Romancing SaGa: Minstrel Song volta a provar que a série SaGa não é para todos. Com sistemas pouco convencionais, liberdade excessiva e quase nenhuma orientação, esta remasterização pode ser refrescante para uns, mas frustrante para quem prefere JRPG mais tradicionais.
SaGa é uma série peculiar – vá, não que tenha grande experiência. Pois só consegui terminar Romancing SaGa 2 quando me habituei aos seus detalhes menos convencionais, mas acabei por gostar. Já quando arrisquei em Scarlet Grace é que disse que não era uma série para mim. Dessa vez, esses detalhes acabaram por vencer e paguei a minha taxa de impulsividade, que por falar nisso, ainda tenho ali o malfadado Unlimited SaGa por jogar, mas esse será um problema para o André do futuro.
Ainda assim, quis certificar-me de que o problema era dos jogos e não meu, tanto que me lancei a Romancing Saga: Minstrel Song – Remastered. E confirma-se: sou um menino do tradicional e linear, e não destes sistemas que se aproximam da liberdade de um jogo de tabuleiro, para o bem e para o mal. No entanto, quando faz clique, acredito que seja uma experiência refrescante face ao que descrevi para mim.
Num bocadinho de contexto histórico, o primeiro Romancing SaGa foi lançado em 1992 na Super Nintendo, mantendo-se exclusivo dessa plataforma até à versão 3D para a PlayStation 2, já com o título Romancing SaGa: Minstrel Song. No entanto, SaGa Frontier foi um dos primeiros jogos da série a chegar ao mercado ocidental, apesar de corresponder já ao sétimo título de uma franquia que, nos seus primórdios, chegou a usar o nome Final Fantasy Legend na Nintendo Game Boy. Estes jogos acabaram por chegar até nós sobretudo através de remasterizações e lançamentos digitais na Nintendo Switch e noutras plataformas. E porque as remasterizações desses títulos despertaram o interesse na franquia, este “novo” lançamento foi mais do que natural, mas… E há sempre um mas.

SaGa, no geral, opta por ignorar muitas das convenções do género dos JRPG em prol de uma abordagem mais experimental. Em vez de um protagonista, ou bando fixo, podemos optar por uma entre várias personagens que se juntam a outros NPCs que podemos recrutar. Esta escolha inicial vai afetar como abrimos a história e moldamos os restantes eventos. O positivo é termos várias experiências personalizadas, o menos positivo é termos de jogar o jogo várias vezes, com o bom e o mau que pode trazer.
Em Minstrel Song, existem oito personagens para escolher, cada uma a começar numa parte completamente diferente do mundo: Albert, Aisha, Gray, Claudia, Jamil, Barbara, Sif e Hawke. As estatísticas iniciais variam entre personagens, o que se traduz num início mais acessível face a um mais experiente, mas esses picos de dificuldade deixam de ter grande impacto à medida que as horas de jogo avançam.
Cada personagem tem uma introdução única – e de qualidade variada -, para depois ser largada no vasto mundo de Mardias para abordar a campanha principal e as inúmeras missões secundárias à nossa vontade. Esta introdução também acaba por ser o parco desenvolvimento que cada uma vai receber porque o que acaba por interessar é a premissa e o mote da aventura, e não as motivações dos protagonistas. O que, para mim, é sempre um ponto negativo porque se torna difícil relacionar com o elenco. Para além destas, vamos encontrar o bardo, ou Minstrel, em cada taberna que ou se junta a nós ou desenvolve os fios finíssimos da narrativa. Em suma, SaGa é mais pela jogabilidade e menos pela história.
A liberdade com que somos lançados em Mardias acaba por ser uma faca de dois gumes. A ausência de marcadores de missões, aliada a uma narrativa escassa e a orientações vagas, faz-nos perder demasiado tempo a explorar um mundo que nem chega a ser interessante. Com pouca ênfase na história, o combate assume o papel central, apoiado em várias mecânicas próprias, entre as quais a gestão do grupo surge como uma das mais importantes neste Romancing SaGa, embora de forma impessoal.

