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Mafalda Veiga – Uma noite para comemorar em Lisboa

Mafalda Veiga pôde finalmente comemorar 30 anos de carreira com o público lisboeta, após a ameaça do Furacão Leslie ter obrigado, em outubro passado, a um cancelamento praticamente em cima da hora. Em noite de romaria à Praça de Touros do Campo Pequeno, a cantora – ora sozinha em palco, ora acompanhada pela sua banda e pelos convidados especiais Rui Reininho, Tiago Bettencourt e Ana Bacalhau – apresentou novos arranjos musicais e cantou em três línguas diferentes.

Não deixa de ser simbólico que a primeira voz que se ouviu no concerto de comemoração de 30 anos de músicas de Mafalda Veiga tenha sido a de Simone de Oliveira, uma artista consagrada que celebrou recentemente 60 anos de carreira. No âmbito de uma iniciativa em que 30 pessoas foram convidadas por Mafalda a ler excertos de 30 canções suas, Simone declamou os versos de “Uma noite para comemorar”. E foi o registo dessa gravação que ecoou na instalação sonora antes do início das festividades, tendo sido precisamente com essa música que Mafalda e a sua banda abriram o concerto.

Para esta ocasião especial, Mafalda Veiga concebeu um espetáculo diferente em parceria com João Gil, músico que, para além do seu projeto a solo Vitorino Voador, integra as bandas Diabo na Cruz e You Can’t Win, Charlie Brown. O resultado dessa colaboração refletiu-se numa interpretação mais despida das suas músicas, conferindo maior protagonismo à magia das suas palavras, não fosse ela uma escritora de canções. Para além de João Gil (multi-instrumentista que se revezou entre as guitarras, o ukulele e o piano), a banda que a acompanhou integrou ainda José Guilherme Vasconcelos Dias (teclados), António Vasconcelos Dias (guitarra), David Santos (baixo) e João Pinheiro (bateria), aos quais ocasionalmente se juntou um ensemble de três sopros e três cordas. Esse ensemble brilhou sobretudo na primeira parte do concerto, dando um tom orquestral a temas como “O Meu Amor”, “Estrada” e “Lado a Lado”.

Ao longo de duas horas, Mafalda Veiga revisitou os seus oito álbuns de estúdio, embora com maior enfoque em Praia (seu último longa duração, de 2016, que há poucos dias foi reeditado com três duetos inéditos) e Tatuagem, o álbum lançado em 1999 que lhe abriu as portas do mercado brasileiro, após dois temas desse disco terem feito parte da banda sonora de duas novelas da Rede Globo. Um desses temas foi “Gente Perdida” e, antes de o interpretar, Mafalda não se esqueceu de referir esse importante ponto de viragem na sua carreira.

Os momentos de maior cumplicidade ocorreram ao lado dos seus convidados especiais. O primeiro a subir ao palco foi Tiago Bettencourt, com o qual Mafalda cantou os temas “Tatuagens” e “Balançar”, o último dos quais numa feliz reedição do dueto que fizeram há dez anos no Coliseu dos Recreios. O momento hilariante da noite surgiu mais tarde, quando Rui Reininho cantou com ela “Miúdas Malukas”, cuja letra resultou de uma adaptação livre para a língua portuguesa que o vocalista dos GNR fez do tema “Luka”: a canção sobre maus-tratos infantis que celebrizou a americana Suzanne Vega nos anos 80, transformou-se numa cantiga sobre o ambiente caótico de uma casa partilhada por estudantes universitárias (“Parecem turcas/Pela maneira de gritar/Mas não se veem burcas/Há fios dentais a secar”). Após ter cantado com ela a canção “Praia”, Reininho despediu-se de forma mordaz, lançando farpas à tauromaquia: “a Mafalda transformou este teatro de crueldade (Praça de Touros do Campo Pequeno) num espetáculo com boa vibração”.

A última convidada foi Ana Bacalhau, em substituição de Jorge Palma, que, por questões de agenda, não pôde estar presente. Há males que vêm por bem: a presença da vocalista dos Deolinda permitiu a repetição de colaborações anteriores, nomeadamente quando tocaram uma versão de “Because the Night” (clássico da norte-americana Patti Smith que já tinham ensaiado no Rossio em 2014 e no qual sobressaiu o vozeirão de Ana Bacalhau) e “Imortais”, faixa do álbum Chão (2008), que também tinham tocado em conjunto no Festival Literário Internacional de Óbidos, no ano passado.

