma Perpetuity Room, onde os funcionários têm o privilégio de aceder à memória e aos princípios dos fundadores da Lumon, os Eagen. Estes patriarcas surgem dispostos numa galeria-museu onde fora recriada a casa da família fundadora, um átrio cinéreo e profundo no qual todo o clã é exibido num aparato de estátuas de cera falantes.

De resto, toda a intriga se centra no protagonista, Mark (Adam Scott), a partir do momento em que é informado da sua promoção a encarregado da secção dos refiners. Esta inesperada ascensão de um homem mediano dentro da hierarquia empresarial acontece depois da cena inicial, na qual vemos Mark dentro do seu carro, no parque de estacionamento da empresa, num ataque de choro convulsivo, e depois a entrar no serviço, já como um Mark compenetrado e neutro, sem qualquer perturbação. Ao longo de nove emocionantes episódios, vamos então compreendendo a sua vida e as razões que o levaram a aderir à Lumon. De peripécia em peripécia, o homem comum e passivo irá, ele mesmo, questionar as causas e as razões da despersonalização individual exigida pela empresa e os mistérios da refinação dos números, cujos efeitos nocivos se tornam visíveis no seu antecessor, o colega que tentara escapar ao apertado controlo e à aniquilação pessoal (Peter).

Severance

O retrato da amizade e da importância do espírito de equipa, aliados ao instinto de sobrevivência, são outras das importantes qualidades desta fantástica série que alia a ficção científica ao suspense, aos quadros noturnos, à luz declinante e gelada das paisagens frias e em que o sinistro se associa a uma bela banda sonora cheia de sugestividade e em que a história se desenvolve com várias outras personagens que, embora mais secundárias, dão importantes contributos para o desenvolvimento do enredo.

Mas mais importante ainda é que as questões equacionadas são já, ao fim ao cabo, uma realidade na sociedade cosmopolita e altamente competitiva de hoje, o que merecerá certamente, aos olhos dos espetadores, um lugar de honra para esta série.

Os dois primeiros episódios de Severance estreiam a 18 de fevereiro na Apple TV+, seguidos de um novo episódio semanal às sextas-feiras.

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