Existe ainda uma espécie de permadeath que acaba por nos fazer perder tempo até recrutarmos mais um aventureiro genérico ou um dos outros protagonistas iniciais. Cada personagem dispõe de um número limitado de pontos de vida, que decresce sempre que ficamos sem pontos de ataque em combate. Estes últimos são recuperados no final de cada confronto, mas os pontos de vida só podem ser restaurados em estalagens. Quando chegam a zero, a personagem desaparece definitivamente, com a óbvia exceção do herói. O próprio Minstrel pode também ser recrutado e utilizado para expulsar membros do grupo, caso seja necessário libertar espaço.
Em vez de um sistema tradicional de níveis, Romancing SaGa: Minstrel Song adota uma abordagem própria no desenvolvimento das personagens, onde atributos como HP, Agilidade e Vitalidade evoluem aleatoriamente após as batalhas. É possível equipar várias armas em simultâneo, e a sua utilização repetida pode desbloquear ataques especiais, utilizáveis no mesmo combate. No entanto, esses ataques consomem Durability Points, o que obriga a visitas frequentes ao ferreiro ou à estalagem para serem restaurados, forçando uma gestão mais ponderada dessas habilidades.
Cada personagem tem uma Classe predefinida que requer visitas a Mentores específicos para a treinar. Mudar de classe ou evoluí-la também não é uma tarefa linear, uma vez que envolve cumprir com requisitos específicos para poder trocar. E quando digo “cumprir com”, quero dizer “passar horas a fazer grind” para desbloquear habilidades ou ganhar joias para pagar aos Mentores. São sistemas com alguma sinergia, mas pouco convencionais. Não é por acaso que o sistema tradicional de níveis continua a ser tão popular.

Mas nem oito nem oitenta, se criticamos os jogos de hoje por guiarem o jogador em demasia, Minstrel Song segue o oposto. Se chegou a ser inovador no que diz respeito a mundos abertos, hoje é só antiquado e frustrante. Mas essas frustrações podiam ter sido suavizadas com mais algumas mecânicas mais atuais e QoL features. A ausência de orientação deveria puxar à exploração, mas quando o mundo tem zero de apelo, torna-se num exercício de frustração quando só esbarramos em fetch quests, e não conseguimos avançar na campanha principal. Certo, algumas poderão influenciar a mesma, mas a que custo?
E por falar em mecânicas atuais, seria desonesto não falar de uma de uma das melhores, como o aperto do R3 (no DualSense da PlayStation 5) que acelera o jogo. Se há coisa que agradeço quando revisito jogos antigos é a abertura para agilizar as partes mais morosas, como os loadings que ainda são alguns entre exploração e combates.
Se trabalharam as texturas e a resolução deste Minstrel Song, há algo que continua a não me convencer nos visuais e na tradução da arte de Tomomi Kobayashi para 3D. Não quero usar a expressão “feio” porque a beleza é subjetiva, mas os meus olhos não comeram e isso é um entrave, se vou ter que passar horas a olhar para alguma coisa. A banda sonora até se safa, mas não por muito.
Olho para os jogos SaGa como aquele primo estranho num jantar de família de JRPG; e Romancing SaGa: Minstrel Song não é uma exceção. A série que tenta constantemente inovar, muitas vezes dando prioridade à experimentação, mas esquece-se do mais importante, que é da diversão. Existem ideias interessantes, mas a implementação é inconsistente, se o sistema de combate é um dos pontos de destaque, a ausência de estrutura entre as missões principais e as secundárias é o que arrasta o pé deste jogo. Os fãs hardcore de SaGa vão provavelmente aceitá-lo como parte das excentricidades da série e divertir-se. Já os fãs de JRPG mais casuais dificilmente encontrarão aqui aquilo que procuram. Eu não encontrei.
Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Red Art Games.
