Crítica – The Night House (MOTELX)

Não é um filme que pareça trazer algo de novo, mas esconde boas surpresas sob a superfície, com um enredo que é tanto clássico como original.

- Publicidade -

Sinopse: “Em choque pela morte inesperada do seu marido, Beth é deixada sozinha na casa à beira do lago que ele construiu para ela. Ela tenta o melhor que pode para não se deixar ir abaixo – mas então começam os sonhos. Visões perturbadoras de uma presença na casa chamam-na, acenando com um fascínio fantasmagórico, mas a forte luz do dia elimina qualquer prova de assombração. Ignorando os conselhos dos seus amigos, Beth começa a vasculhar os pertences dele, ansiando por respostas que só vão adensar o mistério.”

Texto de: Filipe Santos

Depois do inesperado suicídio do seu marido Owen, Beth tenta lidar com o luto enquanto arruma os assuntos pendentes do marido, permanecendo na casa de verão junto ao lago onde ele se matou. Logo desde a primeira noite sozinha, uma estranha presença começa a visitar Beth e ela assume que se trata do espírito de Owen, a comunicar com ela do outro mundo. Sentindo-se abandonada e traída pelo homem que amava, Beth exige respostas desta presença que todas as noites a visita através de pesadelos perturbadores, impelindo-a a procurar uma casa que ela desconhecia existir. Ignorando os conselhos dos seus amigos, Beth lança-se numa viagem para descobrir a verdade e usando as pistas que vê nos seus sonhos, começa a vasculhar o passado de Owen. O que ela vai descobrir é um segredo tenebroso que coloca em causa todo o seu casamento, e a sua vida. Beth pode ser a próxima vítima de um mal obsessivo e implacável, que está mais perto do que ela imaginava.

David Bruckner, o realizador por trás de Signal, The Ritual e de alguns dos melhores segmentos das antologias VHS e Southbound, regressa ao grande ecrã com um fantástico drama sobrenatural. The Night House é um dos melhores filmes de terror do ano de 2020 e só é uma pena que só agora esteja a ter o reconhecimento merecido, depois de mais de um ano perdido, sem acesso a distribuição devido à pandemia Covid-19.

Escrito por Ben Collins e Luke Piotrowski, os guionistas por trás de Siren, Stephanie e do excelente Super Dark Times, The Night House conta-nos uma história familiar de assombração através de um prisma original e inquietante sobre luto, casamento e obsessão.

Com um guião sólido e surpreendente, Bruckner guia-nos por uma viagem de descoberta sobre os segredos de um casamento através de fantásticas sequências de terror em que Beth tenta comunicar-se com o fantasma do marido. Durante o filme, ela segue os vestígios da sua vida passada, suspeitando de casos amorosos, mas a sua busca leva-a a procurar por uma estranha casa invertida, que pode ser a resposta para o porquê do suicídio de Owen e das visitas da entidade que a atormenta.

Uma personagem forte, desolada pelo acontecimento fatal e já afetada por uma depressão duradoura, Beth é uma protagonista complexa e cativante. Logo de início acreditamos na sua dor e conseguimos sentir o desespero de exigir respostas, retribuição, por uma tragédia inexplicável. Ao longo do filme estamos do lado dela conforme vai juntando as peças do puzzle por trás do misterioso suicídio e, se o guião se torna um pouco previsível, a realização sublime e a representação maravilhosa de Rebecca Hall elevam o filme a um patamar maduro e sofisticado de terror.

Não é um filme que apresenta sustos fáceis, antes utiliza jogos de perspetiva e ideias únicas, para representar tanto sequências perturbadoras como o testemunhar de homicídios, como a manifestação de uma presença invisível e sobrenatural. Sem querer revelar demasiado, vou só dizer que nada é o que parece.

Há que destacar as sequências de sonho capturadas com um excelente uso da câmara e iluminação, e uma direção de som inquietante, sem nunca depender de algo que nos salte para a frente da câmara só para provocar um arrepio fácil. Destaco o momento em que Beth enfrenta a entidade no molhe da casa, à noite, depois de ter sido ali atraída por visões do passado. A realização de que as passadas ensanguentadas são reais e estão a aproximar-se culmina num momento brilhante de contato, garantindo que o que estamos a ver é um filme que brilha pela simplicidade.

the night house motelx critica echo boomer 2

Outra sequência a destacar, pela originalidade, é um momento na casa de banho em que Beth, determinada a abandonar a sua busca e a desesperar por respostas, é finalmente confrontada pela entidade cara a cara. Digamos que é uma sequência única na forma como nos envolve, tal como os personagens, na emoção e terror de um romance único. A reviravolta que acontece neste momento é perturbadora e segue-se uma sequência alucinante de terror.

O guião não é a coisa mais original do mundo, mas é tão sólido que pode ser usado como referência para estruturar um mistério sobrenatural sem excessos, reduzido ao essencial. Há um momento em que a protagonista faz uma revelação sobre os detalhes do suicídio do seu marido durante um encontro com amigos que perturba tanto pelo realismo, como pela sensação iminente de desgraça. Prestem bem atenção a todos os detalhes. Todas as respostas deste mistério estão presentes desde o início e, se a estrutura pode ser previsível, a revelação final não será.

E que revelação final. O clímax do filme mostra um dos confrontos entre protagonista e antagonista mais sóbrios, maduros e inquietantes que já vi num filme de terror. Esta sequência é feita com tanta mestria e confiança que, apesar de ser tão simples e ter uma caracterização tão modesta, perturba pela forma direta como o mal representado é perene.

Um filme sobre o sacrifício do amor e o trauma da morte, The Night House é uma história de amor sem tempo para o romance, apenas para a inquietação e sofrimento inerentes às relações.

David Bruckner já tinha mostrado com The Ritual que é capaz de representar histórias clássicas de terror com uma abordagem original. Em The Night House, o terror é tanto subtil e inquietante, como assumido e impactante. Não é um filme que pareça trazer algo de novo, mas esconde boas surpresas sob a superfície, com um enredo que é tanto clássico como original. Em The Night House, nada é o que parece.

- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Parceiros

Relacionados

Crítica – Malignant

Malignant é mais um excelente filme de origem de uma nova franchise criada por um dos cineastas de horror mais bem sucedidos do século, James Wan.

Crítica – Mad God (MOTELX)

Se aceitarem que um filme pode ser como um sonho, demente, descontrolado e desnecessário de ser explicado, então irão apreciar Mad God.

Crítica – Sweetie, You Won’t Believe It (MOTELX)

Sweetie, You Won't Believe It não é um filme que se propõe a oferecer nada de novo ao género, mas é uma lufada de ar fresco no panorama internacional de comédias de terror.

Crítica – Gaia (MOTELX)

Gaia é, no final de contas, uma história de terror ecológico, não tanto sobre uma ameaça monstruosa, ou um conflito entre natureza e tecnologia, mas sobre a inevitabilidade do ser humano espalhar destruição por onde anda, tenha boas ou más intenções.
- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Recentes

Os diplomas e certificado escolares vão passar a registar as atividades, iniciativas e projetos dos alunos

Desta forma, cada estudante verá reconhecido o seu percurso escolar em todas as dimensões.

60.000 jovens vão poder fazer um Interrail gratuito já em 2022

Poderão viajar por um período máximo de 30 dias.