Crítica – Sweetie, You Won’t Believe It (MOTELX)

Sweetie, You Won’t Believe It não é um filme que se propõe a oferecer nada de novo ao género, mas é uma lufada de ar fresco no panorama internacional de comédias de terror.

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Sinopse: “Tudo começa trivialmente – com uma zanga entre um jovem casal. Os cônjuges aguardam o primeiro filho e a cada dia a situação piora. O herói principal, Dastan, não consegue suportar a pressão contínua da sua esposa. Ele decide fugir apenas por um dia com os seus amigos: um empresário azarado e um polícia local. Juntos, planeiam ir pescar e teriam tido sucesso, se uma série de imprevistos repentinos e misteriosos não tivessem ocorrido.”

Texto de: Filipe Santos

Dastan, um jovem que está prestes a ser pai, foge com os amigos para uma viagem de pesca em busca de pelo menos um dia de descanso das queixas intermináveis de Zhanna, sua esposa. Mal sabe Dastan que ele e os seus amigos falhados vão envolver-se numa jornada louca de sobrevivência, quando testemunham um homicídio e dão por si a serem perseguidos por um bando de gangsters irmãos e um serial killer vingativo pelas pradarias do Cazaquistão.

Sweetie, You Won’t Believe It, a terceira longa do realizador Yergar Nurgaliyev, é uma comédia de terror que vai buscar influências tanto ao cinema de Emir Kusturica, como a Buster Keaton e Sam Raimi. Uma aventura tresloucada sobre a necessidade de se assumir responsabilidades e crescer, o filme é um conto sangrento e cómico de crescimento para os adultos imberbes dos dias de hoje.

A narrativa começa bem com uma tensa sequência em que percebemos como Dastan está a chegar ao ponto limite, constantemente enxovalhado e agredido emocionalmente pela sua mulher exigente. Mas quando ele e o seu grupo de amigos testemunham o homicídio de um ladrão que roubou um gangster local, o filme é catapultado para um nível frenético de aventura e carnificina. Na tentativa de os silenciar, os gangsters perseguem Dastan e os seus amigos. Também eles uma cambada inepta, todos irmãos e cada um mais falhado e estranho que o outro, estes gangsters mal amanhados acabam por cair nas malhas de um misterioso serial killer que vagueia nas planícies do Cazaquistão e está atrás deles para se vingar do seu cão de estimação que atropelaram mais cedo no filme. Entre decapitações, degolações, uma família de pervertidos sexuais que saltou do Massacre no Texas diretamente para aqui e um inimigo aparentemente imparável, Dastan e os seus amigos fazem de tudo para sobreviver a uma série de desafios loucos. A questão é: será que a amizade e o frágil ego masculino deles vai sobreviver também?

Venham ver este filme se estão à procura de uma hora e meia de diversão, um sentido de humor sádico e alguns gags visuais bem concretizados. Há uma particular sequência em que os nossos heróis tentam evitar serem descobertos pelo assassino quando se deparam dentro da sua casa. Ao longo de cinco minutos de tensão e excelente trabalho de câmara, vemos claras influências de Buster Keaton por via de Sam Raimi. Sweetie, You Won’t Believe It é um filme que se esforça ao máximo para nos entreter e, ao mesmo tempo, surpreender as nossas expetativas, por subverter o género de terror e comédia e a figura do homem chauvinista.

As influências de género estão bem presentes e, fora os protagonistas, todos os personagens são estereótipos exagerados, ao ponto em que a certa altura sentimos que o vilão serial killer é o mais racional e até a grande vítima desta história.

Não é um filme que surpreenda pela narrativa. A estrutura é bastante simples e todos estes elementos já foram vistos em outros filmes do género, mas estão bem equilibrados. O filme nunca perde o ritmo e, se falha, é na falta de ambição em ir um pouco mais longe com este universo de personagens exóticos.

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Os atores vão muito bem, destacando-se Rustem Zhaniyamanov no papel do irascível gangster Petok, que encabeça a missão de vingar os seus irmãos mortos. Seguido sempre de perto por um irmão matulão que está sempre a desmaiar cada vez que vê sangue, a aventura deste bandido de segunda é bastante cómica pela sua incompetência e piadas recorrentes. Acabamos por torcer mais pela sua sobrevivência, do que pela do próprio trio de protagonistas.

É um filme violento, não ao ponto de ser gratuito, mas não esconde o detalhe de algumas mortes mais sórdidas. Preparem-se para contar o número de cabeças decapitadas, rebentadas ou desfeitas. Mas é pelo lado do humor que o filme surpreende mais. Apesar de os gags visuais e a comédia física tornarem-se cansativos, a escrita, longe de ser perfeita em termos de estrutura, surpreende no que toca à comédia. É um pouco anacrónico o sentido de humor – parece que estamos a ver uma comédia de estrada dos anos 90 -, mas as falas e a entrega das mesmas, bem como o timing das piadas, estão no ponto. Falo principalmente do momento em que os protagonistas testemunham o homicídio que catapulta toda a aventura.

Sweetie, You Won’t Believe It surpreende também pela sobriedade da sua realização. Apesar de seguir um ritmo mais frenético e dependente de malabarismos visuais e físicos, a realização é bastante segura e a câmara é quase que um outro protagonista da aventura. Destaco o momento, pouco antes do filme descarrilar para o conflito total, em que o trio de heróis pára numa bomba de gasolina aterrorizante para atestar. A tensão e o humor funcionam nesta sequência melhor que em todo o filme, graças a um trabalho de câmara cuidado e bem planeado.

No fim de contas, Sweetie, You Won’t Believe It não é um filme que se propõe a oferecer nada de novo ao género, mas é uma lufada de ar fresco no panorama internacional de comédias de terror. Podia ter sido mais ambicioso na sua estrutura, se tivesse um guião mais sólido, sequências ainda mais arriscadas e uma conclusão mais impactante. Acaba por ser uma hora e meia de diversão garantida, mas que deixa um pouco a desejar.

O cinema do Cazaquistão de entretenimento parece estar no bom caminho, só falta limar algumas arestas.

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