RecadeX: O homem da bicicleta facilita a tua vida em Torres Novas

Se és de Torres Novas ou passas por lá algumas vezes, decerto já deste de caras com alguém a pedalar numa bicicleta com atrelado e bandeiras. Sim, é mesmo verdade. Chama-se RecadeX e é uma empresa fundada por Licínio Neto, formado em Engenharia do Ambiente.

Antes de se deixar levar por esta nova experiência, Licínio passou por vários trabalhos e formações, mas rapidamente percebeu que não queria ficar fechado num escritório o dia inteiro. A paixão pela bicicleta sempre existiu e sempre passeou por aí com este veículo. Decidido a mudar a sua vida, Licínio resolveu criar a RecadeX, empresa que surgiu na StartUp Torres Novas e que faz serviços de entregas através da bicicleta elétrica. Basta dar aos pedais.

Pensou em criar uma empresa de estafetas de bicicletas, mas, dada a dimensão da cidade de Torres Novas onde mora e foi criado, optou por alterar o negócio e alargar o leque de serviços a take-aways, lavandarias, entrega de flores, entre outros. Um serviço único, inovador e inspirador na região.

Estivemos à conversa com Licínio, já conhecido na cidade, para perceber melhor o negócio e as suas ambições.

Echo Boomer (EB) – Licínio, primeiro que tudo. De onde vem o nome RecadeX?

Licínio Neto (LN) – Recados com Fedex. Mas, atenção, não é para me confundirem com um simples moço de recados. Eu até fiz esse apontamento no site, que a RecadeX é mais que isso.

EB – Neste nível, és, portanto, pioneiro.

LN – Eu penso que sim, não tenho conhecimento de nada parecido aqui no país. Pode haver algo parecido, mas com toda esta panóplia de serviços que eu ofereço, e que eu tenha conhecimento, não existe.

EB – Tens alguma rota definida?

LN – Até agora não porque ainda não tive nenhuma empresa a ficar como cliente fixo e com entregas para fazer todos os dias. Pensava que seria mais fácil, até porque cheguei a fazê-lo numa empresa. Dava-me mais prazer do que agarrar no carro. Aliás, como percebi que demorava o mesmo tempo, mais valia dar umas pedaladas. Neste caso, fiz também as contas, e percebi que as empresas gastam metade ao optar pela bicicleta para entregas.

EB – Além do gosto pela bicicleta, inspiraste-te em algum modelo de trabalho lá fora?

LN – Eu na altura pensei em meter um atrelado nas minhas bicicletas, mas, devido às subidas da cidade, tive de arranjar uma opção que desse para várias coisas. E elétrica, claro.

EB – E consegues pedalar todos os dias? A RecadeX fica só em Torres Novas?

LN – Sim, embora fique um bocadinho cansado no final da semana… Eu estou numa via de arranjar interessados para espalhar o conceito para cidades maiores. Aqui perto, talvez Abrantes e Tomar. E depois as capitais distrito.

EB – Nesse caso ias optar pelo aluguer das bicicletas?

LN – Em princípio quem quer começar tem de investir, ou, então, tinha de ser eu a dar alguma informação de obtenção de financiamento a essas pessoas. Mas estou confiante que possa ter interessados no negócio.

EB – Portanto, nesta fase, seria mesmo expandir para o restante Médio Tejo.

LN – O Médio Tejo interessa neste momento porque eu estou numa aceleradora de ideias da CIMT (Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo) onde me aconselharam a expandir, um pouco ao estilo da Uber. Mas é um negócio diferente. Tens de pedalar, não basta pegares no carro. Mais fácil é franchisar.

EB – E aí deixavas os teus “parceiros” serem independentes ou terias sempre uma última palavra no que iam fazendo, no percurso, nos clientes?

LN – Aí dava liberdade, claro. A pessoa teria de avaliar e analisar o mercado e ver o que seria mais vantajoso. Claro, haveria uma forma de controlo qualquer. As bandeiras publicitárias que exponho quando circulo poderão ser uma forma de “expansão” a nível regional e nacional, e, aí, haverá algum tipo de controlo.

EB – Quais são os serviços que te sustentam?

LN – Basicamente, take-away, roupa das lavandarias, entrega de flores – tem corrido bastante bem -, entrega de cabazes, entrega de correspondência e as bandeiras da publicidade. No caso das bandeiras, 50% do tempo tenho publicidade de empresas. Para o mercado torrejano não é nada mau ao início.

EB – Tens clientes todos os dias?

LN – Ao nível de take-away, sim.

EB – As empresas que já te contactaram para promover os seus serviços através das bandeiras deram-te algum feedback?

LN – Sabes, na publicidade é sempre difícil teres algum feedback. Mas sei que há bastante visibilidade. As pessoas comentam “que bandeira é aquela?”, “já mudaste outra vez de bandeira? Isso está a resultar!”. Normalmente não tenho um retorno palpável disso.

EB – Isso significa que já és muito conhecido na cidade.

LN – Pois (risos). As pessoas podem não saber ao certo o que eu faço, mas já sou conhecido.

EB – E o que é que te dizem quando te veem por aí? Qual foi o comentário mais inusitado que já ouviste?

