Enquanto Harvest Moon e Story of Season apostam em histórias simples sobre quintas e aldeias em busca de futuro, Guardians of Azuma atira-se de cabeça para o género RPG, desliga a sua mente e enche-nos de sistemas, missões e conteúdos secundários até rebentarmos.
Lavrar, plantar, colher, construir, arranjar e alimentar. Estes são alguns dos verbos que caraterizaram, quase até às fibras das suas mecânicas, séries como Harvest Moon e Story of Seasons. É um retrato fantasioso e certamente mais acessível daquilo que é a vida de campo e dos dias que começam ainda de noite, onde os nossos camponeses virtuais já colhem os frutos plantados e alimentam os animais da sua quinta antes do sol nascer. As séries da Natsume e da Marvelous, que são, não só em género, como em pequenas polémicas criativas, duas rivais eternas, apostaram numa experiência quase única nos videojogos: a beleza do quotidiano. Atirar sementes para a terra lavrada, regar com água ainda fresca e depois colher com amor e carinho, para depois vender e lucrar, davam lugar também a relações pessoais que alimentavam a narrativa de cada uma das suas sequelas. O neto que herda a quinta, a sonhadora que troca a cidade pelo campo, entre outras histórias previsíveis, desdobraram-se em aventuras simples, mas eficazes, que agarraram os jogadores através da possibilidade de verem as quintas a crescerem, mas também a família e legado dos seus protagonistas.
Como se tratam de experiências tão particulares e únicas, não é de admirar que a Natsume e a Marvelous procurassem formas de expandir as séries além da jogabilidade que as popularizou. O segredo seria manter a natureza quotidiana e de simulação das séries, mas encontrar o elemento-chave para elevar a experiência a um novo patamar. Como seria de esperar na indústria dos videojogos, a resposta foi adicionar batatada. Assim nasceu Rune Factory, o spin off, a série onde cultivamos campos de manhã e matamos toda a fauna à noite (ou vice-versa se quiserem). Como a porrada atrai sempre novos jogadores – e aqui estou, não vou mentir! –, Rune Factory rapidamente ganhou um lugar no panteão do género e recebeu várias sequelas que procuraram equilibrar a simulação com a experiência mais próxima aos RPG. Depois de 20 anos de evolução, Rune Factory: Guardians of Azuma é um reafirmar do que tornou Rune Factory especial para os fãs do género, primeiro no PC e nas consolas da Nintendo, e agora disponível na PlayStation 4, PlayStation 5 e Xbox Series X|S para encontrar um novo público.

A experiência Rune Factory mantém-se intacta, agora com um foco mais narrativo e com personagens-cartão, mas que servem o seu propósito. Desta vez, a protagonista é Kaguya – ou Subaru, se preferirem, já que temos a escolha -, existem dragões à batatada nos céus de Azuma e o mundo está em perigo, mas a missão é a mesma: cultivar sementes, cuidar das aldeias, fazer amizade com tudo e todos, construir novas casas e lojas, e ser feliz. Guardians of Azuma é um simulador da vida adulta devido aos seus inúmeros sistemas e barras de progressão que temos de gerir enquanto os dias passam, as estações mudam e o dinheiro continua a fluir (ou não). Como chefe da aldeia, temos de selar pelos nossos conterrâneos e gerir os seus números, funções e habitações enquanto recrutamos novos membros e expandimos a rentabilidade e comércio da aldeia. Em poucas horas, depois de vários tutoriais obrigatórios – mas que funcionam muito bem como introdução para as mecânicas e sistemas principais do jogo –, começamos a gerir aldeias diferentes, as relações pessoais com o elenco principal, a resolver problemas da comunidade, a terminar missões secundárias e a garantir que a rentabilidade é suficientemente alta para garantir que ninguém passa fome. Com um sistema de energia (ou stamina, se preferirem), que limita o número de certas ações por dia, e com um ciclo de dia e noite, que determina o funcionamento de certas lojas e personagens, passamos a ter de gerir um dia de trabalho enquanto a intensidade e a ansiedade aumentam.
Para relaxar e diminuir o stress, lá vem a famigerada batatada à baila. Guardians of Azuma recusa-se a ser um farming simulator, e abraça os clichés RPG com tanta força que até se magoa. Como RPG de ação, o novo título da Marvelous não traz consigo surpresas, abordando o seu sistema de combate quase como um extra à experiência popular da série. Kaguya tem acesso a várias armas, que pode melhorar e evoluir, várias árvores de atributos, habilidades únicas e ainda a possibilidade de criar uma equipa com todas as personagens secundárias. Os confrontos são satisfatórios, mas pouco memoráveis, com combinações de ataque sem grandes surpresas, ainda que existam diferenças de velocidade, peso e eficiência entre os tipos de armas. Se existe um elemento diferenciador em Guardians of Azuma tem de ser as Dance of Bonds, habilidades de dança e musicalidade com ataques mais poderosos e que afetam todos os monstros à nossa volta. Uma adição competente, mas quando o sistema de combate é identificado através de chavões como “é funcional”, “podia ser pior” ou “é excelente para desligar a mente”, ficamos a saber tudo sobre o que nos espera ao longo da campanha de Guardians of Azuma.

Os confrontos acontecem quando saímos das aldeias e exploramos as zonas principais de Azuma. As florestas, templos, planícies, praias que se dividem por corredores, arenas e locais de interesse que procuram imitar o que esperamos de um mundo aberto. O tamanho das zonas não surpreende, mas há que admirar a tentativa quando Guardians of Azuma vive da repetição e das recompensas constantes. As zonas oferecem pouco em termos de exploração, momentos de plataformas ou confrontos únicos, que aproveitem o espaço ao máximo, mas compensam pela dopamina que libertam sempre que jogamos. A nossa atenção é constantemente guiada através de árvores que podemos curar, baús escondidos, estátuas de sapos e um leque constante de recursos que podemos e devemos recolher para utilizarmos na nossa aldeia. O design de Azuma não é memorável, ainda que as zonas sejam coloridas e povoadas por inimigos – e na versão PS5, não registei quaisquer problemas técnicos até nas zonas mais extensas –, mas serve o seu propósito em manter os jogadores o mais ocupados e satisfeitos possível ao longo de várias horas.
Rune Factory: Guardians of Azuma é muito mais do que Story of Season com combate. É um bom RPG de ação, só que desprovido de surpresas. É um bom farming game, ainda que me tenha deixado ansioso. Nem sempre é interessante enquanto aventura clássica e as suas personagens são clichés andantes, mas servem a ambiência mais descontraída e acessível da série ao darem corpo a um sistema social simples, mas eficaz. Guardians of Azuma é um jogo que se torna rapidamente num mestre de nada, mas isso pouco importa quando se entranha na nossa vida e apodera-se das nossas horas enquanto nos convence a fazer mais uma missão ou a plantar mais uma couve antes de desligarmos. Se deixarmos, Guardians of Azuma tem conteúdos suficientes para nunca mais nos largar. É quase como uma versão mais acessível e menos viciante de Fantasy Life, mas os sistemas estão lá para aqueles que procurem uma experiência nem sempre descontraída, mas certamente recompensadora.
Cópia para análise (PC) cedida pela Decibel PR.
