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Se o Joker fosse poeta seria o Álvaro de Campos

Numa manhã enquanto caminhava para o trabalho lembrei-me de um verso que há muito tinha esquecido: sentir tudo de todas as maneiras. A primeira vez que o li tinha 17 anos e memorizei-o como se fosse uma fé da qual tinha que ser praticante. Dois anos mais tarde, voltei-me a encontrar com o Álvaro de Campos, mas, em vez de um verso, tinha um poema:

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.”

Com 17 anos não teria percebido as palavras deste poema, mas bastaram dois anos para ele fazer sentido. Aos 19, senti que a minha própria ambição pelo mundo me tinha mastigado e cuspido no mesmo instante e o sentimento era de injustiça e desilusão. Agora, aos 24, releio Álvaro de Campos e esboço um sorriso porque sei que já não pertenço às entrelinhas dos poemas dele. Mas personagens como o Joker estarão para sempre encurraladas nos sentimentos que ele alinha em estrofes. 

O Joker de que falo é aquele que eu vejo e entendo pelos meus próprios olhos. Não é necessariamente o Joker deste filme recente nem outro dos filmes passados. Aliás, ainda nem sequer vi o filme que acabou de sair, mas já vi o trailer e tenho que admitir que foi isso que me trouxe aqui.

Depois de ver o trailer, comecei a refletir sobre ele e dei por mim a pensar na fome que o Campos tem pela existência das coisas e de como a sua própria humanidade o deixa tão infeliz. Eu acho que o Joker também é assim. Um homem que se torna louco porque não encontra mais nenhuma forma de proteção.

Quando penso na loucura do Joker, imagino que o seu ponto de partida tenha sido este:

Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me entreguei-me.
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.

O que aqui se apresenta é uma tremenda vontade de abarcar tudo dentro da mesma alma e devorar tudo com a mesma intensidade. Mas o problema é que o corpo é demasiado fraco e a mente também. E depois, quando se olha em redor, vem o escárnio e o desprezo, o desejo de dilacerar aqueles que se contentam com uma vida pequena. Uma vida ajustada à aparente inutilidade que é a condição humana. 

Sou vil, sou reles, como toda a gente,
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.

Não podemos negar que existe aqui alguma verdade. Porém, esta é só uma parte. A realidade é muito mais densa e intrincada. A vida que o Joker e o Álvaro de Campos vêem é unidimensional e tendencialmente pessimista porque estão demasiado cansados para continuar à procura. A pergunta que os passa a mover transporta-os para uma dimensão diferente da nossa: Quando é que despertarei de estar acordado? – é a esperança que os mantém vivos.

Mas o pior de tudo é o peso que carregam, a ideia que os atormenta:

Sou quem falhei ser
Somos todos quem nos supusemos
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca. 

Tanto o Joker como o Álvaro de Campos são compreensíveis, mas não sei se serão perdoáveis. Todos nós enfrentamos dores, mas a loucura deles só é permitida porque nós mantemos a nossa sanidade. Ainda que tenham começado como vítimas de coisas que não escolheram, tornaram-se loucos por causa dos atos de coragem que se recusaram a ter. E isso não é culpa do mundo. 

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