LN – Já tive vários. Ao início chegavam a bater palmas, dizem “boa iniciativa, parabéns!”, e isso deixa-me muito feliz. Há outros que, às vezes, mandam parar, mas não me dizem nada. É só mesmo para se meterem comigo.

EB – E o teu corpo, como aguentas? 30 quilómetros diários ainda é bastante.

LN – Eu tenho assistência de motor elétrico, o que me ajuda bastante. Mas às vezes esqueço-me de o ligar (risos). Normalmente os estafetas fazem horário de part-time, mas eu tenho um horário maior. Das 10h às 22h, embora não esteja sempre a circular.

EB – Esta deve ser uma pergunta recorrente. Como é que te proteges contra o calor?

LN – Eu gosto do calor. Ali na casa dos 30 graus aguento bem. E a brisa que às vezes bate na minha cara também ajuda. Claro que dos 40 graus para cima já é complicado.

EB – E quando vier o mau tempo, a chuva, como é que vais fazer?

LN – Essa sim é outra pergunta recorrente. Tenho vestuário adequado para essas alturas. Já testei e vi que resulta. Depois tenho um toldo para tapar a caixa toda. É perfeitamente seguro.

EB – Os idosos envolvem-se? Isto é, como reagem?

LN – É um mercado difícil, são muito desconfiados (risos). Mas aqueles com quem fui ter foram ficando. O passa palavra ajuda bastante e vende bastante. E, ao início, tento sempre fazer um preço acessível para garantir o maior número de clientes possível.

EB – Mas o RecadeX em si não está a ter a adesão que esperavas?

LN – Esperava mais, para ser sincero. Aliás, cheguei a ponderar mudar de local. Mas vou conseguindo prevalecer aqui.

EB – Tu, sendo incubado na StartUp Torres Novas, o que retiras daqui? Como ajudam, o que é que acharam da ideia… E como é que conheceste o espaço?

LNTodos adoraram a ideia quando fiz o pitch para estar aqui. Têm ajudado nas falhas que eu tenho em termos de comunicação, na estrutura do pitch propriamente dito e na parte financeira no que toca à gestão do negócio. Tenho feito, também, alguns eventos apoiados aqui pela StartUp Torres Novas. Quanto ao conhecimento do espaço, é difícil não reparar no edifício. Depois pesquisei informações na Internet e reparei que queriam recolher ideias, e, na altura do Natal, um familiar questionou-me o porquê de eu não abrir uma empresa. Então pensei em algo que, nesta fase, não necessitasse de muito dinheiro de investimento, pelo que fiz a minha candidatura. E correu bem.

EB – As pessoas adoram criatividade. Nesse campo, como te comportas?

LN – A bicicleta ajuda, tem várias facetas. Ainda agora comecei a transportar crianças. Aliás, a bicicleta foi desenhada para esse fim, o transporte de crianças. E a adesão foi boa. Mas vou estar presente na Feira dos Frutos Secos e, até lá, vou inventar qualquer coisa original (risos).

EB – Não foi um choque passar do ambiente de escritório para um mais rural?

LN – Não, porque não foi uma passagem imediata. Estava sempre ocupado, fosse com outros trabalhos, com formações… Após tudo isso, ainda dediquei três meses do meu tempo a preparar a RecadeX.

EB – Como é que reagiu a família a esta mudança?

LN – Nada bem, pelo menos a mais próxima. E ainda não reagem bem. É um bocado desmotivante, para ser sincero.

EB – E entregas complicadas ou delicadas?

LN – Já tive várias. Às vezes é com cada peripécia… (risos). Principalmente para entrega de flores. Por vezes os apaixonados não sabem a morada certa, há complicações para saber o prédio, depois a pessoa tem de descer… E eu para manter a surpresa digo que tenho ali uma encomenda extraviada e para confirmar se é mesmo para essa pessoa ou não.

EB – Deve ser engraçado ver a reação das pessoas.

LNHá umas que se fartam de chorar, outras que ficam atónitas. É engraçado, sim.

EB – Ou seja, é um trabalho divertido? Dá-te gozo?

LN – Sim, claro, e depende muito das situações. Primeiro porque é uma bicicleta e não causa poluição, depois por todas as surpresas que vão surgindo no caminho.

EB – Há pouco falaste na possibilidade de expansão de negócio. Mas e se surgisse um ou vários com base no teu, sem a tua influência direta, como reagirias?

LN – É assim, se isso não impossibilitasse eu expandir o meu, tudo bem. Caso contrário era complicado, até porque as capitais distrito não são assim tão grandes. Mas acho difícil alguém pegar no conceito exatamente como ele está e copiá-lo sem me dizer nada. Já me enviaram mensagens para trabalhar comigo aqui em Torres Novas, mas eu dou conta do recado aqui na cidade.

EB – Por último, as tuas expetativas para a RecadeX?

LN – Continuar a evoluir e não estagnar, isso é essencial. E é motivante.

EB – Esqueci-me de outra questão essencial: desde que começaste a pedalar, quanto é que já emagreceste?

LN – Emagreci mais agora porque mudei de dieta. Agora sou vegan!

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