Mastodon na Sala Tejo: O poder do riff

Numa noite de domingo com algumas gotas de chuva indiscretas, Lisboa assistiu ao regresso dos Mastodon pela segunda vez à Sala Tejo e pela quase décima vez ao nosso país – em perto de vinte anos de carreira é certamente uma assiduidade de que os fãs se podem regozijar. A passagem anterior, em 2017, foi precisamente no mesmo espaço, já com Emperor of Sand fresco na bagagem, álbum que vê, assim, o seu ciclo de promoção a chegar ao fim nesta última data desta digressão europeia.

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Pela terceira vez consecutiva em nome próprio, não deixa de ser curioso pensar que a banda que tantos anos demorou a visitar-nos sem ser como banda de abertura ou inserida em circuitos de festivais é agora um dos grandes nomes da música pesada – muito além do que as suas raízes mais barulhentas o apontariam – e inclusive permita que outras bandas se estreiem no nosso país, como foi o caso de Mutoid Man.

Na primeira parte, a banda de Stephen Brodsky (Cave In) e seus companheiros – com especial destaque para Chris DiMaggio (ex-Coliseum e ex-Trap Them) a substituir um lesionado Ben Koller (Converge) – apresentou-se com os seus trejeitos algo heavy metal, numa mistura rock’n’roll, hardcore punk e alguns apontamentos mais math que parecem já embebidos no ADN do guitarrista e vocalista.

O trio aproveitou a ocasião para apresentar primordialmente War Moans, de 2017, percorrendo tanto os singles “Kiss of Death” e “Date with the Devil”, como a descarga energética de “Micro Aggression” ou “Melt Your Mind” e o seu refrão orelhudo, não se esquecendo de visitar o primeiro álbum, Bleeder, e o EP que o antecedeu, Helium Head, através de “Bridgeburner” e “Gnarcissist”, respetivamente.

A boa disposição do coletivo –por vezes a resvalar para um humor propositadamente cheesy, visível essencialmente pela postura do seu frontman – mostrou-se uma escolha apropriada para aquecer a plateia, mesmo que o som não estivesse à altura – viria a melhorar de banda para banda, sem nunca alcançar a nitidez desejada.

Logo de seguida, os noruegueses Kvelertak elevaram a fasquia e exibiram um pouco mais de garra, nesta que seria a sua segunda aparição em território nacional, um ano depois de serem a banda de abertura dos Metallica. Nada mais nada menos que três guitarras, um som bem abrasivo, um novo vocalista que não parava quieto e uma boa atitude e presença em palco deixaram os que não conheciam a banda norueguesa de ouvidos no ar e de atenção agarrada.

Numa sonoridade algures entre o black’n’roll dos Turbonegro e o punk moderno dos Refused, nem o facto da banda cantar exclusivamente na sua língua materna impediu a plena interação com o público, que deu, assim, sinal das primeiras movimentações mais sentidas.

Numa performance curiosamente pouco focada no seu último disco, Nattesferd, de 2016, do qual ainda se ouviu “1985” e “Berserkr” sensivelmente a meio, a ênfase foi antes dada ao seu segundo disco, Meir, de 2013, com, por exemplo, “Åpenbaring”, “Bruane Brenn” e “Kvelertak”, sem deixar passar “Mjød” ou “Blodtørst” do primeiríssimo homónimo. A energia ao longo da entrega foi tal que terá ficado uma vontade generalizada de voltar a ver os nórdicos em concerto próprio, quiçá num futuro não muito distante já com novo disco.

Por fim, o conjunto de Atlanta mostrou-se, como sempre, igual a si próprio. Cabeças de cartaz da noite, já com todas as provas dadas, a surpresa por parte dos Mastodon só poderia surgir pelo encaixe do alinhamento. Entrando em força com “Iron Tusk”, do álbum Leviathan (2004), logo seguido por “March of the Fire Ants” (para alguns fãs, o primeiro “single” da banda) e “Mother Puncher”, ambos temas retirados do primeiro álbum, Remission (2002), foi sem dúvida um começo com o pé no acelerador.

A banda mostrou-se extremamente bem oleada, prova cabal dos excelente músicos que já são desde o início, a tocar ao seu jeito descomprometido como se fosse fácil tocar tamanha complexidade de um modo tão apelativo.

Por entre um som por vezes algo inconstante na mistura das quatro vozes, ou noutras ocasiões com as notas a dispersarem-se demasiado pela amplitude do espaço, música a música percorreram uma discografia já bem respeitável, com a coesão e precisão que lhes são conhecidas. Depois de um recuo para “Chimes At Midnight”, do anterior Once More ‘Round the Sun (2014), seguiram-se duas músicas do último registo, “Steambreather” e “Precious Stones”, mais tarde tocando um terceiro e último do mesmo, “Ancient Kingdom”.

Daí seguir-se-iam referências a todos os longa-duração anteriores: de “Sleeping Giant” e “Capillarian Crest” a “Crystal Skull” de Blood Mountain (2006), o progressismo de “Ghost of Karelia” e a faixa homónima de Crack the Skye (2009), “Black Tongue” de The Hunter (2011), o riff imenso de “Megalodon”, a pop de “Ember City”… Até na dupla “Spectrelight”/”Aqua Dementia” quase que dava para imaginar uma quinta voz, a de Scott Kelly (Neurosis), a entrar em palco!

A terminar, como seria de esperar, os gritos em uníssono de “White Whale/Holy Grail”, com “Blood and Thunder” a fechar o set e a deixar todos os presentes em êxtase, deixando Brann Dailor, como sempre, nos agradecimentos finais, contabilizando as emoções de todas as vezes em que passaram por cá.

Para quem acompanha a banda desde as suas origens, por certo que uma ideia se mantém: quem os viu e quem os vê. Quase vinte anos de banda, sete álbuns lançados, mais um par de EPs, inúmeros prémios e menções, “lots of guitar riffs and drum fills” (como apontou Brodsky ao apresentar a banda), uma identidade própria, um lugar já cimentado… Nada mal para uma banda inicialmente considerada um offshoot de Today Is The Day. Respect.

Texto de: Tiago Luís e Pedro Silva; Fotos de: Carlos Mendes

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