Reply 1988, uma série sobre todos nós

Envelhecer é uma coisa estranha. Principalmente quando estamos na casa dos 20. A determinada altura as pessoas começam a ouvir o que temos para dizer e ainda há quem nos subestime, é certo, mas não é como quando éramos miúdos. Começam a haver expetativas e assunções acerca do que sabemos fazer ou que já devíamos saber fazer. Por um lado é relativamente engrandecedor, a nossa opinião passa a ter alguma validade, por outro lado, é só mais responsabilidade.

Pode parecer caricato, mas só me dei conta desta mudança há um ou dois anos quando terminei de ver a série Reply 1988. Antes de a ver já sabia que não era uma adolescente, mas, quando vi o último episódio, dei por mim a pensar na minha mortalidade.

Primeiro, apercebi-me que a minha infância tinha morrido. Sei que se apresenta um pouco dramático escrever isto, mas foi assim que as coisas me pareceram. A palavra “acabar” ou “terminar” não representam o luto que senti quando me dei conta dos anos que já se tinham passado. Reply 1988 faz-nos reviver todas aquelas memórias que marcaram a nossa infância. A maneira como brincávamos, a forma como os nossos pais soavam, a presença dominante dos nossos irmãos ou irmãs mais velhas que pareciam existir apenas para nos mandarem fazer coisas… A vida era só nossa e as pessoas eram personagens que se ajustavam ao modo como entendíamos a realidade. Tudo era simples mesmo quando incompreensível.

Reply 1988 é uma série sul-coreana que se passa no ano de 1988. Eu nasci no ano de 1995 e passei toda a minha vida numa aldeia portuguesa que tem menos de 1000 habitantes. E, apesar de tudo aquilo que nos podia distanciar, aquilo que nos aproxima é universal. As vizinhas corriqueiras da vizinhança, as mães que gritam pelos filhos para estes virem jantar, pais que ganham pouco mas mesmo assim emprestam dinheiro aos amigos, adolescentes que se apaixonam pela miúda chata do lado – tudo isto é humanidade seja em que sítio for.

Reply 1988 é um álbum de recordações e cada episódio é um momento formativo da nossa infância ou adolescência. Acompanhar o crescimento das personagens e a evolução das suas vidas é um lembrete constante de como nos transformamos a cada instante. Mas o mais difícil é quando as personagens concretizam o inevitável ritual de passagem – a saída da sua casa de infância.

O último episódio retrata isto e, quando o vi a pequenez das coisas que contam a minha história, tornou-se palpável. Não sei se acontecerá o mesmo convosco, mas duvido que fiquem indiferentes. A nostalgia das personagens torna-se nossa e, mesmo que não tenhamos passado pelo mesmo, sentimos a saudade que eles sentem. É uma daquelas coisas estranhas – uma espécie de sentimentalismo comunitário que se instala só porque somos feitos da mesma matéria.

Reply 1988 não é uma série, é uma recordação de quem fomos e pode ser assistida na Netflix.

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