O concerto teve também momentos de grande intimidade, nos quais Mafalda Veiga esteve sozinha em palco com a sua guitarra acústica, porventura inspirada nos concertos a solo que tem vindo a realizar sob a designação Crónicas da Intimidade de uma Guitarra Azul e que, de certa forma, representam um regresso ao tempo em que compunha sozinha no seu quarto.

Foi dessa forma que interpretou “Fragilidade” – tema que foi buscar ao baú do álbum Nada Se Repete (1992) e que tocou sob um cenário onde predominava um foco de luz azul e alguns bancos suspensos no ar – e “Velho”, a primeira canção que escreveu, quando frequentava a escola secundária de Montemor-o-Novo. Naquela altura, Mafalda tinha apenas 17 anos, hoje tem 53, mas, a julgar pelas palmas recebidas, a canção envelheceu muito bem…

Sempre muito comunicativa, Mafalda foi aproveitando os intervalos entre as músicas para contar pequenas histórias. Antes da canção “Insónia”, falou da guerra privada que trava desde criança e pediu desculpa à sua mãe (presente na assistência) pelas noites mal dormidas. Confessou também algumas das suas fontes de inspiração: “Sunday Morning”, dos Velvet Underground, esteve na génese do tema “Domingo” e o seu tio Pedro da Veiga (antigo guitarrista de fado, a quem atribui a responsabilidade por ter começado a compor) foi homenageado através da canção “Fado”.

Contou ainda que tem vindo a recuperar alguns dos equipamentos que usou no início da carreira, tendo optado pelo som “manhoso” da cassete no tema “O Mesmo Deus”. E por falar em coisas antigas, não passaram despercebidos os ecrãs de televisões antigas espalhados pelo cenário, onde se podia ver estática e as barras coloridas que costumavam aparecer no início e no final das emissões televisivas. Para lembrar que 30 anos é, de facto, muito tempo…

Outra circunstância invulgar foi ter incluído no alinhamento três temas cantados na língua espanhola, escolha a que não é alheio o facto de Mafalda Veiga ter vivido em Espanha durante sete anos. Primeiro tocou “Una Casa”, do disco Tatuagem, e, mais tarde, a belíssima “Llovzina” chegaria como um chuvisco suave e refrescante. Na reta final do concerto, “Balada de un Soldado” – uma das suas primeiras canções, cuja letra é baseada no cancioneiro espanhol “Madre anoche en las trincheras”, a partir da carta de um soldado para a sua mãe em plena guerra civil de Espanha – foi entoada por todos os presentes sob um apropriado jogo de luzes de cor vermelho-sangue.

A primeira despedida fez-se em tom mais otimista com o tema “Olha como a vida boa”, cuja letra inclui a frase “E Arrumei as Gavetas e Cuidei do Meu Jardim”, que deu nome ao seu novíssimo livro de canções com ilustrações da artista Ana Vidigal. Mafalda voltaria pouco depois para o encore, altura em que, finalmente, cantou os singles do álbum de estreia (“Pássaros do Sul”) que lhe deram asas para voar em 1987. “Planície” (acompanhada apenas pela guitarra de João Gil, num arranjo semelhante ao utilizado no recente dueto gravado com Miguel Araújo) e “Restolho” (canção insistentemente pedida pelo público ao longo do concerto e interpretada a solo, com a sua viola acústica) foram apaixonadamente cantadas pela plateia inteira, acompanhadas com muitas palmas.

A banda e o trio de sopros regressaram depois para que a plateia guardasse “Cada Lugar Teu” como destino final, ao qual “só chega quem não tem medo de naufragar”. A viagem ao mundo de Mafalda em 31 melodias terminava sem sobressaltos (excetuando um problema técnico durante o tema “Abraça-me bem”), num Campo que foi Pequeno para acolher um público que, em certos momentos, chegou a assumir o protagonismo do espetáculo.

Foto: Nádia Dias (@nadiaa_dias no Instagram)

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