Crítica – The Sadness (MOTELX)

Não é particularmente variado no seu enredo, mas é ambicioso o suficiente para nos dar uma espreitadela sobre um novo universo de horrores.

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Sinopse: “Depois de um ano de luta contra uma pandemia com sintomas relativamente benignos, uma nação frustrada baixou finalmente a guarda. É quando o vírus sofre uma mutação espontânea, dando origem a uma praga que altera a mente. As ruas explodem em violência e depravação, à medida que os infectados são levados a praticar os actos mais cruéis e horríveis que se podem imaginar. Homicídios, tortura, violações e mutilação são apenas o começo. Um jovem casal é conduzido ao limite da sanidade enquanto se tenta reencontrar no meio do caos. A era do civismo e da ordem já não existe. Existe apenas “A Tristeza””

Texto de: Filipe Santos

Uma velhinha entra num café de rua e procede a atacar vários clientes, espalhando um vírus de agressividade. Antes de conseguir afetar o nosso protagonista, Jim, a velhinha é varrida por um carro. No momento em que Jim aproxima-se para verificar se a velhinha está bem, o condutor do veículo sorri-lhe de trás do volante com os olhos irradiados de sangue e sorridente pela perspetiva de poder matar. Este é o ponto de partida para uma aventura sádica e mutiladora dos sentidos. Este é The Sadness.

Quando um vírus aparentemente inofensivo de repente sofre uma mutação, Taiwan é assolada por uma epidemia de violência e depravidade, com os seus cidadãos a transformarem-se em maníacos homicidas. Kat e Jim são um casal de jovens namorados que se tentam reencontrar durante esta explosão de carnificina, mas há sempre o risco de não saírem ilesos dos efeitos do vírus. Um filme sobre a força para o amor persistir, num cenário de pura e monstruosa indulgência.

O filme leva-nos numa viagem de loucura, mutilação e sadismo, que tem os seus altos e baixos, mas destaca-se como um filme corajoso e necessário, numa época em que o terror está a ficar mais submisso e minimalista. Talvez um dos filmes mais agressivos de sempre e, sem dúvida, o épico de terror mais chocante desde 28 Dias Depois.

the sadness critica echo boomer 1

Realizado pelo canadiano Rob Jabbaz, que esteve presente no festival, The Sadness é um filme de terror verdadeiramente independente, com financiamento privado, produzido e distribuído a partir de Taiwan. Jabbaz estreia-se com a sua primeira longa-metragem, depois de uma carreira em animação e publicidade, com um filme que tem os seus problemas, mas que é bem vindo pela forma como provoca um murro no estômago num público cada vez menos habituado ao terror visceral. Este não é um filme de ambiência e de horrores inomináveis, é uma viagem de sobrevivência.

Os elementos de suspense estão muito fortes no início, mas perdem alguma força ao longo do filme. O grande feito de The Sadness é conseguir ser um filme absolutamente imperdoável no grafismo, tendo vários momentos de incómodo visual com as atrocidades representadas. Destaco a primeira cena, relatada no início da crítica, como a mais aterrorizante do filme. Já um ataque no metro impressiona pela forma como retrata o processo de disseminação de uma epidemia, e um momento em que Jim tenta salvar um homem de um ataque sádico, apenas para constatar que a vítima estava a deliciar-se na sua tortura, mostra-nos que a repressão de vontades pode ter resultados devastadores. Se aguentarem o nível de sangue e vísceras expostas, vão encontrar uma mensagem coerente sobre o perigo da alienação e dependência emocional, algures no meio da carnificina.

Dito isso, os níveis de violência e depravidade não são para todos. Deu para ouvir os lamentos no público durante o visionamento e alguns detalhes, como a violação cranial de uma mulher, ou o infanticídio de crianças infetadas, podem ser demasiados para alguns espetadores.

Outro problema é que o final é muito previsível. Sentimos que o duplo protagonismo está desequilibrado a certa altura e queremos ver a transformação de um dos nossos heróis, que já sabemos ser inevitável.

A certo ponto, torna-se cansativo pela insistência no grafismo e impacto visual da violência, e talvez vá longe demais no retrato de algumas cenas de violência que parecem acontecer apenas pela vontade de chocar, mas The Sadness tem alguns momentos verdadeiramente arrepiantes que merecem ser vistos.

Uma ideia muito boa que o filme apresenta é que os infetados continuam conscientes e com a personalidade intacta, apenas indulgente de qualquer vontade reprimida. Capazes de raciocinar e comunicar, estes psicopatas homicidas sem controlo conseguem expressar não só pelas suas ações, mas por palavras, o impacto que o vírus teve nas suas personalidades. É arrepiante ver como alguns não conseguem parar de mutilar, apesar de saberem que o que estão a fazer está errado. Só é pena que essa ideia não seja mais explorada. Além do momento final e de um momento em que vemos aquele que será um dos principais antagonistas a assumir a sua natureza pervertida, não temos uma grande exploração dramática de como o vírus pode ser interpretado como libertador para algumas pessoas.

A certo ponto, esse antagonista, conhecido por Businessman, numa interpretação marcante de Tzu-Chiang Wang, destaca como os tempos mudaram – as pessoas estão dependentes dos seus telemóveis e isolaram-se emocionalmente umas das outras. No fundo, o filme está a pedir-nos para nos analisarmos a nós mesmos e ao perigo da repressão de emoções e vontades. Juntando a isso conceitos como ética científica, descrença nas instituições e o poder auto-destrutivo do amor, o filme até tem bastante potencial para explorar temas desconfortáveis, mas nunca vai muito longe.

Mas no fundo, The Sadness é sobre o perigo da dependência emocional. Os protagonistas, o casal Jim e Kat, estão a tentar reencontrar-se no meio da explosão de violência, o que pode não ser a decisão certa para assegurar a sobrevivência. A história podia ser mais original e o retrato da epidemia, e de como isso afeta os nossos protagonistas, ser mais explorado, por isso sente-se que, quando o filme termina, deixa algo a desejar.

Esperemos que, com o sucesso internacional deste filme, Jabbaz tenha oportunidade de fazer sequelas que explorem mais as ideias associadas a este universo. No entanto, continua a ser um filme com uma estrutura aceitável e equilibrada, e apesar de ter óbvias limitações de produção, tem momentos dramáticos bastante perturbadores e, até emocionalmente, tocantes. Destaco o momento de reencontro dos protagonistas, ao fim de uma hora e meia de atrocidades, que consegue ser tocante e ao mesmo tempo perturbador.

Apesar de ser muito forte e custoso em partes, sente-se que o filme podia ter ido mais longe nas suas ideias e não ter permanecido uma simples aventura de sobrevivência. Não é particularmente variado no seu enredo, mas é ambicioso o suficiente para nos dar uma espreita sobre um novo universo de horrores. O plano final deste filme não sairá tão cedo da vossa memória, por isso, acautelem-se.

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