Sigur Rós no Campo Pequeno – Viagem ao fim da noite

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Os Sigur Rós são por vezes difíceis, mas são tão especiais, tão únicos e tão difíceis de explicar. Fantástico.

Muita animação no Campo Pequeno, desde os restaurantes cheios no Arco do Cego, perto de onde estreia peça de teatro na Culturgest, até ao redor da praça de touros. A noite amena ajuda e há filas grandes para entrar (dificuldades na validação dos bilhetes desajudaram nesse facto). Na fila da bilheteira, um cavalheiro com aparência e pronúncia nórdica no modo de falar inglês pergunta se ainda há bilhetes. Há, mas do lado de dentro do acesso um cidadão oferece-lhe um bilhete porque a companhia afinal não vem. É bonito.

Passada a fila, poucos minutos depois das 21h começa o concerto há muito aguardado, com um hiato de nove anos desde o último em Lisboa. Projeção laser a vermelho com carácter quase astral, está lançado o ambiente para a noite de verdadeira maratona – quase três horas de concerto. Uma duração invulgar para uma banda invulgar, com a voz suave, por vezes em falsete, de Jónsi Birgisson rapidamente a conquistar o silêncio de um Campo Pequeno não esgotado, mas cheio. A sequência inicial, com “Untitled #1 – Vaka”, “Untitled #2 – Fyrsta” e “Untitled #3 – Samskeyti”, do icónico album (), de 2003, a garantir a atenção respeituosa do público que apresenta uma mistura de t-shirts de bandas de diversos estilos – sempre um bom sinal.

Por falar em t-shirts, uma das que estava à venda na bancada de merchandising cá atrás no redondel sintetiza de forma perfeita a banda – Slow & Loud. Uma definição simples para um fenómeno ao mesmo tempo complexo e uma essência primordial, que navega entre o puramente instrumental e as vocalizações em Islandês ou em Vonlenska, sons puramente com o objetivo de acompanhar os instrumentos. Em cena, além do vocalista e multi-instrumentista, Georg Hólm e Kjartan Sveinsson, os outros membros do trio, estão aqui acompanhados por Ólafur Ólafsson, baterista, completando a formação dos islandeses nesta noite.

Neste percurso intercelestial, Takk ocupa também lugar de destaque, em especial após o interlúdio (“Andvari”, “Glósóli”, “Gong”, e “Sæglópur”, com a escalada lenta de “Heysátan” a ser interpretada ainda na primeira parte). Por vezes harmonioso, por vezes estridente, quase violento, o som dos Sigur Rós, nome que advém do nome da irmã de Jónsi, Sigurrós, nascida mesmo dia em que a banda foi formada, em 1994, tem sido catalogado com pós-rock. Definição que se percebe, mas que neste caso é especialmente simplista, aqui ainda mais do que em outros exemplos de artistas conotados com aquele rótulo. O jogo visual foi também sempre constantemente renovado ao longo do tempo, jogando um papel importante na experiência para os presentes, desde uma chuva de raios dourados, a uma dança de luz a dardear pelo ecrã de fundo, a um jogo de luzes e nevoeiro.

Foi noite também de novidades, com “Gold 2” e ”Gold 4” (em especial as teclas desta última a destilar beleza), cada uma na sua parte, a serem apresentadas pela primeira vez em Portugal, a adicionar novas camadas a uma discografia que já vai em 25 anos.

Sabiamente, a etapa complementar desta maratona teve um tom mais, para ser redutor, animado, após a experiência de intensidade quase esgotante do início, tal a imersão na experiência e a força das músicas. A já mencionada “Glósóli”, melodia leve, quase de canção infantil, é disso o melhor exemplo, bem como “Festival”, a arredondar a dureza boa que é conseguir absorver tanta coisa que sai fora da zona de conforto da habitual ida a um concerto, as quais vão rodando com a maior rudeza “Untitled #6 – E-Bow”. Os Sigur Rós são por vezes difíceis, mas são tão especiais, tão únicos e tão difíceis de explicar. Fantástico.

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