Crítica – Gaia (MOTELX)

Gaia é, no final de contas, uma história de terror ecológico, não tanto sobre uma ameaça monstruosa, ou um conflito entre natureza e tecnologia, mas sobre a inevitabilidade do ser humano espalhar destruição por onde anda, tenha boas ou más intenções.

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Sinopse: “Numa missão de vigilância a uma floresta primordial, uma guarda-florestal encontra dois ‘sobrevivencialistas’ com um estilo de vida pós-apocalíptico. O rapaz e o filosófico pai têm uma misteriosa relação com a natureza e parecem ter uma religião própria. Há muitos aspectos suspeitos sobre os homens, mas quando a cabana é atacada por estranhos seres pós-humanos ela vai descobrir que há uma ameaça muito maior na floresta.”

Texto de: Filipe Santos

Quando Gabi, uma guarda florestal na África do Sul, perde-se numa imensa floresta durante uma missão de rotina, ela encontra um pai e um filho eremitas. Estes sobreviventes parecem ser seus salvadores. Eles acolhem-na, tratam dos seus ferimentos, protegem-na do ataque de estranhas criaturas e tentam devolvê-la de volta à civilização. Mas em breve Gabi descobre que nada é o que parece. Os seus salvadores veneram um fungo que torna seres humanos em monstros e que pode ser uma ameaça à sobrevivência da nossa espécie. A natureza está em guerra com o ser humano e ameaça devorá-lo por dentro.

A segunda longa metragem de Jaco Bouwer é mais um dos muitos contos de terror com temática ecológica que têm corrido os festivais no último ano. A exceção aqui é que Gaia foca-se mais na degeneração do agregado familiar do que em elementos fantásticos.

Apesar da beleza natural e fascinante do cenário em que o filme decorre, Gaia apresenta um elenco reduzido, estando mais focado em humanizar os seus protagonistas e o conflito que nasce das suas relações, do que em enaltecer o estranho e o misterioso. A narrativa tenta mostrar-nos a vertente humana tanto da vítima, como dos antagonistas, ao balançar o protagonismo de Gabi, a ranger florestal, com o de Barend, o pai eremita que tenta proteger o seu filho da civilização humana, mas que enlouqueceu às custas da sua exposição ao fungo agressivo que os aprisiona ali.

Isso não quer dizer que o filme não nos mostre visuais incríveis, com a caracterização do fungo e das criaturas que infeta a serem particularmente perturbadoras, e algumas sequências de sonho que são quase hipnotizantes.

Mas muitas vezes não percebemos bem o sentido que a história quer passar, e somos levados mais numa viagem de contemplação e intimidade com estes personagens do que numa aventura de género. As criaturas que ameaçam a vida dos protagonistas não aparecem muito, sendo mais habitantes secundários deste ambiente. No fundo, a ameaça principal da narrativa é o ser humano.

O fungo, mesmo que agressivo na forma como se alimenta dos seres humanos, e perigoso na ameaça que constitui para a nossa espécie, é apenas uma consciência animal que procura sobreviver. Em Gaia, o perigo está nas ações que os homens escolhem tomar. A maior ameaça à sobrevivência de Gabi e do jovem Stefan, o filho do eremita que fica deslumbrado com a presença desta estranha, é Barend, que não soube lidar com o luto e que preencheu o vazio da sua vida com um fanatismo zeloso por um fungo agressivo.

Barend não se vê como vilão, apenas como um servo do fungo, da terra, da sua apelidada Deusa, tanto quanto as criaturas que habitam na floresta e vagueiam à procura de humanos para infetar. Ele não é necessariamente mau, é apenas devoto, e aí está o terror. O filme estabelece muitos paralelos com a atual cultura comunitária new age e o movimento hippie naturalista, sendo severo na sua crítica ao pensamento fanático e na forma como o crescimento humano exige integração social.

Mas estes elementos nunca são trabalhados ao ponto de o filme ter uma estrutura muito clara. Gaia é um drama de primeiro contato entre duas comunidades, a moderna e a naturalista, e o efeito que isso pode ter na destruição de ambas, mas essas conclusões são aludidas, nunca tornadas explícitas por uma narrativa com um princípio, meio e fim claros.

Os elementos de terror mais explícitos, nomeadamente as criaturas infectadas pelo fungo, vão buscar muitas referências a elementos verídicos da vida animal, mas não há forma de negar que tem semelhanças, talvez demasiado óbvias, com o videojogo The Last of Us. Tanto em termos de aspeto, como de comportamento, as criaturas são tão parecidas com os monstros desse videojogo, que eu perguntei-me se o filme seria uma adaptação secundária do universo desse jogo, ou um caso de plágio inconsciente.

gaia motelx critica echo boomer 1

Os momentos de terror estão mais centrados na tensão entre esta família que Gabi vem importunar, do que na ameaça das criaturas. Mesmo assim, o fungo aqui representado, apesar da sua forma nunca ser muito óbvia, é perturbador como antagonista. Isto porque através dos vislumbres perturbadores, há uma sensação bastante bem conseguida de uma consciência alienígena e agressiva. Talvez seja esse o objetivo do realizador, deixar-nos horrorizados com a iminência de uma ameaça que não conseguimos compreender, e que não nos quer compreender a nós.

Há, no entanto, elementos de terror mais clássicos, como a primeira sequência, quando Gabi está perdida na floresta, de noite, e o colega dela, Winston, está à sua procura. A sequência divide-se em dois, seguindo quer Gabi, quer Winston alternadamente, num crescendo de terror que eventualmente termina da forma mais inesperada. É pena que o resto do filme não siga este estilo mais assumido de terror.

No entanto, o filme tem outras mais valias. As criaturas, pelo menos o pouco que vemos delas, são muito interessantes, os detalhes do fungo que Barend venera são arrepiantes e cada sequência em que Barend visita o seu santuário onde presta cerimónia à sua “deusa” é bastante perturbadora. Isso diz muito de um filme em que os antagonistas nunca são muito claros. A realização faz o melhor que pôde com poucos recursos, e no geral com bons resultados.

Além do drama interpessoal, a melhor parte do filme são as sequências de sonho e viagens alucinantes que Gabi vive. Apesar de ocorrerem demasiadas vezes, ao ponto de a certa altura se tornarem previsíveis no desfecho, revelam sempre um visual inquietante que está bem associado ao tema de entrega à natureza, de abandono da humanidade destrutiva do ser civilizado. A forma como a natureza procura a sua comunhão é inquietante pelos visuais, e pela ideia controversa de entrega sexual a uma relação com um menor.

No fim do filme, não fica bem claro qual foi o seu propósito principal, mas penso que é esse o seu fascínio. Gaia é, no final de contas, uma história de terror ecológico, não tanto sobre uma ameaça monstruosa, ou um conflito entre natureza e tecnologia, mas sobre a inevitabilidade do ser humano espalhar destruição por onde anda, tenha boas ou más intenções. Se essa era a intenção do realizador, não está claro. Tal como um sonho, o filme está menos dependente de sentido e mais da viagem.

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